Capítulo 5
GAEL NARRANDO
A luz da manhã invadia meu quarto quando abri os olhos, ainda desnorteado com tudo que tinha acontecido no dia anterior . O rosto da garota, Valentina, surgiu na minha mente como um raio . Ela tinha aquele tipo de beleza que não pedia permissão pra entrar, ela simplesmente tomava espaço. Olhos firmes, cheios de raiva, mas por trás daquele olhar tinha dor . Orgulho ferido . Uma guerra interna que me lembrava de mim mesmo .
Me levantei devagar da cama, alongando os músculos, agora já estávamos na mansão . A mansão do meu pai era fria . Não só no concreto, nas paredes altas, nos mármores caros . Era fria na alma . O lugar inteiro parecia sufocar qualquer traço de humanidade . Crescer assim não foi fácil . Ser filho do Don Velásquez nunca foi sobre herança, foi sobre obediência . Sobre disciplina . Sobre se tornar uma máquina .
Entrei no banheiro e deixei a água quente escorrer pelo meu corpo . Enquanto ensaboava o rosto, as palavras do meu pai na noite anterior ainda ecoavam na minha cabeça:
— Ela vai ser sua. Custe o que custar.
Valentina não era só um acordo. Era a última peça num xadrez que meu pai vinha movendo há anos . E eu... era o cavalo, sempre pronto pra atacar .
Saí do banho, me vesti com calma . Calça de linho escura, camiseta básica branca, relógio importado no pulso . Desci as escadas enormes e silenciosas até a sala de jantar . O café já estava posto, como sempre . O cozinheiro nem tinha nome, só respondia a comandos . Peguei uma fatia de pão com geleia, mastigando devagar, quando ouvi o barulho da porta do escritório se fechando .
Levantei a cabeça no mesmo instante .
O Velho estava no telefone, voz firme e cada vez mais irritada .
— Eu disse que o acordo tá selado, porrä! — rosnou ele. — Não tem negociação, não tem revisão. Ele salvou a família dele por causa da gente, agora vai cumprir com a palavra!
Parei de mastigar.
Minha mandíbula travou quando escutei o nome que veio em seguida:
— Rei tá me testando, acha que pode barganhar com minha honra, mas ele esquece com quem tá lidando!
A ligação foi encerrada com um estalo seco . O Velho abriu a porta do escritório e me encarou por um segundo, como se soubesse que eu tinha escutado tudo .
— Tá com tempo, filho? — perguntou, passando por mim e servindo café numa xícara de porcelana .
Assenti e me aproximei .
— O Rei está te irritando? — perguntei, direto .
Ele soltou uma risada sarcástica .
— Tá querendo quebrar o acordo, pediu uma reunião . Acha que pode me passar a perna depois de tudo .
— E por quê?
— Diz que a menina não tem culpa . Que não é justo com ela, que podemos resolver de outro jeito, mas na hora de aceitar minha ajuda e prometer cumprir o acordo ele não pensou duas vezes, agora vem com essa história de que a filha isso e aquilo … — ele ergueu os olhos pra mim, frios como sempre — Mas isso não muda nada . O trato foi feito. A palavra foi dada . E no nosso mundo, palavra vale mais que sangue .
Cruzei os braços, firme.
— Quando vai ser essa reunião?
— Ainda tô decidindo. Mas nada — nada, repetiu ele com ênfase — vai impedir esse casamento . Essa união vai acontecer. Com ou sem a boa vontade da noivinha .
— Entendi.
— Você entendeu mesmo, Gael? — ele me encarou, como se quisesse atravessar minha mente . — Essa aliança é o futuro . É o nosso reinado selado por mais uma geração . E você tem que estar pronto pra fazer o que for preciso. Inclusive pressionar a noivinha e se for preciso entrar em guerra com o Rei e destruir o império dele, para ele entender que com a nossa família não se brinca e muito menos se dá a palavra sem ter a intenção de cumprir. Então esteja pronto .
Engoli seco, mas mantive a postura. Eu sempre estive pronto. Desde os doze anos.
— Tô pronto, pai.
Ele assentiu com a cabeça e voltou para o escritório. Dei meia-volta e saí daqui, com o estômago revirando. No fundo, eu sabia que tinha algo a mais por trás dessa reunião com o Rei. Ele não era homem de dar um passo à toa. E Valentina... bom, ela também não parecia ser mulher de abaixar a cabeça.
Quando cheguei ao jardim, meu celular vibrou.
Olhei a tela. Número conhecido demais.
Monique.
Uma lembrança antiga. Cabelos escuros, sotaque carregado da fronteira, sorriso de mulher vivida. O tipo de caso que nunca se apega, mas que deixa marca.
Atendi.
— Gael?
— Fala, Monique.
— Não sabia que você estava no país. Fiquei sabendo que voltou… e pensei que a gente podia se ver.
— Quando?
— Hoje à noite. Naquela boate da orla, L’Obscurité. À meia-noite. Me encontra lá?
Demorei um segundo pra responder. Parte de mim queria desligar. Eu tinha coisa demais na cabeça, um noivado arranjado com uma garota que com certeza me odiava, um pai em guerra com outro chefão e uma pressão que poderia explodir a qualquer hora.
Mas a outra parte, a parte suja, cansada, com sede de fuga, aceitou.
— Estarei lá.
— Sabia que não ia dizer não. — A voz dela veio provocante. — Te vejo logo, lindo.
Desliguei o telefone e respirei fundo.
Talvez eu precise mesmo dessa noite. De esquecer, de fingir que ainda tenho controle sobre a porrä da minha vida. Porque por dentro alguma coisa me dizia que essa garota, Valentina, ia virar meu mundo de cabeça pra baixo.
E eu não sei se isso é bom ou rüim.
Mas sei de uma coisa:
Ela já é minha.
Só falta ela perceber isso.