Capítulo 4 – Entre Linhas de Fumaça

1889 Palavras
O quarto ainda cheirava a éter e silêncio. A manhã começava a romper pela janela, trazendo uma luz pálida que desenhava retângulos no chão branco. O som ritmado do monitor cardíaco marcava o tempo, como se fosse um metrônomo da vida voltando lentamente ao compasso. Cacau, exausta, dormia com a cabeça apoiada na beira da cama. O coque desfeito deixava mechas soltas caindo sobre o rosto, e o crachá de Isabela ainda repousava sobre o criado-mudo, como se aquele pedaço de plástico tivesse peso de promessa. Luca abriu os olhos devagar. A claridade o incomodou por um instante, mas ele se obrigou a ficar desperto. A dor vinha em ondas, especialmente na costela e na cabeça, mas nada o perturbava tanto quanto a lembrança que o visitava em fragmentos: o som da explosão, o clarão, o carro arrancando com Isabela dentro. Ele levou a mão até o rosto, esfregou os olhos com cuidado e olhou ao redor. Viu Cacau adormecida, o corpo encolhido na cadeira, a expressão cansada até no sono. E, por um instante, a observou em silêncio. Havia algo quase sereno nela — uma força quieta, mas firme. Era estranho pensar que aquela mulher, sempre tão controlada, tinha corrido descalça pela rua, enfrentado fogo, fumaça e caos. Por ele. Por todos. — Cacau… — a voz saiu rouca, quase um sussurro. Ela se mexeu devagar, despertando. Piscou algumas vezes antes de focar o olhar nele. — Você devia estar dormindo. — a voz veio baixa, mas carregada de alívio. — Está tudo bem? — Preciso de um notebook. — respondeu, sem rodeios. Ela piscou, confusa. — O quê? — Um notebook. — repetiu, mais firme. — Preciso de acesso ao sistema. Agora. — Luca… — ela balançou a cabeça, erguendo-se. — Você precisa descansar. O médico foi claro. — Não é sobre trabalho. — ele cortou, a voz ganhando intensidade. — É sobre a Isa. Cacau suspirou, passando a mão pelos cabelos. — Eu sei o quanto ela significa para você, mas você ainda está com o soro no braço e cheio de pontos. O que acha que vai conseguir fazer daqui? — Qualquer coisa. — Ele tentou se erguer, mas gemeu de dor. — Se eu ficar parado, enlouqueço. Ela se aproximou, cruzando os braços, tentando manter a razão. — Luca, olha pra você. Está pálido, fraco, m*l consegue respirar sem fazer careta. Ele virou o rosto para ela, os olhos marejados, um cansaço que não vinha só do corpo. — Por favor, Cacau. Confie em mim. Eu sei onde procurar. O “confie em mim” ficou ecoando entre eles. Ela fechou os olhos por um instante, tentando encontrar uma brecha entre o dever e o coração. — Mas se a sua pressão cair de novo... — ela sussurrou. — Eu prometo que paro. — respondeu, rápido, como quem teme que ela volte atrás. — Só preciso tentar. Por um segundo, o olhar dela suavizou. Havia algo de vulnerável demais naquela súplica, algo que desarmava qualquer resistência. — Tá bom. — murmurou, por fim. — Mas se eu perceber que está forçando, eu tiro isso da sua frente. — Combinado. Ela saiu do quarto e voltou poucos minutos depois com o notebook da recepção, junto de uma tomada auxiliar. — Não acredito que estou compactuando com essa loucura. — murmurou, conectando os cabos. — Se o médico descobrir, é a minha cabeça que vai rolar. — Relaxa. — ele esboçou um sorriso fraco. — Sou ótimo em segredos. Ela riu, sem humor. — Isso é o que me preocupa. Luca começou a digitar devagar, cada movimento medido pela dor nas costelas. O quarto se encheu do som das teclas. Cacau ficou observando de longe, ora preocupada, ora curiosa. A expressão dele mudava conforme o raciocínio avançava: sobrancelhas franzidas, olhar fixo, mandíbula tensa. Mesmo debilitado, havia nele uma energia inquieta — como se o cérebro funcionasse num ritmo que o corpo não conseguia acompanhar. Horas se passaram sem que nenhum dos dois percebesse. A tarde se infiltrou no quarto com a luz dourada do sol refletindo nas paredes brancas. Por fim, ele parou. — Achei algo. Cacau se aproximou. — O quê? Ele girou o notebook em direção a ela. — Um padrão de abastecimento. — explicou, apontando para a tela. — Esse veículo aparece em horários alternados, sempre em postos diferentes, mas numa mesma rota rural. É uma empresa de fachada, ligada a uma locadora registrada no nome de… — ele clicou mais uma vez. — Carlos Medeiros. Cacau ficou em silêncio, tentando processar. — Isso pode ser uma coincidência. — Ou pode ser a pista que a gente precisava. — completou ele, com o olhar aceso. — Carlos era o intermediário de Alex nas transações da Guardian. Se esse carro está circulando lá, é porque estão movimentando a Isa. Ela o olhou com admiração e medo ao mesmo tempo. — Você está salvando a Isa. E nem saiu da cama pra isso. Ele riu, cansado. — Me avisa quando for hora de levantar pra ir buscá-la. Cacau respirou fundo, tocando a mão dele sem perceber. O toque foi breve, mas suficiente para que o ar entre eles parecesse mais denso. — Você precisa descansar agora. — disse, baixinho. — Promete? — Prometo. Mas só se ficar aqui. — respondeu, com um sorriso preguiçoso. Ela balançou a cabeça, tentando disfarçar o rubor. — Luca… — Tô falando sério. — insistiu, a voz suave, mas firme. — Fica. Ela não respondeu, mas puxou a cadeira e sentou-se novamente. Algumas horas depois O cheiro de café fresco invadiu o quarto antes mesmo que o som dos saltos ecoasse no corredor. Antonella Bianchi entrou primeiro, com um copo na mão e um olhar entre o alívio e a irritação. — Então é isso que chamam de repouso? — disse, arqueando a sobrancelha ao ver o notebook aberto sobre o lençol. Cacau levantou-se num pulo. — Senhora Bianchi, eu… — Deixa para lá. — Antonella interrompeu, pousando o café sobre a mesa. — Já devia imaginar que ele não ia ficar quieto. Giancarlo entrou logo em seguida, o rosto sério, mas o tom calmo. Giovanna vinha atrás, carregando uma sacola com roupas limpas e um pacote de biscoitos. — Luca, você devia estar dormindo. — disse o pai, aproximando-se. — Mas, como sempre, sua teimosia fala mais alto. — Eu descobri uma pista. — Luca respondeu, tentando parecer mais forte do que estava. — Pode ser importante. Giovanna se adiantou, curiosa. — Pista? Da Isabela? Cacau assentiu. — Ele cruzou dados de abastecimento e localizações suspeitas. Parece que há movimentação numa área rural a duzentos quilômetros daqui. Giancarlo cruzou os braços, absorvendo a informação. — Eu vou mandar verificar. — disse, já sacando o celular. — Mas, Luca, você não precisava se arriscar. — Precisava sim. — retrucou. — Eu não aguentaria ficar aqui parado. Antonella pousou a mão no ombro dele, o gesto entre carinho e advertência. — Meu filho, você ainda está deitado num leito e já quer ir pra guerra. Giovanna, que observava em silêncio, desviou o olhar para Cacau. Percebeu o modo como ela se inclinava ligeiramente na direção de Luca, a maneira como os olhos dela se suavizavam quando ele falava. Um sorriso quase imperceptível curvou seus lábios. Giancarlo desligou o celular e se aproximou da cama. — Há mais uma coisa que você precisa saber. — disse, com gravidade. — Um vídeo foi divulgado há algumas horas. O silêncio caiu como uma sombra. — Um vídeo da Isa. — completou o pai. O corpo de Luca enrijeceu. — Que vídeo? — Um material forjado, claramente. — explicou Giancarlo. — Ela aparece dizendo que está com Alex por vontade própria. Pedindo para que parem de procurá-los. Cacau levou a mão à boca. Giovanna arfou. Luca, porém, não disse nada por alguns segundos. O peito subia e descia rápido, o olhar fixo em algum ponto distante. — Ele está usando ela. — murmurou. — Está torturando todo mundo ao mesmo tempo. Giancarlo assentiu. — Mateo já deve ter recebido. — Eu preciso ver. — Luca tentou se erguer, mas Antonella o empurrou de volta. — Não vai. — disse, firme. — Você vai se manter calmo. Cacau interveio, segurando o braço dele com delicadeza. — Luca, por favor. Você não está em condições. O toque dela foi o que o deteve. Ele olhou para a mão dela sobre a sua e, finalmente, respirou fundo. — Tá bem. — murmurou. — Mas eu quero que me mantenham informado. Giovanna, sentindo o peso no ar, tentou suavizar. — Mateo vai resolver isso, Luca. Ele sempre resolve. — É isso que me preocupa. — respondeu, a voz rouca. — Quando ele ama, ele perde o controle. Giancarlo suspirou. — Nós vamos precisar manter a calma. Todos nós. Antonella assentiu, acariciando o rosto do filho. — Descanse, meu amor. Nós cuidamos do resto. A família deixou o quarto por alguns minutos, levando o peso da notícia com eles. Quando o silêncio voltou Cacau recolheu o notebook, fechou-o devagar e o colocou sobre a mesa. As mãos tremiam. Luca a observava, ainda pálido, mas mais tranquilo. — Você devia descansar. — disse, num tom brando. — Se eu descansar, eu lembro. — respondeu, sem olhá-lo. — E se eu lembrar, eu desabo. Ele sorriu de canto. — Engraçado. A gente é igual. Ela o encarou, e por um instante o tempo pareceu suspenso. A luz entrava filtrada pela cortina, tocando o rosto dele, destacando as olheiras, a linha dos lábios, o olhar cansado, mas vivo. — Não sei se isso é bom ou r**m. — murmurou ela. — É bom. — ele respondeu, com voz baixa. — Significa que você entende. Cacau deu um passo para trás, tentando manter distância. — Entender não quer dizer concordar. — Mas ajuda. — disse ele, e o sorriso se desfez em um suspiro. — Obrigado, Cacau. Por ficar. Ela o observou por alguns segundos antes de responder: — Eu não saberia pra onde ir, mesmo que quisesse. Ele fechou os olhos, e o bip do monitor voltou a preencher o quarto. Cacau ajeitou o lençol, apagou parte da luz e se sentou de novo na poltrona. O corpo pedia descanso, mas a mente ainda ardia. O que sentia por Luca não era algo que soubesse nomear — talvez fosse apenas compaixão, talvez algo nascendo devagar entre os cacos da tragédia. Ela olhou o crachá de Isabela sobre a mesa. Passou os dedos sobre as letras sujas. — Vamos trazê-la de volta. — sussurrou, mais para si do que para ele. — Custe o que custar. Do outro lado da cama, Luca murmurou algo sonolento, meio consciente: — Eu ouvi. E vou cobrar essa promessa. Ela sorriu, cansada, e finalmente deixou o corpo relaxar. Do lado de fora, o hospital mergulhava no silêncio da noite. A fumaça da tragédia ainda pairava sobre todos, mas ali, entre máquinas e lembranças, um novo tipo de fogo começava a se acender. Um fogo que não vinha da destruição — vinha daquilo que nasce quando o medo e a ternura se misturam. Entre linhas de fumaça e verdades não ditas, Luca e Cacau começavam a respirar o mesmo ar. E o destino, sempre paciente, esperava apenas o próximo sopro para incendiar o que ainda era só brasa.
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