O quarto ainda cheirava a éter e silêncio. A manhã começava a romper pela janela, trazendo uma luz pálida que desenhava retângulos no chão branco. O som ritmado do monitor cardíaco marcava o tempo, como se fosse um metrônomo da vida voltando lentamente ao compasso.
Cacau, exausta, dormia com a cabeça apoiada na beira da cama. O coque desfeito deixava mechas soltas caindo sobre o rosto, e o crachá de Isabela ainda repousava sobre o criado-mudo, como se aquele pedaço de plástico tivesse peso de promessa.
Luca abriu os olhos devagar. A claridade o incomodou por um instante, mas ele se obrigou a ficar desperto. A dor vinha em ondas, especialmente na costela e na cabeça, mas nada o perturbava tanto quanto a lembrança que o visitava em fragmentos: o som da explosão, o clarão, o carro arrancando com Isabela dentro.
Ele levou a mão até o rosto, esfregou os olhos com cuidado e olhou ao redor. Viu Cacau adormecida, o corpo encolhido na cadeira, a expressão cansada até no sono. E, por um instante, a observou em silêncio.
Havia algo quase sereno nela — uma força quieta, mas firme. Era estranho pensar que aquela mulher, sempre tão controlada, tinha corrido descalça pela rua, enfrentado fogo, fumaça e caos. Por ele. Por todos.
— Cacau… — a voz saiu rouca, quase um sussurro.
Ela se mexeu devagar, despertando. Piscou algumas vezes antes de focar o olhar nele.
— Você devia estar dormindo. — a voz veio baixa, mas carregada de alívio. — Está tudo bem?
— Preciso de um notebook. — respondeu, sem rodeios.
Ela piscou, confusa.
— O quê?
— Um notebook. — repetiu, mais firme. — Preciso de acesso ao sistema. Agora.
— Luca… — ela balançou a cabeça, erguendo-se. — Você precisa descansar. O médico foi claro.
— Não é sobre trabalho. — ele cortou, a voz ganhando intensidade. — É sobre a Isa.
Cacau suspirou, passando a mão pelos cabelos.
— Eu sei o quanto ela significa para você, mas você ainda está com o soro no braço e cheio de pontos. O que acha que vai conseguir fazer daqui?
— Qualquer coisa. — Ele tentou se erguer, mas gemeu de dor. — Se eu ficar parado, enlouqueço.
Ela se aproximou, cruzando os braços, tentando manter a razão.
— Luca, olha pra você. Está pálido, fraco, m*l consegue respirar sem fazer careta.
Ele virou o rosto para ela, os olhos marejados, um cansaço que não vinha só do corpo.
— Por favor, Cacau. Confie em mim. Eu sei onde procurar.
O “confie em mim” ficou ecoando entre eles. Ela fechou os olhos por um instante, tentando encontrar uma brecha entre o dever e o coração.
— Mas se a sua pressão cair de novo... — ela sussurrou.
— Eu prometo que paro. — respondeu, rápido, como quem teme que ela volte atrás. — Só preciso tentar.
Por um segundo, o olhar dela suavizou. Havia algo de vulnerável demais naquela súplica, algo que desarmava qualquer resistência.
— Tá bom. — murmurou, por fim. — Mas se eu perceber que está forçando, eu tiro isso da sua frente.
— Combinado.
Ela saiu do quarto e voltou poucos minutos depois com o notebook da recepção, junto de uma tomada auxiliar.
— Não acredito que estou compactuando com essa loucura. — murmurou, conectando os cabos. — Se o médico descobrir, é a minha cabeça que vai rolar.
— Relaxa. — ele esboçou um sorriso fraco. — Sou ótimo em segredos.
Ela riu, sem humor.
— Isso é o que me preocupa.
Luca começou a digitar devagar, cada movimento medido pela dor nas costelas. O quarto se encheu do som das teclas. Cacau ficou observando de longe, ora preocupada, ora curiosa.
A expressão dele mudava conforme o raciocínio avançava: sobrancelhas franzidas, olhar fixo, mandíbula tensa.
Mesmo debilitado, havia nele uma energia inquieta — como se o cérebro funcionasse num ritmo que o corpo não conseguia acompanhar.
Horas se passaram sem que nenhum dos dois percebesse. A tarde se infiltrou no quarto com a luz dourada do sol refletindo nas paredes brancas.
Por fim, ele parou.
— Achei algo.
Cacau se aproximou.
— O quê?
Ele girou o notebook em direção a ela.
— Um padrão de abastecimento. — explicou, apontando para a tela. — Esse veículo aparece em horários alternados, sempre em postos diferentes, mas numa mesma rota rural. É uma empresa de fachada, ligada a uma locadora registrada no nome de… — ele clicou mais uma vez. — Carlos Medeiros.
Cacau ficou em silêncio, tentando processar.
— Isso pode ser uma coincidência.
— Ou pode ser a pista que a gente precisava. — completou ele, com o olhar aceso. — Carlos era o intermediário de Alex nas transações da Guardian. Se esse carro está circulando lá, é porque estão movimentando a Isa.
Ela o olhou com admiração e medo ao mesmo tempo.
— Você está salvando a Isa. E nem saiu da cama pra isso.
Ele riu, cansado.
— Me avisa quando for hora de levantar pra ir buscá-la.
Cacau respirou fundo, tocando a mão dele sem perceber. O toque foi breve, mas suficiente para que o ar entre eles parecesse mais denso.
— Você precisa descansar agora. — disse, baixinho. — Promete?
— Prometo. Mas só se ficar aqui. — respondeu, com um sorriso preguiçoso.
Ela balançou a cabeça, tentando disfarçar o rubor.
— Luca…
— Tô falando sério. — insistiu, a voz suave, mas firme. — Fica.
Ela não respondeu, mas puxou a cadeira e sentou-se novamente.
Algumas horas depois
O cheiro de café fresco invadiu o quarto antes mesmo que o som dos saltos ecoasse no corredor. Antonella Bianchi entrou primeiro, com um copo na mão e um olhar entre o alívio e a irritação.
— Então é isso que chamam de repouso? — disse, arqueando a sobrancelha ao ver o notebook aberto sobre o lençol.
Cacau levantou-se num pulo.
— Senhora Bianchi, eu…
— Deixa para lá. — Antonella interrompeu, pousando o café sobre a mesa. — Já devia imaginar que ele não ia ficar quieto.
Giancarlo entrou logo em seguida, o rosto sério, mas o tom calmo. Giovanna vinha atrás, carregando uma sacola com roupas limpas e um pacote de biscoitos.
— Luca, você devia estar dormindo. — disse o pai, aproximando-se. — Mas, como sempre, sua teimosia fala mais alto.
— Eu descobri uma pista. — Luca respondeu, tentando parecer mais forte do que estava. — Pode ser importante.
Giovanna se adiantou, curiosa.
— Pista? Da Isabela?
Cacau assentiu. — Ele cruzou dados de abastecimento e localizações suspeitas. Parece que há movimentação numa área rural a duzentos quilômetros daqui.
Giancarlo cruzou os braços, absorvendo a informação.
— Eu vou mandar verificar. — disse, já sacando o celular. — Mas, Luca, você não precisava se arriscar.
— Precisava sim. — retrucou. — Eu não aguentaria ficar aqui parado.
Antonella pousou a mão no ombro dele, o gesto entre carinho e advertência.
— Meu filho, você ainda está deitado num leito e já quer ir pra guerra.
Giovanna, que observava em silêncio, desviou o olhar para Cacau. Percebeu o modo como ela se inclinava ligeiramente na direção de Luca, a maneira como os olhos dela se suavizavam quando ele falava. Um sorriso quase imperceptível curvou seus lábios.
Giancarlo desligou o celular e se aproximou da cama.
— Há mais uma coisa que você precisa saber. — disse, com gravidade. — Um vídeo foi divulgado há algumas horas.
O silêncio caiu como uma sombra.
— Um vídeo da Isa. — completou o pai.
O corpo de Luca enrijeceu.
— Que vídeo?
— Um material forjado, claramente. — explicou Giancarlo. — Ela aparece dizendo que está com Alex por vontade própria. Pedindo para que parem de procurá-los.
Cacau levou a mão à boca. Giovanna arfou.
Luca, porém, não disse nada por alguns segundos. O peito subia e descia rápido, o olhar fixo em algum ponto distante.
— Ele está usando ela. — murmurou. — Está torturando todo mundo ao mesmo tempo.
Giancarlo assentiu.
— Mateo já deve ter recebido.
— Eu preciso ver. — Luca tentou se erguer, mas Antonella o empurrou de volta.
— Não vai. — disse, firme. — Você vai se manter calmo.
Cacau interveio, segurando o braço dele com delicadeza.
— Luca, por favor. Você não está em condições.
O toque dela foi o que o deteve. Ele olhou para a mão dela sobre a sua e, finalmente, respirou fundo.
— Tá bem. — murmurou. — Mas eu quero que me mantenham informado.
Giovanna, sentindo o peso no ar, tentou suavizar.
— Mateo vai resolver isso, Luca. Ele sempre resolve.
— É isso que me preocupa. — respondeu, a voz rouca. — Quando ele ama, ele perde o controle.
Giancarlo suspirou.
— Nós vamos precisar manter a calma. Todos nós.
Antonella assentiu, acariciando o rosto do filho.
— Descanse, meu amor. Nós cuidamos do resto.
A família deixou o quarto por alguns minutos, levando o peso da notícia com eles.
Quando o silêncio voltou
Cacau recolheu o notebook, fechou-o devagar e o colocou sobre a mesa. As mãos tremiam.
Luca a observava, ainda pálido, mas mais tranquilo.
— Você devia descansar. — disse, num tom brando.
— Se eu descansar, eu lembro. — respondeu, sem olhá-lo. — E se eu lembrar, eu desabo.
Ele sorriu de canto.
— Engraçado. A gente é igual.
Ela o encarou, e por um instante o tempo pareceu suspenso. A luz entrava filtrada pela cortina, tocando o rosto dele, destacando as olheiras, a linha dos lábios, o olhar cansado, mas vivo.
— Não sei se isso é bom ou r**m. — murmurou ela.
— É bom. — ele respondeu, com voz baixa. — Significa que você entende.
Cacau deu um passo para trás, tentando manter distância.
— Entender não quer dizer concordar.
— Mas ajuda. — disse ele, e o sorriso se desfez em um suspiro. — Obrigado, Cacau. Por ficar.
Ela o observou por alguns segundos antes de responder:
— Eu não saberia pra onde ir, mesmo que quisesse.
Ele fechou os olhos, e o bip do monitor voltou a preencher o quarto.
Cacau ajeitou o lençol, apagou parte da luz e se sentou de novo na poltrona. O corpo pedia descanso, mas a mente ainda ardia. O que sentia por Luca não era algo que soubesse nomear — talvez fosse apenas compaixão, talvez algo nascendo devagar entre os cacos da tragédia.
Ela olhou o crachá de Isabela sobre a mesa. Passou os dedos sobre as letras sujas.
— Vamos trazê-la de volta. — sussurrou, mais para si do que para ele. — Custe o que custar.
Do outro lado da cama, Luca murmurou algo sonolento, meio consciente:
— Eu ouvi. E vou cobrar essa promessa.
Ela sorriu, cansada, e finalmente deixou o corpo relaxar.
Do lado de fora, o hospital mergulhava no silêncio da noite. A fumaça da tragédia ainda pairava sobre todos, mas ali, entre máquinas e lembranças, um novo tipo de fogo começava a se acender.
Um fogo que não vinha da destruição — vinha daquilo que nasce quando o medo e a ternura se misturam.
Entre linhas de fumaça e verdades não ditas, Luca e Cacau começavam a respirar o mesmo ar.
E o destino, sempre paciente, esperava apenas o próximo sopro para incendiar o que ainda era só brasa.