Capítulo 6

1331 Palavras
Capítulo 6 VALENTINA NARRANDO Eu tava com a cabeça a mil. Desde aquela noite, desde aquela malditä festa de aniversário em que meu destino foi decretado como se eu fosse um objeto qualquer, minha mente não parava. Era como se eu tivesse acordado de um sonho bom direto pra um pesadelo sem fim. Eu já tinha entendido que meu pai não tinha culpa, mas isso não tirava o fato que eu estava sendo obrigada a casar com uma pessoa que eu nunca nem tinha visto. Eu precisava respirar. Pensar. Ficar longe do olhar cheio de pena da minha mãe e da tensão no olhar do meu pai. Foi por isso que resolvi sair. Ir pra casa da Mônica e do Jonas sempre me fazia bem. A energia deles, a forma leve como tratavam as coisas, sempre me ajudava a aliviar o peso que carrego por ter nascido filha e neta de quem nasci. — Pai… — chamei baixinho, entrando no escritório dele. Ele me olhou com o cenho franzido. Ele ainda tava abalado por tudo, isso eu via nos olhos dele. — Fala, minha princesa . — Queria ir na casa da Mônica e do Jonas. Dar uma espairecida, posso? Ele respirou fundo e assentiu . — Pode. Mas você sabe que não vai sozinha. Vou pedir pra te levarem . — Eu sei — murmurei, sem discutir. Não era o dia pra tretar por isso . Minutos depois, já tinha dois soldados na porta de casa me esperando com um carro blindado. Me despedi da minha mãe com um beijo na testa e subi no carro . O caminho até o asfalto foi silencioso, tirando o som da minha respiração descompassada. Fiquei olhando pela janela o contraste das realidades. Do morro pro asfalto, tudo muda. As casas, as ruas, as pessoas, mas o que não muda é o nó que eu sentia no peito . Chegando aqui, Mônica já me esperava na porta com aquele sorriso de quem sempre tem um plano pronto . — Finalmente, mulher! Achei que tu tava se arrumando para casar e não para vir aqui em casa, minha mãe queria te ver, mas você demorou tanto que ela precisou ir trabalhar. — brincou, puxando minha mão e me levando pra dentro . — Nem brinca com isso, tô em tempo de surtar e você nem sabe o quanto. — murmurei, jogando o corpo no sofá da sala espaçosa . Jonas apareceu com uma lata de energético na mão e me jogou outra . — Toma, princesa da quebrada. Vai precisar de força pra contar o caos que pela sua cara é grande. — Vocês vão rir da minha cara. — resmunguei, pegando a lata. — Jamais. — Mônica disse, sentando do meu lado. — Desembucha. E eu contei. Contei tudo. Desde a chegada do Velho, o olhar gélido do tal Gael, o choque, a explosão na festa, a revolta… tudo. As palavras saíam de mim como se eu estivesse vomitando uma dor antiga. — Espera aí... você tá me dizendo que teu pai te prometeu pro filho do Don? — Jonas soltou, incrédulo. — Ele não me prometeu, ele fez um acordo há anos e agora o Velho voltou pra cobrar. — E você vai ter que casar com esse cara? — Mônica perguntou, arregalando os olhos. — Eu não sei. Meu pai disse que vai tentar resolver, mas, esse Velho não parece alguém que aceita não como resposta. Eles ficaram em silêncio por uns segundos. Jonas coçou a barba, pensativo, enquanto Mônica segurava minha mão. — Caralhö, Tina — Jonas murmurou, sério. — O Cegonha já sabe disso? Meu corpo travou por um segundo. O nome dele ainda era sensível demais de ouvir. — Não... — murmurei. — Mas não tem nada entre a gente. Foi só um beijo. Mônica arregalou os olhos e segurou o riso, chocada. — Como assim, “só um beijo”? Valentina, você deu uns amassos com o gerente da boca 10 do Alemão e agora tá prometida pro filho de um dos criminosos mais poderosos do mundo. Isso não é um roteiro de série, é a tua vida! Jonas riu, debochado. — Beijo no gerente da boca 10 do Alemão, filha do patrão, isso vai dar o que falar. — Cala a boca, Jonas! — ela deu um tapa leve no braço do irmão. — Tô só dizendo a real! Imagina se o Don descobre que a pretendente do filho dele anda se agarrando com o gerente da boca do pai dela. — Eu não sou pretendente de ninguém! — rebati. — Tenho um carimbo de propriedade que me foi imposto por um velho desgraçadö e um filho com cara de quem come alma no café da manhã. — Eita — Mônica soltou, rindo. — Tu tá amarga, hein? — Amarga e fodidä. — Eu no seu lugar estaria surtando. - Mônica falou séria. — E eu tô surtando, tá? — retruquei. — Eu tô com vontade de sumir. Fugi, sei lá. Só que não posso. Minha mãe, meu pai, minha família, tudo isso é maior do que eu. E agora eu tô no meio dessa guerra de poder como se fosse um cheque em branco. — Mas você não é. — Jonas falou, sério. — Você é a Valentina. Filha do Rei. Neta do Imperador. Tu não vai se deixar ser jogada de um lado pro outro sem lutar. — E se lutar não for o suficiente? — perguntei, a voz embargando. Mônica me puxou pra um abraço apertado. — Então a gente dá um jeito. Nem que a gente se junte e exploda tudo. Jonas riu, tenso. — Não fala isso nem brincando, Mônica. Nosso pai escuta uma dessas e te deixa de castigo até os trinta. Ela deu de ombros, mas não largou minha mão. E nesse momento, mesmo com tudo girando, eu me senti menos sozinha. — Ó... — Mônica começou, mudando o tom. — Eu tava esperando o momento certo pra falar disso, mas já que a bad tá aí... bora quebrar isso. — Como? Ela foi até a bolsa dela e tirou uns convites brilhantes, de papel grosso, com letras douradas. — Convite VIP da L’Obscurité. A boate mais top que voltou com tudo. E sabe o melhor? Agora que você fez dezoito, pode entrar legalmente. — Mas Mônica... — comecei a dizer, mas ela levantou a mão. — Nada de “mas”. Você tá precisando sair. Se distrair. Rebolar até esquecer que tem gente achando que pode decidir tua vida. A gente vai, dança, bebe se quiser, vive. Nem que seja por uma noite. Teu nome é Valentina, não é moeda de troca, tá ouvindo? Jonas assentiu. — Será que meus pais vão deixar? Minha mãe? Pensei na minha mãe. Ela ainda tava abalada com tudo, mas com certeza não queria me ver presa nessa tristeza. Parte de mim queria ficar aqui, encolhida, remoendo tudo. Mas a outra parte, a parte ferida, que gritava por socorro, implorava pra sair, respirar, fingir que tava tudo bem nem que fosse por uma noite. — Vocês acham que a minha mãe vai deixar? — perguntei, ainda hesitante. — Caralhö Tina, é só você não contar, ué — Jonas sugeriu, e Mônica bufou. — Cala a boca, idiotä! Claro que ela vai contar. E a tia Liz vai deixar sim, ela é cabeça aberta. — Então eu vou tentar — falei, me levantando. — Talvez uma noite diferente seja o que eu preciso. — Isso, garota! — Mônica vibrou. — Hoje você vai ser Valentina, não filha do Rei. Vai ser livre. A gente vai te lembrar que você ainda tem o controle da tua vida. Assenti e sorri, pela primeira vez desde que tudo começou. Alguma coisa dentro de mim acendeu. Uma faísca. Talvez por uma noite eu pudesse mesmo esquecer que estavam tentando fazer de mim moeda de troca. Talvez por uma noite eu fosse só eu. Valentina. E só.
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