Capítulo 7

1063 Palavras
Capítulo 7 VALENTINA NARRANDO Depois de umas boas horas na casa da Mônica e do Jonas, eu já tinha conseguido rir, chorar, reclamar e até planejar um plano de fuga que obviamente foi descartado porque a gente ainda preza pela vida . Me despedi deles com um abraço apertado e voltei pro Alemão, já sentindo o peso da realidade bater na porta . O carro blindado me deixou em casa e os soldados me acompanharam até a entrada, como sempre . Assim que entrei, fui direto procurar meu pai . Ele tava na sala, mexendo no celular, mas quando me viu, jogou o aparelho de lado com a cara fechada. — Chegou cedo — ele comentou, me observando dos pés à cabeça como se eu tivesse cometido um crime . — Pai… — respirei fundo. — Eu queria conversar . — Lá vem — ele cruzou os braços. — Fala . — A Mônica tá com uns convites pra uma boate. Eu queria sair com ela e o Jonas hoje à noite . O rosto dele mudou na hora . A sobrancelha arqueou, o maxilar travou, e ele ficou de pé num pulo . — Boate?! Tá maluca, garota? Nem pensar! Tá achando que só porque tem dezoito anos vai se enfiar nesses lugares cheios de marmanjo te olhando? Ah, mas não vai mesmo! — Pai, eu TENHO dezoito anos! — rebati. — Eu sou maior de idade, posso sair sim! — Pode uma ova! Enquanto morar debaixo do meu teto, vai seguir minhas regras . E regra número um: minha filha NÃO VAI em boate! — João Lucas, pelo amor de Deus! — ouvi a voz da minha mãe vindo da cozinha, enquanto ela se aproximava, já com a expressão cansada da briga antes mesmo de saber do que se tratava. — Que gritaria é essa? — A Valentina surtou! Tá achando que é largada, sem pai, querendo sair por aí rebolando até o chão pra bandido ver! — ele explodiu. — Eu não disse isso! — falei, indignada. — Eu só quero sair pra me distrair, dançar, respirar, viver! — Viver? Tu vive aqui ó, no conforto, com tudo do bom e do melhor. Agora vem me dizer que precisa “respirar”? Eu te dou um inalador! Minha mãe riu com a mão na boca, tentando disfarçar, mas não resistiu. — João, para de drama! Ela só quer sair com os amigos . É jovem, acabou de fazer dezoito . Você queria o quê? Que ela ficasse sentada bordando? — BORDANDO TAVA ÓTIMO! — ele gritou, jogando as mãos pro alto . — Melhor que com vestido curto, cheia de brilho, cheia de homem passando a mão com o olho! EU NÃO AGUENTO! — Amor… — Liz colocou a mão no peito dele, tentando acalmar . — Respira. A Valentina não é mais criança, a gente precisa confiar . — Confiança? Eu confio! Confio que se ela sair vai atrair uns dez querendo casar com ela . E eu vou ter que matar um por um! Então tô evitando fadiga porque o número 1, o filho do Velho, eu ainda nem consegui resolver. — Chega! — ela disse, autoritária. — Vai pro quarto, Valentina. A gente já conversa com você. Assenti, sem discutir. Subi pro meu quarto sentindo o coração acelerado. Eu sabia que ele ia surtar, mas mesmo assim eu precisava pedir. Precisava tentar viver um pouco fora dessa bolha sufocante. ( ... ) Uns dez minutos depois, escutei passos na escada. A porta se abriu e meus pais entraram. Meu pai estava mais calmo, apesar de ainda emburrado, e minha mãe parecia ter ganhado a batalha. — Pode ir — ele disse, cruzando os braços. — Mas qualquer coisa... QUALQUER COISA, me liga na hora, tá ouvindo? — Sim! — falei com um sorriso. — Obrigada, pai! Me joguei nos braços dele, dei um beijo no rosto e já fui pegando minha bolsa. — Vou me arrumar na casa da Mônica, tá? — Os soldados vão com você! — ele avisou de cara. — Eu sei — sorri. — Tá tudo certo. Minha mãe piscou pra mim e saiu do quarto e meu pai foi logo atrás, e fez sinal que tava de olho em mim. Eu dei risada e arrumei minha bolsa rápido. ( ... ) Desci com a bolsa no ombro e passei pela sala. Meus pais estavam assistindo TV, sentados juntos no sofá. Antes de eu sair, meu pai ainda teve a audácia de soltar: — Tem certeza que não quer ficar aqui vendo novela com a gente? Tá tão bom esse episódio e tem pipoca! Minha mãe olhou pra ele com tédio e deu um tapa leve na cabeça dele. — João Lucas, pelo amor de Deus! Deixa a menina ir viver, rapaz! — Viver? Ela quer é fazer o pai aqui morrer de desgosto. — ele murmurou, emburrado. Fui até eles, dei um beijo em cada um e saí com um sorriso no rosto. Era um alívio ser ouvida, mesmo com muito esforço e escândalo. O carro me levou de volta pra casa da Mônica e, assim que entrei, ela já tava me esperando animada. — Tá pronta, princesa do morro? — Quase. Bora escolher o look, né? Fomos pro quarto dela e ela abriu o armário com uma empolgação contagiante. — Já separei os nossos looks. Hoje é noite de brilhar! Ela puxou dois vestidos dourados, curtos, colados, com recortes estratégicos e brilho até na alma. Olhei pra eles e arregalei os olhos. — Isso? — apontei, rindo nervosa. — Isso não é um vestido, é um pedaço de pano com purpurina, Mônica! — É o quê, menina? Isso aqui é um tapa na cara da sociedade! É o brilho da revolta! É a revolução em forma de lycra! — Mônica, nem fodendö que eu vou sair com isso no corpo. Ela cruzou os braços e sorriu. — Vai sim. Vai e vai linda. Hoje tu vai deixar de ser só a filha do Rei e vai ser a Valentina, a mulher. E ninguém vai te impedir. Eu ri, sentindo a empolgação dela me contagiar, mas ainda assim olhei para o vestido com receio. Porque se meu pai surtou só com a ideia de boate, imagina ele me vendo com isso. Porque de uma coisa eu tenho certeza, ele vai saber.
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