O peso da culpa

835 Palavras
O silêncio da mansão era quase físico. Denso. Cortante. Era quebrado apenas pelo som baixo das velas crepitando sobre a mesa posta. Marlon parou na entrada da sala de jantar. E ali… tudo dentro dele desabou. Ellie dormia sentada, com a cabeça apoiada no braço dobrado sobre a mesa. O vestido justo delineava o corpo com delicadeza, não de forma provocante, mas íntima — como alguém que se arrumou para quem ama. Os cílios longos repousavam sobre a pele suave, a respiração calma denunciando o cansaço de quem esperou demais. Os pratos estavam intactos. O vinho, intocado. O jantar… frio. Ela tinha esperado. Por horas. Por ele. O coração de Marlon foi esmagado como vidro fino. O cheiro da comida ainda quente misturava-se ao perfume dela — aquele mesmo perfume que ele conhecia de olhos fechados. Um perfume que agora parecia acusá-lo, gritar dentro do peito dele: “Você não merecia isso.” Ele não conseguiu se mover. Ficou parado, imóvel, como um homem diante da própria sentença. Encostada mais ao fundo, Jéssica observava a cena em silêncio. Quando os olhos deles se encontraram, ela balançou a cabeça, decepcionada. Não havia raiva ali. Só tristeza. E isso doeu ainda mais. Marlon deu dois passos em sua direção, fraco, sem defesas. — Você estava com ela, não estava? — Jéssica perguntou em um sussurro quebrado. Ele fechou os olhos. A garganta secou. O peso da verdade esmagava seus pulmões. — Jéssica… — Você foi atrás do que ela não conseguiu te dar, né? — a voz dela tremia de indignação contida. — Marlon, você já destruiu essa mulher o suficiente. Agora que ela finalmente tá tentando… se abrindo… confiando… você faz isso? Ela respirou fundo, com lágrimas nos olhos. — Você quer que ela se quebre de vez? Marlon levou as mãos ao rosto, recuando como se tivesse levado um golpe no estômago. O nó na garganta era sufocante. — Eu nunca quis machucar ela… nunca… — Mas machucou — Jéssica disse, firme. — Olha pra ela. Olha direito. Ela passou o dia inteiro escolhendo esse vestido. Disse que queria te agradar. Que queria fazer algo especial. Porque ela se sentiu insuficiente. Porque ela achou que não era mulher o bastante pra você. Aquelas palavras atravessaram Marlon como facas. — Ela ficou triste — Jéssica continuou. — Mesmo assim, se arrumou, cozinhou, te esperou… e você nem atendeu o telefone. Aquilo foi o fim. Marlon desabou no sofá. O corpo curvado, os ombros tremendo. As lágrimas vieram silenciosas, pesadas, como se algo dentro dele estivesse finalmente morrendo. Não era apenas culpa. Era vergonha. Era covardia. Era o reconhecimento de que ele tinha sido pequeno diante de um amor imenso. Depois de alguns minutos tentando respirar, ele se levantou. Caminhou até Ellie e se ajoelhou ao seu lado. Com o cuidado de quem toca algo sagrado, passou os braços sob o corpo leve dela e a ergueu. Ellie se mexeu um pouco, mas não acordou. O rosto continuava tranquilo. Inocente. Aquilo quase o fez desabar outra vez. Levou-a até o quarto com passos pesados, como se cada metro fosse uma penitência. Sentou-a na cama, tirou com cuidado os saltos de seus pés delicados e os colocou no canto. Cobriu-a com o lençol e beijou sua testa. A voz saiu quebrada: — Me perdoa… me perdoa por hoje eu não ter sido homem o suficiente pra você. No banheiro, ligou o chuveiro e entrou debaixo da água quente ainda vestido. Encostou-se na parede e deixou o corpo escorregar lentamente até sentar no chão. Chorou. Chorou como não chorava há anos. Não pelo medo de ser descoberto. Mas pelo medo real de ter traído a única coisa pura que já teve. --- O sol da manhã entrou suave pelas frestas da cortina quando Ellie abriu os olhos. Ela se virou, viu Marlon ao lado, e sorriu com ternura. Aproximou-se e beijou seus lábios com carinho. — Bom dia, meu amor… — murmurou. — Que horas você chegou ontem? Eu te esperei pra jantar… preparei tudo com tanto carinho. Ele engoliu seco. — Eu tive uma reunião que se estendeu… — mentiu, sentindo a mentira queimar na língua. — Quando vi suas chamadas, vim correndo. Mas você já estava dormindo. Ellie sorriu doce. — Tudo bem. Só queria que você soubesse o quanto eu queria estar com você. Ela se aconchegou no peito dele. E Marlon a envolveu com os braços. O corpo dela era quente. Seguro. Verdadeiro. O coração dele… estava em ruínas. --- Mais tarde, Ellie nadava tranquila na piscina, sorrindo sob o sol. Livre. Serena. E Marlon observava tudo pelas câmeras. Sentado, sozinho, com o rosto entre as mãos. — Como eu tive coragem…? — sussurrou, a voz falhando. — Como eu fui tão fraco…? Olhou para a tela. — Isso não é amor… — murmurou. — Isso nunca foi. A culpa pulsava dentro dele como um segundo coração. E agora ele sabia: não era a Ellie que precisava mudar. Era ele. E talvez… fosse tarde demais.
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