Horas depois, Ellie se levantou devagar do banco de madeira. O corpo ainda reclamava em silêncio. Com cuidado, ajeitou o quadro quase finalizado no colo e o pendurou na parede do estúdio. Ficou ali por alguns segundos, observando a pintura sem piscar, como se tentasse entender o que havia colocado naquela tela — ou o que havia deixado escapar.
Apagou as luzes e seguiu pelo corredor com passos cautelosos, atentos demais para uma casa que dizia ser segura.
No banheiro, deixou a água quente escorrer pelo corpo, como se pudesse levar embora não só a dor, mas a confusão que se instalara dentro dela. Saiu envolta na toalha, os cabelos úmidos caindo pelos ombros, e escolheu um baby doll leve, simples, confortável. Não queria se sentir bonita naquela noite. Queria apenas se sentir em paz.
Ao sair do closet, deu de cara com Marlon.
O susto fez seu coração disparar. Ela recuou um passo instintivamente, mas disfarçou rápido demais para alguém que dizia não ter medo.
Ele percebeu.
Aproximou-se devagar, as mãos visíveis, como quem tenta acalmar um animal ferido.
— Calma… — disse baixo. — Olha pra mim. Me desculpa por ontem.
As lágrimas vieram antes que Ellie pudesse impedir. Ela mordeu o lábio, tentando se controlar.
— Marlon… eu…
— Eu sei — ele interrompeu, com uma suavidade rara. — Eu passei do limite. E você não é obrigada a suportar nada pra me agradar.
Ela respirou fundo, juntando coragem.
— Não é que eu não tenha gostado… — confessou, com a voz trêmula. — Mas foi demais. Doeu. E eu tive medo de te parar. Medo de você se chatear. De me rejeitar.
Ele segurou o rosto dela com cuidado, os olhos firmes nos dela.
— Nunca mais tenha medo de mim. Se estiver doendo, me para. Eu prometo que vou respeitar. Eu posso gostar de intensidade… mas você é mais importante do que qualquer desejo meu.
Ellie assentiu, ainda chorando.
— Eu prometo falar.
— E eu prometo ouvir — disse ele. — Vou ser diferente. Duas vezes. Três, só se você quiser. Nunca mais daquele jeito sem o seu consentimento.
Ela o abraçou, apertado, buscando abrigo no peito dele.
— Tudo bem… então tá tudo bem.
Ele beijou sua testa.
— Agora deita. Hoje é só cuidado.
Pela primeira vez em horas, Ellie relaxou.
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Na manhã seguinte, Marlon estava no escritório quando o celular vibrou.
Brenda.
— Marlon… a gente precisa conversar. Tô no seu antigo apartamento.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Tô indo.
Desligou sem pensar. Pegou as chaves e saiu como quem foge de um incêndio interno.
Quando entrou no apartamento, entendeu tarde demais.
Brenda o esperava encostada na parede, segura demais de si, provocante demais para alguém que dizia querer apenas conversar.
— O que você tá fazendo? — ele perguntou, tenso.
— Sentindo sua falta — respondeu ela, aproximando-se. — Me diz… ela aguenta você como eu aguentava?
Ele respirou fundo.
— Eu amo a Ellie.
— Ama — ela concordou. — Mas ainda deseja como sempre desejou.
Ele tentou resistir. Tentou lembrar da promessa, do rosto de Ellie, do medo nos olhos dela. Mas Brenda conhecia seus gatilhos. Conhecia seus excessos.
E ele cedeu.
Horas depois, o silêncio pesou.
— Você mudou — ela disse, deitada ao lado dele. — Mudou por ela.
Ele virou o rosto.
— Eu a amo. E acabei de cometer o pior erro da minha vida.
Quando pegou o celular, o estômago afundou.
Três chamadas perdidas de Ellie.
— Droga… — murmurou, levantando-se. — Se ela descobrir, eu perco tudo.
Brenda assentiu, em silêncio.
— Me desculpa — disse ela. — Eu não devia.
— Não devia — ele confirmou. — Mas aconteceu. E não pode acontecer de novo.
Vestiu-se às pressas e saiu.
Com o peito em guerra.
Com a culpa cravada na consciência.
E com a certeza amarga de que o homem que prometeu mudar… acabara de trair não só Ellie — mas a própria promessa.