O lado sombrio do prazer 2

667 Palavras
Horas depois, Ellie se levantou devagar do banco de madeira. O corpo ainda reclamava em silêncio. Com cuidado, ajeitou o quadro quase finalizado no colo e o pendurou na parede do estúdio. Ficou ali por alguns segundos, observando a pintura sem piscar, como se tentasse entender o que havia colocado naquela tela — ou o que havia deixado escapar. Apagou as luzes e seguiu pelo corredor com passos cautelosos, atentos demais para uma casa que dizia ser segura. No banheiro, deixou a água quente escorrer pelo corpo, como se pudesse levar embora não só a dor, mas a confusão que se instalara dentro dela. Saiu envolta na toalha, os cabelos úmidos caindo pelos ombros, e escolheu um baby doll leve, simples, confortável. Não queria se sentir bonita naquela noite. Queria apenas se sentir em paz. Ao sair do closet, deu de cara com Marlon. O susto fez seu coração disparar. Ela recuou um passo instintivamente, mas disfarçou rápido demais para alguém que dizia não ter medo. Ele percebeu. Aproximou-se devagar, as mãos visíveis, como quem tenta acalmar um animal ferido. — Calma… — disse baixo. — Olha pra mim. Me desculpa por ontem. As lágrimas vieram antes que Ellie pudesse impedir. Ela mordeu o lábio, tentando se controlar. — Marlon… eu… — Eu sei — ele interrompeu, com uma suavidade rara. — Eu passei do limite. E você não é obrigada a suportar nada pra me agradar. Ela respirou fundo, juntando coragem. — Não é que eu não tenha gostado… — confessou, com a voz trêmula. — Mas foi demais. Doeu. E eu tive medo de te parar. Medo de você se chatear. De me rejeitar. Ele segurou o rosto dela com cuidado, os olhos firmes nos dela. — Nunca mais tenha medo de mim. Se estiver doendo, me para. Eu prometo que vou respeitar. Eu posso gostar de intensidade… mas você é mais importante do que qualquer desejo meu. Ellie assentiu, ainda chorando. — Eu prometo falar. — E eu prometo ouvir — disse ele. — Vou ser diferente. Duas vezes. Três, só se você quiser. Nunca mais daquele jeito sem o seu consentimento. Ela o abraçou, apertado, buscando abrigo no peito dele. — Tudo bem… então tá tudo bem. Ele beijou sua testa. — Agora deita. Hoje é só cuidado. Pela primeira vez em horas, Ellie relaxou. --- Na manhã seguinte, Marlon estava no escritório quando o celular vibrou. Brenda. — Marlon… a gente precisa conversar. Tô no seu antigo apartamento. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Tô indo. Desligou sem pensar. Pegou as chaves e saiu como quem foge de um incêndio interno. Quando entrou no apartamento, entendeu tarde demais. Brenda o esperava encostada na parede, segura demais de si, provocante demais para alguém que dizia querer apenas conversar. — O que você tá fazendo? — ele perguntou, tenso. — Sentindo sua falta — respondeu ela, aproximando-se. — Me diz… ela aguenta você como eu aguentava? Ele respirou fundo. — Eu amo a Ellie. — Ama — ela concordou. — Mas ainda deseja como sempre desejou. Ele tentou resistir. Tentou lembrar da promessa, do rosto de Ellie, do medo nos olhos dela. Mas Brenda conhecia seus gatilhos. Conhecia seus excessos. E ele cedeu. Horas depois, o silêncio pesou. — Você mudou — ela disse, deitada ao lado dele. — Mudou por ela. Ele virou o rosto. — Eu a amo. E acabei de cometer o pior erro da minha vida. Quando pegou o celular, o estômago afundou. Três chamadas perdidas de Ellie. — Droga… — murmurou, levantando-se. — Se ela descobrir, eu perco tudo. Brenda assentiu, em silêncio. — Me desculpa — disse ela. — Eu não devia. — Não devia — ele confirmou. — Mas aconteceu. E não pode acontecer de novo. Vestiu-se às pressas e saiu. Com o peito em guerra. Com a culpa cravada na consciência. E com a certeza amarga de que o homem que prometeu mudar… acabara de trair não só Ellie — mas a própria promessa.
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