Minutos antes da explosão
Luca descia apressado pela escada lateral, paletó aberto balançando contra o corpo, uma mão ajeitando a gola da camisa e a outra digitando no celular. A mensagem para Lorenzo precisava ser curta e precisa: “Documentos chegaram. Pego pessoalmente. Depois falo com você.”
Aquela escolha não tinha sido casual. Luca poderia ter mandado qualquer funcionário, poderia ter acionado a equipe de recepção ou mesmo a própria Cacau para verificar o protocolo. Mas não — havia aprendido com Mateo que certas coisas, quando chegavam de maneira inesperada e com aquele tipo de selo, não eram deixadas nas mãos de terceiros. Ainda mais em tempos em que inimigos invisíveis rondavam cada brecha do sistema.
A fachada da The Guardian refletia as luzes da cidade como um espelho impenetrável. O prédio era um monólito de vidro e concreto, uma fortaleza travestida de escritório moderno. Cada detalhe da arquitetura transmitia segurança, mas também distância: era uma casa de vidro para quem acreditava em vigilância constante, e uma fortaleza sombria para quem sabia o que se escondia atrás das paredes.
Naquela noite, porém, havia algo fora do compasso.
O saguão lateral, que costumava estar quase vazio no fim do expediente, parecia comum demais — e esse comum o incomodava. O piso de granito refletia os painéis de LED que transmitiam em looping reportagens sobre ataques cibernéticos internacionais. A música instrumental preenchia o ar como um anestésico leve. O cheiro de café recém-passado ainda resistia, como se fosse o último resquício de uma rotina que, em poucos minutos, deixaria de existir.
Dois estagiários da TI riam baixinho perto do elevador, trocando comentários sobre algum bug de sistema. O segurança da guarita lateral, um homem robusto, coçava o queixo, entediado, com os olhos pregados nas câmeras. Nada parecia urgente, nada parecia suspeito. E, justamente por isso, Luca sentiu o primeiro aperto no peito.
— Ei, você liberou o acesso externo da garagem hoje? — um dos estagiários perguntou, franzindo o cenho diante do tablet.
— Eu? Não — respondeu o outro, sem levantar os olhos. — Por quê?
— Porque o sistema mostra acesso liberado às 17h44. E não tem registro de quem foi.
— Hm. Deve ter sido a Claudia… ou o Lorenzo. Talvez algum agendamento automático.
— Estranho. Nunca vi isso acontecer sem log.
A conversa morreu ali. Nenhum dos dois estagiários tinha noção de que aquela era a primeira rachadura.
Luca, distraído, se aproximou do balcão da recepção. Assinou o protocolo de entrega e recebeu a pasta parda lacrada. Brasão timbrado. Selo intacto. Tudo dentro do esperado. Mas o esperado, às vezes, era apenas a cortina para o desastre.
O ar mudou.
Ele sentiu primeiro no corpo, um calor esquisito que se acumulava sob o colarinho da camisa. O instinto gritou antes da razão. Luca ergueu o olhar.
A porta lateral era de vidro temperado, larga o suficiente para permitir a entrada de cargas. Do lado de fora, o ronco de uma moto rompeu o silêncio de forma abrupta, como uma nota desafinada numa orquestra.
O motociclista surgiu da curva, freou bruscamente diante da porta e, sem tirar o capacete espelhado, deixou uma mochila escura encostada no vidro. Não disse nada, não olhou para ninguém. Apenas voltou para a moto e desapareceu.
O estômago de Luca revirou.
— Ei! — gritou, o som da própria voz mais agudo do que esperava. — Tem alguém largando bagagem na entrada! Isso não tá certo!
O segurança levantou o olhar tarde demais.
O clarão veio primeiro.
Branco. Ofuscante.
Depois, o som: um rugido que engoliu o mundo.
Em seguida, o impacto: uma onda de calor e ar comprimido que explodiu de dentro da mochila, empurrando tudo para trás.
O vidro da fachada estilhaçou em milhões de fragmentos que cortaram o ar como navalhas.
As paredes tremeram.
O teto vibrou como se fosse se partir.
Luca foi arremessado contra o pilar de concreto. Sentiu o corpo bater com violência, o ar sendo expulso dos pulmões. A pasta voou de suas mãos e desapareceu em meio aos cacos de vidro.
O chão deixou de ser chão.
Tudo escureceu.
O caos
O silêncio durou apenas um segundo. Logo depois, os gritos começaram.
— FOGO! — alguém berrou.
— AJUDA! — outro, mais distante.
A fumaça se espalhava pelo saguão, misturada ao cheiro de pólvora e concreto queimado. O alarme disparou, cortando o ar com seu ruído metálico. Luzes vermelhas piscavam nas paredes. O que antes era rotina agora se transformava em guerra.
Funcionários corriam em todas as direções. Um rapaz da TI tinha o braço coberto de sangue, tentando se arrastar para longe dos destroços. Uma recepcionista mancando, com vidro cravado na panturrilha, gritava por socorro. O segurança tentava apagar as chamas com um extintor, mas a espuma saía fraca, quase inútil.
E no meio de tudo isso, um grito específico cortou o ar.
— NÃO! NÃO LEVEM ELA!
Cacau corria descalça, o salto quebrado abandonado no asfalto quente. Os cabelos, antes presos, agora desgrenhados, voavam atrás dela.
O carro preto acelerava brutalmente na rua lateral. Os pneus guincharam na curva, deixando marcas no asfalto. O vidro era fumê, mas Cacau viu. Viu Isabela sendo empurrada para dentro, o capuz cobrindo metade do rosto, os olhos perdidos.
— ISABELA!!! — ela gritou, voz cortando o caos.
Correu com todas as forças, mas o carro já desaparecia, engolido pelo horizonte da avenida. O barulho do motor se misturava ao eco da explosão, ao alarme incessante, aos gritos.
Ela parou, ofegante, os olhos queimando de fumaça e desespero. O mundo parecia em câmera lenta. Luzes piscavam. Vozes se sobrepunham. Mas tudo o que ela conseguia ver eram os destroços.
E sangue.
E o corpo de Luca no chão.
E o vulto de Isabela sendo levado.
O resto era nada.
Entre cacos e promessas
No meio dos fragmentos de vidro espalhados, algo brilhou.
O crachá de Isabela.
Cacau se ajoelhou, pegou-o com as mãos trêmulas e apertou contra o peito. Como se fosse a última parte viva dela.
Mais à frente, alguém gemia. Correu até o rapaz da TI ferido, ajudou-o a se encostar em uma pilastra caída. A cada passo, o coração gritava dois nomes.
E então viu.
— LUCA! — o nome escapou como um soluço.
Ele estava desacordado, rosto coberto de **, cortes pela pele, sangue escorrendo da testa.
Cacau caiu de joelhos ao lado dele, sem se importar com os estilhaços cravando na pele.
— Luca… me escuta… — a voz saiu como uma prece. — Por favor, não faz isso comigo. Abre os olhos. Fala comigo. Qualquer coisa…
Ele gemeu, os lábios se movendo com dificuldade.
— Ca…cau…
— Tô aqui. — As lágrimas caíam, mas ela sorriu. — Você vai ficar bem.
Ele sorriu fraco, quase inexistente.
— Você… grita demais.
Ela riu entre o choro.
— i****a.
Tentou ligar para Mateo. Caixa postal. De novo. Nada.
Discou para Lorenzo.
— Lorenzo! — a voz dela explodiu no telefone. — É a Cacau! Houve uma explosão! A Isabela foi levada! E o Luca tá ferido!
Do outro lado, Lorenzo manteve o tom firme.
— Você está segura?
— Eu… eu tô tentando, mas o Luca…
— Escuta. Fica com ele. Eu já tô acionando todo mundo. Você não tá sozinha.
Você não está sozinha.
As palavras dele se fixaram como um mantra no meio do caos.
Quando os paramédicos chegaram, tentaram afastá-la.
— Ele é meu amigo! Eu fico com ele! — ela gritou, desesperada. — Se tirarem ele daqui sem mim, eu enlouqueço!
— Senhorita… precisamos de espaço.
— Então me avisem de tudo! Eu vou com ele. Não me deixem pra trás!
Eles cederam. Colocaram Luca na maca, o rosto pálido sob a máscara de oxigênio.
Cacau segurou o braço dele até o último instante.
— Você vai sair dessa, Luca. — O tom dela era uma promessa. — E quando acordar… eu vou estar lá. Do seu lado.
O crachá vermelho ainda queimava em sua mão.
Ela ergueu os olhos para o céu, onde os primeiros traços da madrugada surgiam. O horizonte se tingia de vermelho e cinza.
Mas para Cacau, aquela era a noite mais longa da vida.
E estava apenas começando.