Capítulo 8
VALENTINA NARRANDO
— Vai, amiga só veste! — Mônica quase implorava enquanto balançava o micro vestido dourado na minha frente como se fosse um troféu de guerra .
— Já falei que isso aqui não é um vestido, é um insulto à minha dignidade — brinquei, mas no fundo eu já tava balançada, eu ia ficar muito gata e gostosa nele com certeza .
— É um insulto ao patriarcado! — ela rebateu, teatral. — Você tem um corpo perfeito, é maravilhosa, e isso aqui vai fazer o mundo inteiro se ajoelhar quando você passar!
Suspirei. Olhei pro tecido que mais parecia um pedaço de sol costurado por fadas do deboche. Mônica já tava com a maquiagem pronta, olhos delineados, boca vermelha, e o cabelo preso num coque despojado com mechas soltas que emolduravam o rosto dela feito uma deusa .
— Só hoje, Valentina. Só dessa vez. Você merece se sentir poderosa — ela falou mais baixo, com aquele tom de quem me conhece desde criança e sabe exatamente onde apertar .
Bufei.
— Tá. Mas se meu pai infartar, a culpa é toda sua .
— Ele já deve ter infartado desde o momento que tu falou “boate”.
— Você não tem noção de como ele ficou, juro que pensei que não vinha .
Vesti o vestido . Apertado, decotado e indecente. Mas eu precisava admitir, eu tava um estouro. Me olhei no espelho com o coração acelerado . A maquiagem que a Mônica fez realçou meus olhos, deixou meus lábios carnudos ainda mais provocantes, e o vestido por menor que fosse abraçava meu corpo como uma segunda pele. Cintura marcada, pernas à mostra, decote ousado . Tava sensual, sexy e gostosa . Pronto, falei .
— Putä que pariu, Valentina! — Mônica arregalou os olhos . — Tu tá criminosa . Se sair assim na rua, a boate vai parar .
— Agora eu tô com medo . — falei, meio rindo .
— Medo nada, garota! É isso mesmo! Que todos vejam o furacão que você é .
Nesse momento, Jonas entrou no quarto sem bater .
— Bora, caralh— ... — Ele parou, congelado. O olhar subiu e desceu várias vezes, e ele até deu um passo pra trás . — Nossa Senhora da ostentação, que visão do paraíso é essa? Putä que pariu! Eu até caso!
— Jonas! — reclamei, cruzando os braços .
— Desculpa, Valentina, mas você tá um pecado! Se eu não fosse seu amigo, e se meu instinto de autopreservação não gritasse “o pai dessa menina vai me matar”, eu juro que te levava embora agora mesmo. E faria você viver loucuras de amor, mano eu já te achava gostosa, mas agora... tu tá a verdadeira perdição .
— Tu tá maluco — retruquei, rindo. — Nunca que eu ficaria com um cara mulherengo igual você . Que cada dia tá comendo uma, eu jamais faria parte da sua estante de troféus, se liga né Jonas!
— Ah, Tina, fala isso não, ainda tenho salvação . Por você, eu mudaria .
— Prefiro acreditar em duende do que nisso.
— Um dia você ainda vai se arrepender de me desprezar desse jeito. Mas por agora bora logo, vocês duas! — ele disse, ainda encantado. — Já tão atrasadas.
Descemos as escadas e, quando passamos pela sala, Maitê e Relíquia estavam sentados conversando, cada um com um copo na mão. Assim que me viram, o papo morreu.
Relíquia balançou a cabeça devagar, com cara de quem não gostou do que viu, ele era muito parecido com os chiliques do meu pai.
— Você deixou mesmo ela sair assim? — ele murmurou para a Maitê.
— Ai, pai… — Mônica revirou os olhos. — Não começa.
— E você Valentina? Você tem certeza que seu pai deixou isso?
— Deixou sim — respondi firme, mas com aquele friozinho na barriga. — Ele não teve muita escolha.
Maitê sorriu.
— Ela tá linda. João Lucas deve tá em casa roendo a unha. E surtando porque com certeza a Liz obrigou ele a deixar a Valentina sair.
— Roendo o cabo da Glock, isso sim — Relíquia resmungou.
— Beijo, mãe. Beijo, pai — Mônica disse rápido, deu um beijo nos dois e me puxou pela mão. — Antes que eles mudem de ideia.
Entramos no carro do Jonas e os soldados vieram atrás. Era um comboio digno de celebridade, com a diferença de que, se alguém se metesse, não saía vivo. O carro andava e eu sentia o coração pulsar mais rápido a cada esquina. O asfalto passava pelos vidros como uma lembrança bonita e perigosa da minha infância. Quando saímos da zona sul e entramos no asfalto iluminado, a cidade parecia outra.
Chegamos na frente da boate. A fachada brilhava com luzes coloridas, gente bonita entrando e saindo, fila do lado de fora. Jonas deu a volta com o carro até a entrada VIP, e os seguranças já abriram caminho. Os soldados que vinham com a gente desceram primeiro, avaliaram tudo com o olhar treinado e só depois autorizaram a nossa saída.
Coloquei o salto no chão e respirei fundo. A música já vazava da porta, vibrando no peito. O cheiro de perfume caro, álcool e liberdade misturado com a adrenalina me atingiu em cheio.
— Pronta pra viver? — Mônica perguntou, sorrindo de lado.
— Tô pronta pra esquecer que sou a filha do João Lucas só por uma noite.
— Então vambora, princesa do morro. Hoje a gente reina.
E com isso, a gente entrou na boate.