João Carlos
Olho para o lado e fico vendo ela dormir. Domingo nublado, e a única coisa que eu quero fazer nessa manhã é olhar pra ela e pedir pra ver isso todos os dias pelo resto da minha vida. Toco levemente o seu rosto, passando a ponta dos meus dedos pelo seu nariz, depois por sua boca, seus olhos e bochechas coradas. Seu olhar relaxado, calmo, me traz uma imensa paz interior.
Fico pensando nos nossos filhos, se eles teriam os seus olhos, a sua forma de olhar e seu sorriso. Fico pensando no dia do nosso campeonato, todos os dias sonhando com o sim diante da nossa família, jurando passar o resto das nossas vidas juntos.
Levantei da cama e fui tomar banho. Depois do banho fui fazer o café da manhã, a regra do final de semana é quem acorda primeiro faz o café, o que é engraçado, porque eu sempre acordo mais cedo. Nos dias de semana e nos finais também.
Depois de fazer o café fui pra sala e decidi que ia assistir jornal, uma das coisas que eu menos faço. Depois de um tempo ouvi o barulho de chuveiro, Bea acordou. Meu celular tocou, olhei pra ver quem era e era ligação do Zeus, o que não é muito comum, já que é domingo.
Atendo.
Ligação on
— Alô. — falo saindo da sala.
— Bom dia cara. Tá ocupado? — Zeus disse.
— Não, pode falar. — disse.
— Eu encontrei o cara que você me pediu e não achei nada sobre ele, ficha limpa. — Zeus disse.
— Você não encontrou nada sobre alguém que tenha pedido pra ele mandar as flores? — perguntei.
— Nada, ninguém incomum, ou suspeito. — Zeus respondeu.
— Ok, pode parar de investigar então. Obrigada. — falei.
— Já é. Bom domingo aí pra tu chefe. — Zeus disse.
— Pra você também. — falei.
Ligação off
Voltei pra sala, Bea estava na cozinha, vestindo uma camiseta minha e toalha na cabaça, com cara de quem bebeu mais do que devia ontem e o resto de rímel nos olhos, mas um sorriso adorável.
— Bom dia. — falei e fui em direção dela e dei um beijo na testa dela.
— Bom dia, quem era no telefone? — ela perguntou.
— Coisas do trabalho. — falei e fui pegar mais café.
— Seu irmão vai vir almoçar em casa, temos que ir no mercado. — ela disse com um sorriso.
— JP vai vir almoçar aqui? Ele não me disse nada. — falei franzindo a testa.
— Claro porque você ia se esquecer, como todas as vezes. — ela disse rindo.
— É, acho que você tem razão. — falei rindo.
— Vou tomar café e me trocar e vamos, acho que vou chamar a minha mãe pra almoçar aqui também. — ela disse e eu apenas concordei com a cabaça.
Ela tomou café e eu fiquei pensando nas flores que já tinham ido até pro lixo. Ela trocou de roupa e eu também, então fomos ao mercado.
— Pega a lata de milho. — Bea apontou pra prateleira.
— Bea. — uma voz masculina disse com tom de surpresa.
— Antônio. — Bea disse com uma voz nada animada.
Comecei a buscar na minha cabeça quem era Antônio. Até que me lembrei que Antônio era o ex da Beatriz, o mesmo que estava na balada irritando ela no dia em que nos conhecemos, e um dos motivos dela ter me beijado foi pra ele parar de querer conversar com ela.
— Nossa, faz tempo que eu não te vejo. Minha mãe andou conversando com a sua, ela disse que você estava morando fora. — o tal do Antônio disse.
Peguei o milho e fui em direção ao carrinho, ele me olhou de baixo pra cima.
— É, eu fui fazer intercâmbio no final da faculdade e também estágio. — Bea respondeu.
— Que legal, eu também me formei e agora estou apto a seguir a carreira da família. Estou trabalhando de residente no hospital da cidade. — ele disse sorrindo.
— Legal. Ah Antônio eu quase me esqueci de te apresentar, esse é o João Carlos, meu noivo. — Bea disse e tocou meu ombro.
Entendi a mão e ele apertou, e fiz o meu trabalho e apertei com uma certa força pra ele entender o recado.
— Amor, esse é o Antônio... — Bea disse meio envergonhada.
— Seus ex. — falei olhando pra ele.
Acho que ele percebeu imediatamente que eu já sabia de toda história.
— Então você está noiva, meus parabéns e felicidade pra vocês dois. — Antônio disse sem graça.
— Obrigada. — ela disse sorrindo forçado.
— Obrigado. — falei. — Amor temos que ir se não o almoço vai ser no café da tarde. — falei e toquei levemente sua cintura.
— Verdade. — Bea disse me olhando.
— Foi bom te ver Bea. — Antônio disse saindo do nosso caminho.
— Igualmente. — Bea disse e deu um aperto de mãos.
Saímos andando com o carrinho, ela soltou o ar dos pulmões aliviada por toda essa situação ter findado.
— Igualmente. — falei baixinho.
— Não dava pra dizer que eu odeie ver ele e que eu ainda quero que ele vá pra casa do c*****o no meio do mercado Joca. — ela disse e isso me fez rir.
— Bem que você queria dizer isso. — falei rindo.
— Eu queria muito dizer isso. E esfregar meu anel de noivado na cara dele. — ela disse rindo. — Mas agora eu sou uma pessoa melhor e evoluída.
— Isso foi antes ou depois de você atirar na Maya? — perguntei rindo.
— A gente pode esquecer essa situação. — ela disse e eu quase passei m*l de rir.
Não parece ser tão engraçado agora, depois que descobrimos que elas são irmãs, mas só de lembrar que ela aprendeu a atirar em 10 minutos e acertou um tiro certeiro na perna da irmã que ainda não era irmã me dá um tremendo orgulho dela.
— Você falou com a sua mãe? — perguntei.
— Ela não está em casa, parece que já foi viajar a trabalho. — ela respondeu.
— Que pena. — falei.
— Chamei a sua mãe pra almoçar com a gente, falei até que o ranzinza do seu pai poderia ir, mas ela disse que ele não iria. — ela disse.
Olhei surpreso pra ela, que já estava me olhando porque sabia que eu ia fazer essa cara. Então depois de pegar todas as coisas passamos no caixa e depois de colocar tudo no carro fomos pra casa.
Ajudei a cortar algumas coisas, até porque eu não sou tão bom na cozinha quanto ela, mas fiquei por perto pra dar minhas opiniões e irrita–lá ao máximo, porque é pra isso que eu sirvo nessa casa.
O almoço estava quase pronto, quando a campainha tocou, o porteiro de casa deve ter se esquecido que eu não tenho filhos e deixou ele subir. Abri a porta e a Pietra veio correndo e eu a peguei no colo, ela me deu um abraço apertado.
Eu também estava morrendo de saudade dela, que já não estava tão pequena quanto da última vez que eu a vi.
— Dindo. — ela disse ainda nos meus braços.
— Como você está grande em. — falei e dei um beijo na sua bochecha.
— Papai disse que agora eu já posso ter uma bicicleta. — ela disse sorrindo e eu a coloquei no chão.
Beatriz já estava com o bebê no colo. Dei um abraço rápido no JP, que colocou as coisas das crianças na sala.
— Eu ia passar na casa da mamãe pra buscar ela, mas ela disse que já estava no caminho. — JP disse.
— É, ela me avisou que já estava chegando. — Bea disse e colocou o Miguel no sofá ao lado da Pietra que já estava assistindo um dos seus desenhos favoritos.
Não demorou muito e a minha mãe chegou, Beatriz estava tirando o macarrão de forno e colocando em cima da bancada. JP e eu colocamos a mesa e depois fomos todos pra sala de jantar, Miguel estava no carrinho ao lado do JP, ele é mais quieto do que a Pietra quando tinha q sua idade.
— Bom, essa semana a gente já precisa começar a procurar possíveis lugares pra festa querida. — minha mãe disse pra Beatriz que concordou com a cabaça.
— A gente pode ir na parte da tarde, porque agora eu trabalho na escolinha da cidade. — Bea disse sorrindo.
— Que legal, vou marcar todas as consultas na parte da tarde então. — minha mãe disse.
— E a prova de comida quando vai começar, eu quero estar presente. — falei e todos riram.
— Primeiro o local, depois a comida querido. — minha mãe disse e tocou levemente q minha mão.
— Eu também tenho que passar no ateliê pra tirar as médias do vestido. JP avisa na escola da Pietra que eu vou passar pra buscar ela na segunda. — Bea disse.
— Eu vou sair com você tia? — Pietra perguntou.
— Vai sim, vamos tirar medida pra nossos vestidos de princesa. — Bea disse sorrindo.
Pietra comemorou fazendo uma dança engraçada. Nosso almoço foi tranquilo, cheio de risada e de conversas boas. Mas eu estaria mentindo se eu dissesse que não queria que meu pai estivesse aqui, ainda que ele seja chato, insuportável e não sabia controlar a sua língua, ele é meu pai, minha família.
E pelo visto a nossa tarde, estava apenas começando.