Capítulo 9

810 Palavras
Capítulo 9 GAEL NARRANDO O espelho refletia meu rosto frio, impassível, enquanto eu ajeitava a gola da camisa preta. Eu gostava de preto. Cor de guerra, de poder, de aviso. O tipo de cor que falava antes mesmo de eu abrir a boca . Era assim que a minha imagem deveria ser passada, escura, fria e com sabor de medo . Me olhei por mais alguns segundos. Tudo certo. Cabelo alinhado, barba por fazer no ponto, corrente no pescoço, relógio pesado no pulso. Eu parecia pronto pra uma noite qualquer, mas dentro de mim tudo fervia e eu não sabia porque, mas não costumava ignorar a minha intuição . Monique mandou mensagem: 📲 Monique Tô chegando, baby. Louca pra te ver. Revirei os olhos. Ela sempre falava desse jeito, como se tivesse intimidäde de sobra. A gente já tinha se envolvido algumas vezes lá fora, mas aqui no Brasil, a coisa parecia outra. Ela queria reviver algo que, pra mim, nem tinha começado de verdade. E ainda por cima, hoje, justamente hoje, eu não tava com cabeça pra ela . Mas aceitei o convite por impulso. Talvez a distração ajudasse . Talvez a música alta e o álcool apagassem a imagem dela da minha mente, daquela menina dos olhos grandes e teimosos que ousou me enfrentar na frente de todo mundo . Dizendo que não pertencia a ninguém . Desci as escadas da mansão, passei pelo saguão ignorando os olhares dos seguranças e entrei no carro sem dizer uma palavra . A boate ficava num ponto nobre da cidade, com fachada de vidro escuro e nome em neon vermelho . Assim que cheguei percebi que a fila de gente querendo entrar dobrava o quarteirão, mas eu não era “gente” qualquer . O segurança me reconheceu na hora e abriu a porta lateral . Subi direto pra área VIP, um camarote elevado, de onde dava pra ver tudo lá embaixo . Garçons passaram me oferecendo bebida, escolhi um uísque importado, puro, sem gelo . Sentei na poltrona de couro e estiquei as pernas, girando o copo lentamente na mão . O som das batidas eletrônicas fazia o chão vibrar . Gente dançando, corpos colados, risos, gritos, luzes girando . Mas minha cabeça tava em outro lugar . Até que ela entrou . E tudo parou . Foi como se o tempo congelasse por alguns segundos . Meus olhos cravaram nela antes mesmo que meu cérebro processasse . Valentina. A filha do João Lucas. Minha “prometida”. A mesma que gritou comigo, que me enfrentou, que disse que não era propriedade de ninguém . Agora, estava ali. Entrando pela porta principal da boate, com um pedaço de pano dourado colado no corpo, como se não tivesse pai, não tivesse nome, não tivesse noção . A raiva subiu quente, sem freio. Que porrä essa menina tá fazendo aqui? Minha mandíbula travou. Apertei o copo com tanta força que senti o vidro ranger. Ela tava linda, óbvio. Inacreditavelmente linda. Cabelo solto, olhos brilhando com a luz da pista, andar confiante. Mas era mais do que beleza. Era provocação. Atrevimento. Desrespeito. Do lado dela, uma outra garota, parecia ser amiga. E atrás delas, um cara. Moreno, alto, com pinta de conquistador barato. Jonas, se não me falha a memória. Já ouvi esse nome nas rodas do crime, filho do Relíquia. Mas a garota eu não sabia quem era. Eles riam, como se fosse qualquer sexta-feira normal. Como se não tivesse uma guerra velada acontecendo. Como se o destino dela já não tivesse sido selado. Como se ela não fosse minha. Minha noiva. Minha mulher, mesmo que ainda não tenha aceitado isso. Minha porrä de responsabilidade. O sangue começou a pulsar mais forte nas têmporas. Eu observava ela dançar um pouco, jogando o cabelo pro lado, olhando ao redor como se estivesse no controle. Mas ela não tem ideia, não faz a menor ideia do que está fazendo. Monique mandou outra mensagem: 📲 Monique Tô na porta, me busca. Ignorei. Eu não conseguia desviar os olhos de Valentina. O vestido dela subia a cada passo, como se provocasse de propósito. A bundä empinada, as pernas à mostra, o decote escancarado. O olhar de outros homens sobre ela me dava vontade de descer e descarregar minha pistola na cara de cada um. Ela não deveria estar aqui. Não assim. Não vestida desse jeito. Não se comportando como se fosse livre. Porque não é. Ela vai aprender isso. Por bem ou por m*l. Eu vou ensinar cada regra. Cada limite. Cada consequência. E quando ela entender que não se desafia um Velásquez vai ser tarde demais pra recuar. Apertei os olhos, a respiração pesada. — Hoje não, Valentina… — murmurei. — Hoje você vai entender quem manda. Porque eu sou o infernö que seu pai fez questão de te entregar. E você vai arder.
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