A reunião de crise foi convocada tão depressa que parecia ter surgido de um incêndio — e, de certa forma, era exatamente isso. O gesto impulsivo de Mateo no final da tarde anterior, o soco no repórter, o vídeo viralizado em minutos, a imprensa especulando sobre a***o de poder… tudo havia explodido como pólvora acesa demais.
Cacau entrou na sala ainda ajeitando o crachá. O r**o de cavalo impecável, o blazer alinhado e o tablet contra o peito. Apesar de estar na sala apenas como apoio executivo, ela sentia o peso da atmosfera — Comunicação, Jurídico, Segurança, conselheiros, todos reunidos como se esperassem o próximo abalo sísmico.
Giovanna falava ao telefone perto da parede de vidro, a voz firme:
— …Não subam nada ainda. Vamos emitir nota oficial e depois liberamos o posicionamento visual. Eu aviso quando for seguro.
Do outro lado da mesa, Lorenzo analisava frame a frame o vídeo do incidente, enquanto Roberto sussurrava indignações a quem quisesse ouvir — “irresponsabilidade”, “risco jurídico”, “mancha na empresa”.
Luca estava ali também. Encostado na parede lateral, braços cruzados, o maxilar rígido. Os olhos, atentos, captavam tudo. A expressão dizia que ele estava pronto para intervir se necessário — e, ao mesmo tempo, tentando manter domínio sobre o próprio impulso.
Quando Cacau entrou, ninguém parou por ela — mas alguns olhares se voltaram rapidamente. Não porque ela liderasse, e sim porque todos sabiam: quando a sala estava em chamas, Cacau era quem mantinha as informações organizadas, quem filtrava as urgências, quem entregava a Giovanna exatamente o que ela precisava.
— Cacau — Giovanna chamou sem olhar. — Já subiu a lista dos portais que estão repercutindo o vídeo?
— Sim, aqui. — Ela se aproximou e colocou o tablet nas mãos da chefe de comunicação. — Três portais estão preparando entrevistas opinativas, mas nenhum tem detalhes confirmados. Só especulação.
Giovanna deslizou o dedo na tela, franziu o cenho.
— Vamos soltar nota em dez minutos — disse ela, desta vez para a sala inteira. — Tom neutro, objetivo. Sem pedir desculpas pelo que não aconteceu, sem agressividade. Apenas esclarecimento factual.
Luca completou:
— E sem dar margem para narrativa de a***o de autoridade. O repórter provocou, mas isso não interessa para a opinião pública. Interessa o dano. E o dano a gente controla com rapidez.
Lorenzo assentiu, ainda debruçado sobre o vídeo.
— Vou falar com o Jurídico. Precisamos de uma linha preventiva caso escale.
Todos concordaram. O conselho sussurrou entre si. Giovanna assumiu a condução com a força precisa de quem nascera para organizar o caos.
Cacau, em silêncio, fazia anotações rápidas, cruzava nomes, encaminhava documentos, abria pastas no tablet, distribuía para os setores competentes. Era uma sombra eficiente — não opinava, não comandava, mas fazia a engrenagem girar.
Luca observava tudo. Observava ela.
Você nunca demonstrou peso nenhum, ele pensou, mas hoje parece cansada.
E aquilo apertou o peito dele num ponto que ele não queria admitir.
A reunião durou cerca de meia hora. Quando Giovanna encerrou com um:
— Todos aos seus setores. Vamos conter essa maré antes que vire tempestade.
…a sala entrou em movimento imediato. Pessoas se levantaram, correram, telefonaram. Todos em estado de alerta.
Cacau recolheu seus materiais, pronta para seguir Giovanna até o escritório de crises. Antes que pudesse sair, Luca passou por ela, e o toque leve de ombro com ombro — acidental ou não — a fez prender o ar por um segundo.
Ele disse apenas:
— Obrigado por filtrar tudo tão rápido.
Ela sorriu de leve, profissional.
— Só fazendo meu trabalho.
Mas Luca viu nos olhos dela o que ninguém mais viu: uma sombra de preocupação verdadeira. Não pela empresa. Por Mateo. Pela família. Pela dor que cercava todos eles.
E isso mexeu com ele de um jeito que nenhuma crise corporativa jamais mexera.
A Sala de Operações estava mergulhada naquele silêncio cheio de ruídos: teclas rápidas, telas piscando, notificações discretas soando como gotas de água em metal frio. Era tarde da noite, mas ninguém parecia disposto a ir embora. A imagem de Alice perdida, o risco crescente, a sensação de que o tempo estava contra eles… tudo pesava no ar.
Luca estava debruçado sobre duas telas, cruzando as últimas triangulações de sinal vindas do notebook antigo de Alice. Os olhos ardiam, mas a mente estava alerta, focada, agressiva. Ele mordia o lábio inferior enquanto analisava rotas prováveis como se estivesse procurando resquícios do próprio pulmão.
Ao lado dele, Cacau trabalhava com precisão quase cirúrgica. Estava de pé, inclinada sobre o monitor, destravando registros telefônicos mascarados. O blazer já estava apoiado na cadeira. A camisa branca, dobrada nos cotovelos, deixava à mostra a pulseira discreta de prata. O cabelo preso puxava o rosto para trás, destacando a linha forte do maxilar. Ela parecia inabalável. Mas Luca já tinha aprendido a reconhecer a tensão invisível nos ombros dela.
— Aqui — disse ela, tocando no canto de uma tela. — Dois números mascarados repetem o mesmo horário, mas em dias diferentes. Sobem, fazem ping e desaparecem.
Luca se aproximou, inclinando-se por trás dela. O perfume delicado dela alcançou ele como um golpe suave. Por um instante, ele esqueceu de respirar.
— Isso é padrão de fuga — comentou, a voz mais baixa do que pretendia.
Cacau desviou os olhos para ele, e Luca percebeu tarde demais o quanto estava perto. O coração dele bateu forte, como se tivesse cometido um erro estratégico irreversível.
Ela pigarreou, recuando meio passo.
— É. E ela está tentando proteger alguém. Talvez mais de uma pessoa.
— Ou tentando nos avisar — completou Luca.
Os olhos dos dois se encontraram — um instante rápido, mas denso. Havia entre eles tensão, respeito, medo… e algo que ambos tentavam fingir que não existia.
Lorenzo entrou, quebrando o silêncio como vidro.
— Consegui as listas de acesso dos últimos sete dias. Cacau, cruza isso com os logs que você filtrou. Luca, compara com os horários de rota.
Os dois assentiram ao mesmo tempo, quase sincronizados. Era estranho como trabalhavam bem juntos — como se um pensasse o que o outro executava.
Durante horas, a sala respirou dados, códigos, análises. Cacau e Luca se moviam próximos, trocando informações rápidas, sem uma pausa, sem margem para erro. Em alguns momentos, quando ela explicava algo na tela e ele se aproximava, os braços quase se tocavam. Quase. E cada “quase” parecia criar uma camada nova entre eles.
Era como se um fio invisível passasse entre os dois — esticado demais, prestes a arrancar faísca.
Às três da manhã, quando terminaram mais uma rodada de cruzamentos, Cacau massageou a nuca e Luca esticou os ombros.
— Vá descansar, Cacau — disse Lorenzo. — Vocês dois estão há horas nisso.
Cacau abriu a boca para dizer que ficaria, mas Luca foi mais rápido.
— Eu fico. Ela pode ir.
Era p******o. Era cuidado. Era instinto. Mas a frase saiu com uma intensidade que fez Cacau olhar para ele como se tentasse decifrar algo.
Ela respirou devagar. Assentiu.
— Qualquer atualização, me liguem.
E saiu. Luca acompanhou com os olhos. E, mesmo exausto, sentiu o corpo inteiro reclamar a ausência dela.
Mais tarde, quando foi buscar um café para afastar o cansaço que queimava atrás dos olhos, Cacau ouviu risadas vindo da copa da Guardian. Risadas femininas — brilhantes, leves — e uma masculina que ela reconheceria até no escuro.
Luca.
Ela não pretendia ouvir. Só passar, pegar o café e sair. Mas o corpo travou quando a voz de Patrícia, doce demais, melodiosa demais, ecoou pelo corredor.
— Luca, você desaparece e depois surge do nada… — ela ria, tocando o braço dele com i********e exagerada. — Eu ainda estou esperando aquele jantar que você me prometeu.
Ele riu também. Um riso solto, fácil, quase bonito.
Um riso que Cacau não ouvia fazia tempo.
Ela ficou imóvel atrás da divisória de vidro. Não por querer — mas porque não conseguiu dar o passo seguinte.
— E aí? — insistiu Patrícia, mordendo o canudo do frappé. — Vamos sair essa semana?
— Talvez — Luca respondeu, com aquele sorriso torto que parecia feito para desmontar quem estivesse por perto. — Depende do que eu estiver fazendo.
— Ou de quem você estiver fazendo — Patrícia brincou, inclinando a cabeça.
Ele soltou uma risada curta, debochada.
— Ah, por favor. Você me conhece.
— Conheço — ela disse, dando um passo mais perto. — E conheço os boatos. Desde a explosão, falam que você e a Cacau…
O chão pareceu sumir.
Cacau prendeu o ar involuntariamente, como se tivesse levado um soco no diafragma.
Luca virou o rosto para Patrícia, e a risada veio novamente — dessa vez mais baixa, mais c***l sem intenção, como quem pisa em algo sem ver.
— Eu e a Cacau? Pelo amor de Deus, Patrícia. A gente trabalha junto. Só isso. Ela é… sei lá… certinha demais. Não faz meu tipo. Isso aí que falam não existe. Nunca existiu. Nem vai existir.
A última frase caiu direto no centro do peito dela.
Patrícia sorriu, satisfeita.
— Imaginei.
Luca balançou a cabeça, ainda achando graça.
— É invenção do pessoal. Isso não existe. Nem existiria.
Patrícia encostou a mão no braço dele — e ele não afastou.
Foi nesse instante que o golpe acertou Cacau por completo.
Patrícia riu, satisfeita, como quem vence sem esforço.
Luca não percebeu nada. Não percebeu o veneno acidental que soltou. Não percebeu como cada palavra dele atravessava alguém que ele juraria não ter atingido.
Cacau sentiu o corpo inteiro esvaziar.
Foi uma sensação física — real — como se o sangue tivesse descido todo para os pés.
Uma dor fina, afiada, subiu pela garganta, queimando.
O café na mão tremeu.
Ela piscou rápido — um piscar apenas — para impedir que a lágrima formasse borda.
O olho ardeu.
A respiração falhou por meio segundo.
Não choraria ali.
Não choraria por isso.
Não choraria por ele.
Mas o coração estava descompassado, doendo como se algo tivesse quebrado por dentro sem aviso.
Quando abriu os olhos novamente, Luca estava se afastando com Patrícia, ainda sorrindo, ainda leve. Os dois viraram o corredor e sumiram da vista.
Cacau ficou.
Sozinha.
No silêncio que sempre chega depois das p*******************m.
Ela engoliu o ar como quem engole um soluço.
Ajeitou o blazer com dedos trêmulos.
Ajeitou o cabelo, o rosto, a dignidade.
Cada gesto minúsculo pesava toneladas.
E então começou a caminhar de volta para a Sala de Operações — devagar no início, depois firme, até que a postura ficasse impecável de novo, até que ninguém pudesse imaginar o que tinha acabado de acontecer.
Mas a ferida… a ferida ficou aberta, quente, ardendo sob a pele como algo que ela não ousava chamar pelo nome.
Porque era exatamente isso: um ferimento invisível, e o pior de todos.