Capítulo 11
MONIQUE NARRANDO
Momentos antes...
Eu sempre fui o tipo de mulher que sabia o que queria. Filha de pessoas da alta sociedade e muito influentes, cresci num lar de amor, firmeza e intensidade. Meus pais são o exemplo perfeito de dois opostos que se completam, minha mãe, uma mulher forte, visionária, que sempre acreditou no poder feminino e nunca abaixou a cabeça pra ninguém; e meu pai, aquele cara linha dura, protetor, mas que faria qualquer coisa por nós.
Eu e meu irmão Igor somos como água e vinho. Ele vive na pista, curte a vida, sempre cercado de mulher, confusão e risadas. Eu, diferente. Sempre fui mais seletiva, mais fechada até conhecer o Gael.
A primeira vez que vi esse homem, eu soube. Ele era o tipo de problema que uma mulher inteligente deveria evitar. Misterioso, perigoso, com aquele olhar que parecia ver tudo, até o que a gente esconde de si mesma. Mas foi justamente isso que me atraiu. O perigo. A dúvida. A sensação de que, perto dele, tudo era mais intenso. Mais vivo.
Nos conhecemos numa viagem que fiz com amigas pra Cartagena. Ele tava num evento de luxo, com ares de príncipe das sombras. Ficamos. Foi rápido, quente, inesquecível. Ele sumiu no dia seguinte. Sem número, sem nome completo, sem nada.
Mas eu não esqueci.
Meses depois, descobri que ele se chamava Gael Velásquez. Filho do Don. O tipo de nome que carrega peso, sangue e poder. E, mesmo assim, mesmo sabendo de tudo, meu coração acelerava toda vez que ouvia esse nome.
E por coincidência nos encontramos mais uma vez em outro evento fechado, em Marbella. Eu, de vestido preto justo, salto alto e boca vermelha. Ele, de blazer escuro, olhar afiado e aquele ar de perigo que grita por atenção. Era como se tudo parasse quando ele entrava. Como se o mundo girasse mais devagar. Ele me olhou e bastou. Desde então, o jogo começou.
E eu joguei. Com gosto.
A gente teve nossas noites, nossas loucuras. Mas eu sabia que não era só mais uma. Ele voltava. Sempre voltava. Me mandava mensagem do nada, aparecia na minha porta, me tirava da cama e me jogava no mundo dele. E eu ia. Ia porque, por mais que eu soubesse o tipo de homem que ele era, ele tinha um pedaço meu. Um pedaço que ele nunca devolveu.
Quando soube que ele tava no Rio, eu nem pensei duas vezes. Comprei passagem, ajeitei minha estadia num flat perto da Barra e vim. Eu precisava vê-lo. Precisava sentir de novo o gosto daquele perigo. Queria entender por que ele voltou e por que não me avisou.
Não sei se era saudade, orgulho ou malditö desejo de terminar o que começamos. Só sei que me arrumei, passei o perfume que ele elogiou e me convenci de que merecia mais do que uma lembrança. Eu queria presença. Queria olho no olho. Queria saber se ainda tinha algo ali.
No grupo das meninas, falaram de uma boate que ia ferver essa noite. E foi lá mesmo que decidi ir e chamei ele que aceitou o convite.
Me arrumei sem pressa. Coloquei meu vestido vermelho de alça fina, justo no corpo, salto alto preto e maquiagem marcante. Cabelo solto, perfume importado. Eu queria que ele me visse e lembrasse. Que sentisse o cheiro da última vez. Que se perdesse nos detalhes, como sempre fez .
A boate era num dos endereços mais badalados do Rio. Eu podia ter ido com meu carro, mas preferi um motorista. Queria chegar leve, focada. No caminho, olhei meu reflexo umas cinco vezes. Retoquei a maquiagem. Passei gloss. Meu vestido colava nas curvas com perfeição, vermelho, decotado, justo o suficiente pra prender o olhar dele .
Mandei mensagem assim que entrei na fila .
📲 Monique
Cheguei. Me busca na porta?
Esperei. Dez segundos. Vinte. Um minuto. Dois. Nada.
A notificação de visualizado chegou. Mas resposta? Silêncio .
Engoli o orgulho, ajeitei a postura e entrei. A música me engoliu de cara. Luzes piscando, corpos dançando, risadas ecoando. Tudo misturado. Tudo vibrando. Mas meus olhos só buscavam uma coisa: ele.
Subi até a área VIP com um crachá que ganhei de um dos amigos dele em Cartagena. Ninguém ousou barrar meu caminho. Quando meus olhos encontraram os dele, lá estava Gael.
Encostado no vidro, com um copo de uísque na mão, olhar fixo em algum ponto da pista. E mesmo assim, ele sentiu minha presença. Seus olhos mudaram quando me viu. A tensão era visível. Ele estava mais bonito do que eu lembrava. Mais homem. Mais letal.
Me aproximei decidida. Sorriso no rosto. Corpo leve. E coração acelerado.
— Surpresa... — murmurei, antes de puxa-lo pela nuca e colar meus lábios nos dele.
Beijei Gael com fome de passado e desejo de futuro. Mas ele... ele correspondeu por segundos. Só segundos.
Depois, se afastou .
Com calma. Com frieza .
— Monique eu vi sua mensagem agora. — ele disse, a voz grave, rouca, firme.
— E mesmo assim não desceu pra me buscar. Que cavalheiro...
Ele não riu. Só desviou o olhar. Pros seguranças. Pra pista. Nunca pra mim de novo.
— Achei que seria mais fácil você subir do que eu descer — falou, como quem tenta se justificar. Mas não era isso. Eu conhecia esse tipo de distanciamento. Já vi antes. Era a armadura de quem não queria ser lido.
— Tudo bem... — falei, forçando leveza. — O importante é que tô aqui. A gente tem tempo pra conversar, matar saudade, resolver aquele final mäl resolvido, lembra?
Ele me olhou. Rápido. Mas bastou pra eu ver. Gael tava longe. O corpo aqui, o pensamento em outro lugar. E pior em outra pessoa.
Segui o olhar dele. Ele fitava a pista como se o chão tivesse revelando um segredo. E então eu entendi.
— Tá com alguém? — perguntei direto.
— Não.
— Mas tá pensando em alguém — concluo, cruzando os braços.
Ele não respondeu. Só voltou a beber. O silêncio dele dizia mais do que mil palavras.
Meu peito apertou. Não por ciúmes. Mas pela constatação. Eu vim esperando reacender algo que talvez nunca tenha queimado pra ele. Pra mim, foi faísca. Pra ele, talvez só uma noite.
— Vai me contar o que tá rolando? Ou é segredo de mafioso? — provoquei, tentando sorrir.
— Monique você devia aproveitar a festa. Curtir. Dançar. Você sempre foi boa nisso.
— Gael não me trata como mais uma.
— Eu nunca tratei.
— Então para de olhar pra pista como se tivesse perdido algo que está lá.
Ele travou a mandíbula, mas não me respondeu. A mão apertou o copo. A tensão no corpo dele era visível. Quem quer que fosse a mulher que ocupava os pensamentos de Gael, ela mexia com ele. De um jeito que eu jamais consegui.
E talvez nunca vá conseguir .
Engoli a dor com o mesmo veneno que já tomei antes: o orgulho .
Sorri. Peguei um drink . E caminhei até o vidro, olhando a pista. Ele me seguiu com os olhos.
— Se não for comigo que pelo menos seja com alguém que valha a pena — sussurrei.
E fui dançar.