A madrugada parecia não ter fim. O relógio de parede marcava três e quarenta e dois quando Cacau percebeu que ainda estava sentada na mesma posição, com as mãos entrelaçadas no colo e o olhar fixo em um ponto qualquer do piso branco. O hospital dormia em silêncio — um silêncio pesado, entrecortado apenas pelo ruído distante dos carrinhos de medicação e pelos passos de algum enfermeiro mais apressado.
Aquela era a terceira noite sem descanso. Desde a explosão, ela não conseguia dormir mais do que poucos minutos. Fechava os olhos e via fumaça, estilhaços, o carro acelerando com Isabela dentro. O cheiro de queimado ainda parecia grudado em sua pele, mesmo depois de três banhos e horas respirando ar condicionado.
O bip do monitor cardíaco de Luca era o único som constante. Ritmado, insistente. Como se lembrasse a ambos de que ele ainda estava ali.
Cacau levantou-se devagar, ajeitou o lençol que cobria o corpo dele e observou o rosto que, mesmo machucado, ainda guardava algo do homem que costumava provocar risos e irritação em igual medida pelos corredores da Guardian. Havia cortes sutis, hematomas nas têmporas, uma faixa branca atravessando a testa. Mas o que a feria de verdade era ver a quietude dele. Luca Bianchi nunca fora silencioso — e agora, o silêncio parecia a coisa mais triste que já existira.
Ela ajeitou a poltrona e sentou de novo. Tentou ler algo no celular, mas as letras se embaralhavam. Quando finalmente encostou a cabeça no encosto, o sono veio pesado e breve.
Sonhou com Isabela. Sonhou com a amiga sorrindo, chamando-a de teimosa, como fazia sempre que Cacau tentava fingir que tinha tudo sob controle. Mas o sonho virou pesadelo rápido demais: Isabela sumia no meio da fumaça, e o som do motor do carro ecoava como uma risada distante.
Cacau acordou sobressaltada, com o coração disparado.
— Cacau… — a voz rouca de Luca rompeu o torpor.
Ela virou-se, ainda tonta, e o viu acordado. Os olhos dele estavam abertos, mais vivos que nos dias anteriores.
— Te acordei? — perguntou, a voz suave.
— Já estava acordada. — tentou sorrir, mas soou exausta. — Dormi uns dez minutos, acho.
— Então sonhou. — ele comentou, observando o rosto dela. — Você estava chorando.
Ela desviou o olhar. — Foi só um sonho r**m.
— Pesadelo com a Isa?
Ela assentiu, engolindo em seco.
Luca passou a mão pelo cabelo, apoiando-se no travesseiro.
— Eu fico me perguntando se ela está bem, se ele a machucou… se tem água, se consegue dormir. — o tom dele era baixo, como se temesse acordar a própria dor. — Penso que devia estar lá. Que devia ter feito mais.
Cacau respirou fundo. — Não começa de novo.
— É verdade, Cacau. — insistiu. — Se eu tivesse percebido o movimento, se eu tivesse…
Ela o interrompeu: — Você teria morrido junto. É isso que queria?
O silêncio caiu entre os dois, cortado apenas pelo bip constante.
— Não fala assim. — ele murmurou. — Eu só… sinto que falhei.
Ela se inclinou um pouco, olhando-o nos olhos. — Falhar seria não se importar. E você se importa mais do que devia, até pelos outros. — fez uma pausa. — Agora precisa se importar com você.
Luca riu sem humor. — Isso soa bonito vindo de quem não cuida nem de si.
Ela arqueou a sobrancelha, surpresa. — O que quer dizer com isso?
— Você não dorme, não come, passa o dia inteiro aqui. — ele disse, franzindo o cenho. — Tá tentando salvar todo mundo, menos a si mesma.
— Eu tô bem.
— Mentira. — respondeu, firme. — Você tá se culpando tanto quanto eu.
Cacau abriu a boca para responder, mas nada saiu. A garganta travou. Ele tinha razão, e saber disso doía mais do que admitir.
Ela virou o rosto, tentando se recompor.
— Eu só não consigo parar de pensar em tudo. — confessou, por fim. — Em como a gente devia ter notado algo estranho, em como as coisas aconteceram rápido demais... Em como ela confiou em mim para contar a verdade e eu jurei estar do lado dela e protegê-la.
Luca estendeu a mão, hesitante, até alcançar a dela.
— A gente vai trazê-la de volta.
O toque foi leve, quase imperceptível, mas suficiente para fazê-la sentir o peso do que ele não dizia.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio, apenas respirando o mesmo ar. Cacau se deu conta de que o hospital inteiro parecia conter o fôlego junto com eles.
A porta se abriu de repente. Giovanna entrou com uma pasta nas mãos e o rosto ansioso.
— Vocês viram as notícias? — perguntou, ofegante.
Cacau levantou-se de imediato. — Que notícias?
— Mateo. — disse Giovanna, aproximando-se. — Ele saiu em missão.
— O quê? — Luca se ergueu um pouco, ignorando a dor. — Que missão?
Giovanna puxou uma cadeira e se sentou, como se o peso da informação precisasse de apoio.
— Papai tentou impedir, mas ele já foi. Organizou uma equipe da Guardian e foi atrás do galpão que você indicou, Luca.
Cacau levou a mão ao rosto, o coração acelerado.
— Meu Deus…
— O Conselho tá em pânico. — continuou Giovanna. — Se algo der errado, a empresa vai pro chão.
Luca fechou os olhos por um instante. — E se der certo?
— Então ele traz a Isabela de volta. — respondeu a irmã, com um lampejo de esperança. — E tudo isso acaba.
Cacau se aproximou da janela. O céu ainda estava escuro, prenúncio de chuva.
— Nada acaba fácil assim. — murmurou. — Nada nesse tipo de guerra termina limpo.
Giovanna olhou para ela, surpresa com o tom. — Você acha que ele corre risco?
— Acho. — respondeu, sem hesitar. — Porque Mateo está muito desesperado para salvá-la e está esquecendo da prudência e da estratégia que sempre fizeram parte dos seus planos.
A frase ficou pairando, pesada. Giovanna suspirou. — Eu vou voltar para casa. Mamãe precisa saber que o papai assumiu a presidência.
Quando a irmã saiu, o quarto mergulhou novamente em silêncio.
Cacau continuou parada junto à janela, observando as luzes da cidade.
Luca acompanhava o movimento dela, e algo dentro dele se moveu também.
Não era o desejo leve dos primeiros flertes. Era algo mais fundo — uma compreensão silenciosa, uma necessidade de estar ali, de dividir o peso.
— Senta aqui. — ele pediu, apontando a cadeira ao lado.
— Eu tô bem. — respondeu, sem virar-se.
— Eu sei. — disse, com um meio sorriso. — Mas eu não tô. Então senta.
Ela obedeceu, ainda de braços cruzados.
— O Mateo vai conseguir. — afirmou, mais pra ela do que pra si.
— Eu quero acreditar.
— Acredita comigo, então. — pediu, quase em sussurro. — A gente precisa de pelo menos uma coisa em que acreditar.
Cacau olhou para ele e, por um instante, a força que ela fingia ter se partiu.
Os olhos se encheram de lágrimas, e ela desviou rapidamente o rosto.
Luca percebeu, mas fingiu não ver. Apenas estendeu a mão e pousou-a sobre a dela de novo, sem dizer nada.
A respiração dela veio trêmula.
— Eu odeio sentir medo. — confessou. — Odeio sentir que não posso controlar nada.
— Bem-vinda ao clube. — respondeu, com um riso fraco. — A diferença é que você disfarça melhor.
Ela o encarou, e os dois sorriram sem vontade.
Por alguns segundos, tudo pareceu simples demais. Apenas dois seres humanos exaustos, tentando sobreviver a um mundo que desabava.
Depois de um tempo, Cacau se levantou e foi até o corredor. Precisava respirar.
O corredor estava vazio, iluminado apenas por lâmpadas frias. Ela encostou-se à parede e deixou as lágrimas caírem, finalmente, em silêncio.
Lá fora, a chuva começou a cair fina, batendo contra os vidros.
Ela não ouviu quando Luca tirou o soro do suporte e foi até a porta. O corpo dele ainda doía, mas algo o empurrava para fora da cama.
— Cacau. — chamou, com a voz rouca.
Ela se virou, assustada, e o viu de pé, apoiado na moldura da porta.
— Luca! Você tá maluco? Volta pra cama!
— Eu não quero ficar deitado enquanto você chora sozinha.
Ela engoliu o choro, tentando fingir força.
— Eu não tô chorando.
— Tá, sim. — Ele se aproximou um pouco, ainda mancando. — E eu também. Só por dentro.
Cacau balançou a cabeça, rindo entre lágrimas. — Você devia estar dormindo.
— E você devia estar abraçando alguém. — respondeu, num tom que fez o ar entre eles mudar.
Por um instante, o tempo parou.
Ela hesitou, depois o segurou pelo braço, ajudando-o a voltar pra cama. Nenhum dos dois falou. O som da chuva preenchia o espaço entre as respirações.
Quando ele se deitou, Cacau ajeitou o lençol e ficou ali, sentada à beira do colchão.
— Obrigado. — disse ele, em voz baixa.
— Pelo quê?
— Por não desistir de mim.
Ela sorriu, mas não respondeu. Apenas passou a mão pelos cabelos dele, num gesto instintivo, quase maternal. O toque durou um segundo a mais do que deveria.
Ele fechou os olhos. — Quando tudo isso acabar, quero te levar pra um lugar longe daqui. — murmurou, meio sonolento. — Só pra respirar.
Cacau sentiu o coração apertar. — Isso é um convite ou delírio de febre?
— Pode ser os dois. — respondeu, sorrindo. — Desde que você diga sim.
Ela riu, mas os olhos marejaram de novo. — Dorme, Luca.
Ele obedeceu. O som do bip e da chuva se misturaram até virarem uma mesma melodia.
Cacau permaneceu ali, observando o rosto dele adormecido. Por um instante, o peso da culpa pareceu mais leve. Talvez porque, finalmente, ela não o carregasse sozinha.
Lá fora, a madrugada se desmanchava em cinza.
E, em algum lugar distante, Mateo atravessava a noite em busca de Isabela — enquanto no hospital, em meio ao medo e à ternura, algo novo nascia entre dois corações que ainda não tinham coragem de se reconhecer.
O mundo continuava em guerra, mas naquele quarto, por um breve momento, houve paz.