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1507 Palavras
Mais alguns dias se passaram naquela mesma rotina. Eu andava até a Carneiro Silva e lá me encontrava com Rei, que sempre me esperava encostado a um poste com as mãos no bolso e um palito de dente na boca. Naquela manhã ele estava vestindo uma camisa oversized preta sem estampa e um jeans claro rasgado; o cabelo bagunçado como de costume e o aroma de Malbec Vinho, que me perseguia mesmo depois de ele ir embora. A gente ficava calado durante todo o percurso, o que era estranho, já que ele realmente gostava de me alfinetar. Mesmo sem dizer nada, eu sentia que ele parecia menos ácido e perverso do que no dia em que invadiu minha casa. Por falar nisso, meu pai nem sequer imaginava que eu era escoltada pelo homem que ameaçou nossa família. Pensar naquilo me fez sentir como uma traidora, só que eu não tinha muita escolha. Era isso ou encarar as ruas desertas sozinha. Eu vinha orando desde então para que Deus não permitisse que Rei me tirasse do meu caminho, para que ele fosse um instrumento nas mãos do Senhor e não uma pedra de tropeço na minha jornada. Também pedi para que Ele nunca permitisse que o contato que existia entre nós passasse daquela simples caminhada. Pelo visto o Senhor havia atendido minhas preces. – Até quando você vai caminhar em silêncio ao meu lado como se eu fosse um estranho? – Ele jogou o palito no chão e levantou uma sobrancelha. Eu fechei os olhos e respirei fundo. Perguntei a Deus qual era o intuito daquela pegadinha e, depois de constatar que meu guarda-costas estava mais sério do que o de costume, resolvi responder. – O que deseja que eu diga, senhor? – Tentei ao máximo soar desinteressada e impaciente. – Isso não vai funcionar comigo. Nem tente. – Não sei do que você tá falando. – Apressei o passo, mas ele segurou meu braço e me virou de frente para ele. – Não tente fingir ser algo que não é. Você e apatia são o mesmo que fogo e água. Eu já vi você se doendo por causa de uma borboleta que bateu no vidro da janela e um gato estropiado comendo um frango assado do lixo. Tentar não demonstrar emoção pra mim é o mesmo que pegar uma caneta e escrever “i****a” na minha testa. – Ele me olhou com aquela cara de “sabe tudo” e fez um sinal com a mão para que eu falasse. – Você quer criar uma i********e comigo com a qual eu não estou de acordo. Quanto menos eu souber de você e vice-versa, melhor para ambos. – Tentei soltar meu braço mas ele não largou. – Me solta, Rei. – Leo. – Ele soltou meu braço e chegou tão perto que eu senti o calor do corpo dele emanando contra o meu. – Me chama de Leo, Anjo. – O senhor precisa entender que esse tipo de i********e você deve guardar para o seu círculo pessoal e pessoas que te acham importante. E eu não tenho a menor das intenções de fazer parte deles. Senti os pelos da nuca arrepiarem quando ele segurou meu queixo com a ponta do dedo e baixou o rosto até estar a centímetros do meu. O olhar sombrio e desalmado reapareceu naquele mar azul que me encarava, e eu senti cada fibra do meu corpo paralisar, pávido pela altivez que emanava dele sem nenhum controle. – Não ache que pelo fato de eu me prestar ao serviço de acompanhar você pela minha comunidade, isso signifique que você me tem nas mãos. – Ele franziu o cenho e levantou um canto dos lábios. – Você pode ser uma bruxa de olhos bicolores, mas eu sou aquele para quem as bruxas entregam suas almas... – desviou os olhos para minha boca e acariciou meu lábio inferior com o dedão – e seus corpos. Minhas pernas tremiam de puro terror, e talvez de outra coisa que eu não sabia identificar. Ao ver ele tão manso nos dias anteriores, me descuidei e esqueci que aquele era o dono do morro, que tinha poder para fazer o que quisesse, com quem quisesse. Num estalar de dedos ele poderia me destruir e ninguém poderia fazer nada para impedir. O que eu não sabia, era que havia mais de uma forma de ser destruída por aquela criatura implacável. – P-p-por favor, me solta. – Consegui sussurrar. – Você vai me responder direito quando eu falar com você, sem usar de arrogância e superioridade? Acenei com a cabeça que havia entendido o recado e que faria as coisas da forma como ele queria. Ele estava certo quando falou sobre arrogância. Não é que eu quisesse ser assim, mas que armas e defesas eu tinha para usar contra ele? Para impedir que ele ultrapassasse meus limites e aquela situação ficasse estranha? Continuamos andando por alguns minutos e o silêncio agora me fazia sentir culpada, como se eu estivesse menosprezando alguém só por não ser do mesmo círculo de pessoas que eu frequentava. Da mesma forma que os “fiscais de santidade alheia” que eu tanto criticava faziam com os não fiéis. O versículo que falava sobre como a palavra do crente deve ser “sim sim e não não” veio à minha mente e eu entendi o que precisava fazer. – Re-... – Ele me fulminou com o canto do olho – Leo. – disse, tentando não o irritar. – Diga, Anjo. – A voz dele soou como se tivesse recebido a redenção. – Me desculpe por tentar ser alguém que não combina com a minha índole. O que eu quis dizer, é que eu não me sinto à vontade em conversar com você pois somos de mundos completamente opostos. “As más amizades corrompem os bons costumes”. O senhor sabe o que eu penso sobre tudo o que faz pra ganhar a vida, esse não é um tipo de amizade que eu quero, porque eu sinto que estaria compactuando com algo que entristece o meu Deus. – Se não quer conhecer o meu mundo, então, me mostre o seu. – Ele não parecia com raiva, apenas interessado no assunto. – E se eu não quiser? – Dei um passo para o lado enquanto andávamos, para garantir que seria mais fácil de fugir caso precisasse. – Então você estaria sendo uma péssima cristã. Já que o seu Deus mandou você converter o máximo de gente possível para a causa dEle. – Mas... – Tentei falar, porém, ele me cortou. – E eu vou arrancar as respostas de você de um jeito ou de outro. Resta a você decidir se quer testar minha paciência ou não. Eu não tinha muita escolha naquela situação, então tentei sair pela tangente e conseguir um meio-termo que seria bom para nós dois. Ele estava certo sobre pregar a Palavra, eu poderia usar aquela oportunidade para apresentar a ele o mesmo amor que salvou a minha vida. – Podemos falar sobre Deus, então? Esse é um assunto que me deixa bastante feliz. – Fale do que quiser, até mesmo do ar. Apenas continue falando. Dezessete dias se passaram e Leo continuava a me encontrar todas as manhãs. Conversávamos durante todo o percurso sobre histórias da Bíblia e a visão que eu tinha dos conceitos cristãos no mundo atual. Ele permitia que eu falasse o tempo todo, fazendo perguntas ocasionais para mostrar que estava atento a cada palavra que eu proferia. Volta e meia uma ou outra pergunta fora do assunto surgia e eu respondia para evitar que ele perdesse a paciência. As caminhadas matinais se tornaram importantes para mim, porque eu nunca tive conversas tão longas com ninguém em toda a minha vida. Muito menos conversas em que me permitiam falar por tanto tempo. Não sabia até quando aquilo ia durar, já que ele nunca parecia concordar com a minha visão do mundo, mas só pelo fato de ele não me rechaçar, já era um ponto positivo. Tudo parecia estar finalmente se encaixando, até que um dia ele não apareceu. Achei estranho, porém, não faria um alarde por um dia de companhia perdido. No entanto, um dia se transformou em dois, depois em três e, quando dei por mim, fazia uma semana que não o via. Para minha surpresa, senti falta da companhia; do aroma do perfume, do som rouco da voz e da presença que me trazia segurança. Na segunda seguinte, eu já não esperava pela companhia dele, sabia que teria de enfrentar meus medos sozinha e que errei muito feio ao me deixar levar por algo tão volúvel. Tranquei a porta de casa naquela manhã, fiz uma breve oração rogando a Deus por proteção e segurança e caminhei até meu portão de aço. Assim que botei os pés na calçada e virei de costas para trancar o portão, senti alguém parar atrás de mim. – Olá, Anjo. – Aquela voz tão familiar encheu meus ouvidos. Fechei meus olhos e sorri.
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