Capítulo 8

936 Palavras
Capítulo 8 VALENTINA NARRANDO — Vai, amiga só veste! — Mônica quase implorava enquanto balançava o micro vestido dourado na minha frente como se fosse um troféu de guerra . — Já falei que isso aqui não é um vestido, é um insulto à minha dignidade — brinquei, mas no fundo eu já tava balançada, eu ia ficar muito gata e gostosa nele com certeza . — É um insulto ao patriarcado! — ela rebateu, teatral. — Você tem um corpo perfeito, é maravilhosa, e isso aqui vai fazer o mundo inteiro se ajoelhar quando você passar! Suspirei. Olhei pro tecido que mais parecia um pedaço de sol costurado por fadas do deboche. Mônica já tava com a maquiagem pronta, olhos delineados, boca vermelha, e o cabelo preso num coque despojado com mechas soltas que emolduravam o rosto dela feito uma deusa . — Só hoje, Valentina. Só dessa vez. Você merece se sentir poderosa — ela falou mais baixo, com aquele tom de quem me conhece desde criança e sabe exatamente onde apertar . Bufei. — Tá. Mas se meu pai infartar, a culpa é toda sua . — Ele já deve ter infartado desde o momento que tu falou “boate”. — Você não tem noção de como ele ficou, juro que pensei que não vinha . Vesti o vestido . Apertado, decotado e indecente. Mas eu precisava admitir, eu tava um estouro. Me olhei no espelho com o coração acelerado . A maquiagem que a Mônica fez realçou meus olhos, deixou meus lábios carnudos ainda mais provocantes, e o vestido por menor que fosse abraçava meu corpo como uma segunda pele. Cintura marcada, pernas à mostra, decote ousado . Tava sensual, sexy e gostosa . Pronto, falei . — Putä que pariu, Valentina! — Mônica arregalou os olhos . — Tu tá criminosa . Se sair assim na rua, a boate vai parar . — Agora eu tô com medo . — falei, meio rindo . — Medo nada, garota! É isso mesmo! Que todos vejam o furacão que você é . Nesse momento, Jonas entrou no quarto sem bater . — Bora, caralh— ... — Ele parou, congelado. O olhar subiu e desceu várias vezes, e ele até deu um passo pra trás . — Nossa Senhora da ostentação, que visão do paraíso é essa? Putä que pariu! Eu até caso! — Jonas! — reclamei, cruzando os braços . — Desculpa, Valentina, mas você tá um pecado! Se eu não fosse seu amigo, e se meu instinto de autopreservação não gritasse “o pai dessa menina vai me matar”, eu juro que te levava embora agora mesmo. E faria você viver loucuras de amor, mano eu já te achava gostosa, mas agora... tu tá a verdadeira perdição . — Tu tá maluco — retruquei, rindo. — Nunca que eu ficaria com um cara mulherengo igual você . Que cada dia tá comendo uma, eu jamais faria parte da sua estante de troféus, se liga né Jonas! — Ah, Tina, fala isso não, ainda tenho salvação . Por você, eu mudaria . — Prefiro acreditar em duende do que nisso. — Um dia você ainda vai se arrepender de me desprezar desse jeito. Mas por agora bora logo, vocês duas! — ele disse, ainda encantado. — Já tão atrasadas. Descemos as escadas e, quando passamos pela sala, Maitê e Relíquia estavam sentados conversando, cada um com um copo na mão. Assim que me viram, o papo morreu. Relíquia balançou a cabeça devagar, com cara de quem não gostou do que viu, ele era muito parecido com os chiliques do meu pai. — Você deixou mesmo ela sair assim? — ele murmurou para a Maitê. — Ai, pai… — Mônica revirou os olhos. — Não começa. — E você Valentina? Você tem certeza que seu pai deixou isso? — Deixou sim — respondi firme, mas com aquele friozinho na barriga. — Ele não teve muita escolha. Maitê sorriu. — Ela tá linda. João Lucas deve tá em casa roendo a unha. E surtando porque com certeza a Liz obrigou ele a deixar a Valentina sair. — Roendo o cabo da Glock, isso sim — Relíquia resmungou. — Beijo, mãe. Beijo, pai — Mônica disse rápido, deu um beijo nos dois e me puxou pela mão. — Antes que eles mudem de ideia. Entramos no carro do Jonas e os soldados vieram atrás. Era um comboio digno de celebridade, com a diferença de que, se alguém se metesse, não saía vivo. O carro andava e eu sentia o coração pulsar mais rápido a cada esquina. O asfalto passava pelos vidros como uma lembrança bonita e perigosa da minha infância. Quando saímos da zona sul e entramos no asfalto iluminado, a cidade parecia outra. Chegamos na frente da boate. A fachada brilhava com luzes coloridas, gente bonita entrando e saindo, fila do lado de fora. Jonas deu a volta com o carro até a entrada VIP, e os seguranças já abriram caminho. Os soldados que vinham com a gente desceram primeiro, avaliaram tudo com o olhar treinado e só depois autorizaram a nossa saída. Coloquei o salto no chão e respirei fundo. A música já vazava da porta, vibrando no peito. O cheiro de perfume caro, álcool e liberdade misturado com a adrenalina me atingiu em cheio. — Pronta pra viver? — Mônica perguntou, sorrindo de lado. — Tô pronta pra esquecer que sou a filha do João Lucas só por uma noite. — Então vambora, princesa do morro. Hoje a gente reina. E com isso, a gente entrou na boate.
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