O bip do monitor cardíaco era o único som constante naquela madrugada em que o mundo parecia ter desmoronado. A claridade artificial do quarto de hospital não tinha a doçura da luz do dia nem a serenidade da noite — era um branco duro, impiedoso, que denunciava cada detalhe: o corte no supercílio, os hematomas no braço, os fios de soro fincados no corpo de Luca.
Cacau estava ali.
Sentada em uma poltrona desconfortável ao lado da cama, o corpo curvado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça entre as mãos. O salto quebrado da noite anterior repousava embaixo da cadeira, como um lembrete grotesco de que até a elegância dela havia sido dilacerada pelo caos. O crachá de Isabela, sujo de fuligem, estava sobre a mesa de cabeceira. Ela o mantinha perto, como se a simples presença daquele objeto pudesse impedir que a amiga desaparecesse de vez.
O som dos passos ecoou no corredor antes que a porta se abrisse. Cacau ergueu os olhos, ainda com a imagem da explosão queimando na memória, e viu entrar primeiro Giovanna, a irmã mais nova de Luca. O rosto dela, normalmente radiante, estava tenso, marcado pelo medo. Logo atrás, vieram Antonella e Giancarlo.
Antonella avançou sem hesitar. Os cabelos claros presos em um coque elegante contrastavam com as olheiras profundas da noite maldormida. Aproximou-se de Cacau e, num gesto instintivo, segurou-lhe as mãos.
— Você estava lá… — disse, a voz embargada. — Meu Deus, você viu tudo.
Cacau apenas assentiu, sentindo o calor das mãos da mãe de Luca apertando as suas. Quis dizer que não tinha conseguido proteger Isabela, que se sentia impotente, mas as palavras não saíram.
Giancarlo pousou a mão no ombro dela com firmeza. O patriarca dos Bianchi tinha um olhar grave, mas sereno, o tipo de presença que sustentava os outros mesmo nos piores momentos.
— Você fez o que pôde, filha. — O tom baixo soou quase paternal. — Não se culpe pelo que ninguém poderia evitar.
Cacau desviou o olhar, lutando contra as lágrimas. Não estava acostumada a ser chamada assim, “filha”, como se fizesse parte de algo maior.
Giovanna, por sua vez, se aproximou da cama, tocando de leve a mão do irmão desacordado. O olhar marejado dela se voltou para Cacau.
— Ele chamou por você, sabia? Antes de fechar os olhos na ambulância. — Um sorriso trêmulo lhe escapou. — Disse seu nome.
Cacau sentiu o peito apertar. Apertou mais forte o crachá de Isabela que ainda segurava.
— E a Isabela… — Giovanna engoliu em seco. — Vocês têm notícias dela?
Cacau suspirou, cabisbaixa:
— Nada concreto ainda. Eu não pude impedir que levassem ela, o Luca estava ferido e eles estavam preparados.
O silêncio caiu pesado. Antonella levou a mão ao rosto, respirando fundo.
— E o Mateo? Ele já sabe?
Cacau hesitou.
— Não sei. Está em deslocamento. Eu falei com Lorenzo por telefone. Mas quando souber… — suspirou, olhando para Luca — não vai aceitar com calma.
Giancarlo franziu o cenho.
— Ele precisa manter a cabeça fria. Não pode colocar todos em risco.
— Você conhece o Mateo — Giovanna rebateu, aflita. — Ele não vai parar até trazer a Isabela de volta.
Os olhares se cruzaram: preocupação, amor, medo. Cacau se sentiu ainda menor no meio daquela família tão unida, mas, ao mesmo tempo, envolvida por uma rede invisível de cuidado.
Antonella passou o braço por seus ombros, num gesto inesperado.
— Você não está sozinha nessa, querida. Nós também vamos cuidar de você.
Cacau não respondeu. Apenas deixou que o corpo relaxasse sob o abraço. Pela primeira vez desde a explosão, permitiu-se acreditar que não precisava carregar o peso de tudo sozinha.
Os Bianchi saíram aos palcos do quarto, Giancarlo foi a empresa se informar sobre a situação pós-explosão, enquanto Antonella e Giovanna saiam a procura da equipe médica que atendeu Luca. Cacau estava mais uma vez sozinha com seus pensamentos.
Foi quando ouviu o som diferente.
Um suspiro arrastado. Um gemido baixo.
Cacau ergueu a cabeça num sobressalto, os olhos fixando o corpo na cama. Luca mexeu os dedos da mão direita. Um movimento mínimo, mas que fez o coração dela disparar.
— Luca? — chamou, hesitante, como quem teme que o eco devolva silêncio.
Ele mexeu de novo. A respiração acelerou, o rosto se contraiu. Lentamente, as pálpebras pesadas se abriram. O olhar estava turvo, perdido entre o teto branco e as próprias lembranças.
— Isa… — murmurou, a voz rouca, quase inaudível. — Onde… Isa?
Ela engoliu o nó na garganta e tentou se recompor. Aproximou-se, segurou a mão dele com firmeza, mas manteve a máscara de ironia que usava como armadura.
— Que bom que voltou do mundo dos desmaios só para me ignorar — disse, a voz carregada de sarcasmo. — Pode me agradecer depois. Fiquei aqui o tempo todo, sabia?
Ele virou o rosto lentamente, os olhos ainda nublados, mas já reconhecendo quem estava ao lado. Quando a viu, esboçou um sorriso fraco.
— Você… sempre grita… demais.
Cacau fechou os olhos, um riso nervoso escapando junto com uma lágrima teimosa. Limpou-a rápido, como se pudesse esconder o deslize.
— i****a. — A palavra saiu carregada de afeto. — Não faz ideia do susto que deu.
Luca tentou se erguer, mas o corpo não respondeu. Gemeu de dor.
— Fica quieto. — Ela o empurrou de leve contra o travesseiro. — Se tentar bancar o herói agora, vai acabar caindo da cama. E eu não vou te carregar.
Ele respirou fundo, os olhos fixos nela.
— A Isa… levaram, não foi?
O silêncio que se seguiu respondeu por ela.
Luca fechou os olhos, um soluço preso no peito. Quando os abriu novamente, estavam marejados.
— Eu devia ter feito mais… devia ter impedido…
— Você quase morreu, Luca. — A voz de Cacau tremeu. — Não fala como se tivesse falhado.
Ele virou o rosto para o lado, incapaz de encará-la, afundando-se no próprio desespero.
Foi então que a porta se abriu.
O médico entrou, jaleco impecável, prancheta nas mãos. Lançou um olhar profissional para os monitores e depois para Cacau.
— Ele acordou? — perguntou.
— Sim. — Ela soltou a mão de Luca discretamente, como se aquele gesto fosse segredo. — Está consciente.
O médico aproximou-se. — Senhor Bianchi, preciso que permaneça em repouso. Você sofreu uma concussão leve, além de escoriações múltiplas. Está estável, mas precisa de observação.
— Quanto tempo até eu poder sair daqui? — Luca disparou, sem paciência para rodeios.
— Mínimo de quarenta e oito horas, dependendo da evolução.
— Esqueça — ele respondeu, a voz firme apesar da fraqueza. — Não tenho esse tempo.
— Luca! — Cacau o repreendeu. — Você m*l abriu os olhos!
O médico suspirou, acostumado à teimosia de pacientes que acreditavam estar acima dos próprios limites.
— Vou providenciar exames complementares. Mas, senhor Bianchi, recomendo que pense na sua saúde antes de qualquer outra coisa.
Saiu sem esperar resposta.
O silêncio voltou a pesar no quarto. Luca fixou os olhos no teto, o maxilar travado.
Cacau o observou por alguns segundos antes de falar, mais baixo:
— Você não pode se levantar agora. Se fizer isso, vai se destruir.
— Eu já tô destruído, Cacau. — A confissão saiu amarga. — Levaram a Isa diante dos meus olhos. Eu caí feito um i****a enquanto ela era arrastada… O Mateo… Como eu vou dizer ao meu irmão que não fui capaz de proteger o amor da vida dele?
— Chega. — Ela segurou a mão dele de novo, firme. — Não fala assim. Você não é i****a. Fomos pegos de surpresa. Você está vivo. E é isso que importa agora.
Ele olhou para ela, o olhar vulnerável de um homem que raramente mostrava fraqueza. Aquele momento, mais do que qualquer outro, a fez perceber o quanto ele carregava nos ombros — a sombra do irmão, o peso do sobrenome, e agora, a culpa pelo sequestro de Isabela.
Antes que pudesse responder, a porta abriu novamente.
Giancarlo entrou. O rosto sério, mas o olhar cheio de um cansaço que vinha junto da preocupação.
— Luca… — a voz grave não era de consolo, mas de comando. — Encontraram a moto.
Luca ergueu o tronco, ignorando a dor.
— Onde?
— Num galpão a poucos quilômetros daqui. Mas estava queimada, sem placa, sem identificação. Alguém se certificou de apagar os rastros.
— Alguma pista? — Cacau perguntou, ansiosa.
— Pouca coisa. — Giancarlo ajeitou o paletó, o peso do patriarca evidente. — Mas confirmamos: o sistema da Guardian foi manipulado. Houve liberação de acesso às 17h44. Não foi acidente.
O silêncio caiu como chumbo.
Luca fechou os olhos por um instante, depois encarou o pai com determinação.
— Eu vou com vocês.
— Não, você não vai. — Giancarlo foi categórico. — Você m*l está respirando direito.
— Não interessa. — Luca tentou se levantar novamente, os músculos protestando. — Isa tá lá fora, em algum lugar. E eu não vou ficar deitado enquanto ela…
A frase morreu no ar.
Cacau o empurrou de volta para o colchão, as mãos firmes sobre os ombros dele.
— Você vai ficar aqui. — A voz dela soou como ordem, não súplica. — Quer que Isabela volte e encontre você morto numa maca de hospital?
Ele a encarou, os olhos faiscando raiva e dor. Mas havia também algo mais: a percepção de que ela era a única capaz de enfrentá-lo sem medo.
Giancarlo respirou fundo, cruzando os braços.
— Precisamos de você, Luca. Mas inteiro. Se sair agora, só vai atrapalhar.
Luca desviou o olhar, frustrado, mas não respondeu.
Cacau, ainda segurando os ombros dele, aproximou o rosto e sussurrou:
— Eu sei que você odeia esperar. Eu sei. Mas, desta vez, é a única coisa certa a fazer.
Ele respirou fundo, vencido pela exaustão. Finalmente se deixou cair de volta nos travesseiros.
Giancarlo assentiu, lançando a Cacau um olhar de aprovação silenciosa, e saiu para tratar de novos informes.
O quarto voltou a se encher do bip constante do monitor.
Cacau soltou os ombros dele devagar, mas não tirou a mão da dele. Permaneceu ali, sentindo o calor débil da pele, como se aquele contato fosse a única forma de mantê-lo ancorado.
Luca fechou os olhos por alguns segundos. Quando os abriu, encontrou os dela.
— Você não vai sair daqui, vai?
— Não. — Ela respondeu, firme. — Eu prometi.
Ele respirou fundo, fechou os olhos de novo.
E, pela primeira vez desde a explosão, adormeceu em paz.