Capítulo 10
VALENTINA NARRANDO
A boate estava lotada, a música pulsando no peitö e a energia vibrando em cada canto. As luzes piscavam no ritmo do funk, dos batidões, das batidas de coração que pareciam sincronizar com os graves. Eu me sentia livre, viva, inteira. Pela primeira vez desde que tudo virou de cabeça pra baixo, eu ria sem pensar, dançava sem me preocupar, bebia sem medo.
— Vem, princesa! — Mônica me puxava pela mão, rindo alto, com um copo na outra mão. — Essa música é a nossa cara!
Jonas apareceu do nada, já que ele tinha sumido, provavelmente pegando alguma mulher, com aquele sorriso cäfajeste de sempre que quem não conhece se derrete na mesma hora.
— Papo reto, tá difícil focar no rolê com você Tina brilhando assim — ele disse, passando o braço ao redor do meu ombro.
— Jonas, respeita, hein! — reclamei, dando um empurrão leve. — Ainda bem que meu pai não tá aqui.
— Se tivesse, já tava morto — ele debochou, rindo.
Dei uma risada e puxei o celular da bolsinha. Vibrava sem parar.
📲 Pai 👑
Que porrä de roupa é essa?
📲 Pai 👑
Quando chegar em casa vamos conversar!
📲 Pai 👑
Não é pra beber Valentina!
📲 Pai 👑
Se comporta!
📲 Pai 👑
Se não vou te buscar!
Revirei os olhos e soltei uma gargalhada, mostrando pra Mônica que também caiu na risada.
— Meu Deus, meu pai tá surtando! — mostrei a tela. — Olha isso, Môni!
Ela ria tanto que mäl conseguia respirar.
— Como ele sabe a sua roupa? Será que ele viu alguma foto? Mas de onde?
O celular vibrou de novo.
📲 Mãe 👑
Filha, ignora seu pai!
📲 Mãe 👑
Deixa que eu resolvo.
📲 Mãe 👑
Alguém mandou uma foto sua e ele surtou.
📲 Mãe 👑
Beijos, divirta-se!
— TIA LIZ É A MELHOR! — Mônica gritou. — Rainha sensata!
— E o povo X9? — falei, rindo. — Caguetando minha roupa? Que infernö!
— Acha que só teu pai é ciumento? Espera o Cegonha saber da sua roupa...
— Eita — fiz careta e levantei a taça. — Que comecem os jogos!
Tomei mais um gole, sentindo o líquido gelado escorregar pela garganta. A bebida já me deixava mais solta, mais risonha, mais leve.
— Tina! — Jonas se aproximou e falou no meu ouvido.
— O que foi agora Jonas, fala logo e não fica de graça pro meu lado.
— Eu e você ... não rola mesmo? Porrä tô na maior vontade de tu, e não é de hoje, só falta você me dar moral.
— Eu não tô escutando uma merdä dessa Jonas! Para de loucura porrä! Somos amigos! E eu nunca ficaria com um cara igual você, que passa o rodo em geral. Eu tenho dignidade e tenho meu valor filho!
— Caralhö Tina, também não precisa esculachar. — Ele fala levantando as mãos em forma de rendição e se afastando, eu olho e dou risada da cara de päu dele.
A Mônica me puxa e fala:
— Amiga, tem tanto gatinha aqui, hoje to doida para fazer loucuras. Que meu pai não me escute.
— Mônica vai com calma, não faz merdä.
— Eu não faço merdä bebê, eu só não me privo de fazer o que me dá präzer. Mas agora vamos dançar e beber e não cai na lábia do Jonas hein! Pelo amor de Cristo.
— Jamais!
Comecei a dançar e a gente dançava como se ninguém estivesse olhando, mas eu sentia os olhares. Muitos. Alguns babando. Jonas espantando os caras. Mônica rindo e flertando com um gato alto, de brinco e sorriso sacanä. Eu rodopiava no ritmo, o vestido dourado brilhando sob as luzes como se tivesse sido feito pra isso. Talvez tivesse.
Do nada sentir um arrepio, uma sensação esquisita.
Tentei voltar a me concentrar na música, no riso da Mônica, no copo gelado na minha mão. Mas a sensação estranha começou a rastejar pela minha nuca, como se tivesse alguém olhando. Sabe quando parece que o ar muda? Que a energia pesa? Que seu corpo inteiro grita alerta mesmo sem entender o motivo?
Meus olhos varreram o ambiente. Primeiro de forma discreta, depois mais direta. Tentei fingir que não tava procurando nada, mas a verdade é que tava. Porque eu sentia. Eu sabia. Tinha alguém me observando com intensidade demais.
Não era um olhar qualquer. Era diferente. Carregado. Possessivo.
— Para de loucura Valentina, deve ser seguranças do sei. — Falei pra mim mesmo.
O banheiro começou a chamar minha atenção, ou melhor, minha bexiga. Me aproximei da Mônica, que estava de papo com o cara, animada, com aquele brilho nos olhos.
— Vou no banheiro, já volto.
— Quer que eu vá com você?
— Não precisa, vou rapidinho!
Ela assentiu e voltou pro papo. Me afastei, desviando dos corpos suados, das mãos no ar, das garrafas nas mesas.
O corredor era um pouco mais escuro, com luzes de LED nas bordas do chão e uma música abafada pelas paredes grossas. Caminhei até a porta com a plaquinha de "feminino", mas antes de alcançar, senti um puxão brusco no braço.
— Ai! — soltei, virando o rosto. — Solta!
Um homem, grande, de camisa preta apertada e olhos escuros como breu, me prensou contra a parede. O cheiro de bebida forte e perfume barato invadiu meu nariz.
— Fica quietinha, gata — ele sussurrou com a voz arrastada. — Você vai gostar.
Meu corpo gelou. O coração disparou. Minhas mãos começaram a tremer.
— Me solta! — empurrei ele com força, mas era como tentar mover uma parede.
— Shhh... — ele apertou ainda mais meus braços. — Só quero conversar.
— NÃO ENCOSTA EM MIM! — gritei, mas ele tapou minha boca com a mão.
O pânico tomou conta. O som da boate parecia distante agora. Os gritos, a música, tudo se apagava enquanto minha cabeça girava.
Minhas pernas tremiam. Tentei morder a mão dele, me soltar, fazer qualquer coisa. Mas ele era forte, e eu... eu tava sozinha nesse corredor.
— Você é gostosa demais pra ficar se fazendo de difícil — ele rosnou no meu ouvido.
Eu senti a náusea subir, o medo congelar minha espinha.
Mas juro por Deus se eu saísse daqui, ele ia se arrepender amargamente.
E foi aí que tudo ficou ainda mais escuro.