O Silêncio Entre Nós

1343 Palavras
O corredor da Guardian estava silencioso naquela manhã — silencioso demais para um dia agitado. As lâmpadas acima projetavam um brilho frio no piso polido, refletindo o cansaço acumulado de todos os últimos dias. Cacau caminhava rápida, a pasta apoiada na lateral do corpo, buscando manter a mente fixa no que precisava fazer. Qualquer coisa, menos pensar no que tinha ouvido na noite anterior. Chamou o elevador. O número digital acima da porta descia. 17… 12… 7… Ela respirou fundo. Quando as portas se abriram, o impacto foi imediato. Luca estava lá dentro. Ele a viu no mesmo instante — e a expressão dele mudou como se acendessem uma luz por dentro. O sorriso veio espontâneo, bonito, genuíno. Um sorriso que nunca era leve com ninguém… exceto com ela. — Bom d— Mas ele não terminou a frase. Porque Cacau não entrou. Não deu um passo. Não olhou duas vezes. Ela simplesmente girou nos calcanhares, suave, sem pressa — elegante até no afastamento — e caminhou para trás, como se tivesse esquecido algo, como se não o tivesse visto. Como se ele não existisse. Luca ficou parado, com a boca ainda entreaberta no meio de um cumprimento que nunca saiu. O sorriso morreu devagar, como se alguém tivesse apagado um brilho. Ele franziu o cenho, confuso. As portas se fecharam. O elevador subiu. E Luca continuou parado, encarando o reflexo da porta metálica como se esperasse que ela voltasse. Mas ela não voltou. A Sala de Operações já estava com três telas acesas quando Luca entrou. Cacau estava diante da mesa principal, de costas para ele, cabelo preso em um coque firme, postura impecável. Ela revisava planilhas com movimentos rápidos, precisos, sem hesitação. Luca se aproximou, esperando — esperando que ela olhasse por cima do ombro, como sempre fazia. Que dissesse “bom dia” com aquela suavidade discreta. Que desse a ele, mesmo sem saber, aquela sensação estranha e confortável de lar. Mas ela não virou. Nem um centímetro. — Bom dia. — Ele tentou. — Bom dia. — Ela respondeu sem desviar os olhos da tela. Frio. Polido. Indolor, mas distante. Ele estreitou os olhos. Algo estava errado. Muito errado. Decidiu ignorar por enquanto. Aproximou-se da tela ao lado dela e colocou os relatórios mais recentes de triangulação. — Cruza isso com os logs do setor oeste — disse ele, tentando iniciar uma conversa natural. — Pode ter algo útil. — Já fiz. Está na pasta 3. Resposta rápida. Técnica. Zero espaço para continuação. — Certo… — ele murmurou. Tentou de novo: — Dormiu alguma coisa? — O suficiente. Sem olhar. Sem pausa. Sem calor. Era como falar com uma parede muito bonita e muito eficiente — mas ainda assim uma parede. Luca sentiu um incômodo estranho subir pelo peito. Irritação ou… outra coisa? Não sabia. Não gostou de não saber. Sentou-se ao lado dela, intencionalmente perto. Ela se levantou. Sem uma palavra. Foi até a mesa de Lorenzo pedir outro arquivo que poderia ter pedido a Luca. Ele observou o movimento dela. O afastamento. A falta de troca. O silêncio que não era profissional — era pessoal. E isso doeu num lugar que ele não tinha nome para descrever. Horas se arrastaram assim. Eles trocaram informações técnicas, planilhas, rotas. Tudo absolutamente funcional. Mas não trocaram olhares. Cacau evitava ficar sozinha com ele. Se Lorenzo saía da sala, ela saía logo depois. Se ele se aproximava, ela dava dois passos para o lado. Não era teatral, não era agressivo — era sutil, elegante… e devastador. E Luca percebeu cada micro movimento. A irritação veio depois. Não porque ela o ignorava. Mas porque ele se importava. E isso o irritava ainda mais. Às duas da tarde, após horas de silêncio disciplinado, Lorenzo chamou Luca num canto da sala. Lorenzo o observou por alguns segundos, avaliando o jeito inquieto, a forma como ele olhava para Cacau quando ela não estava vendo, e como desviava quando ela percebia que ele estava ali. — Tá — disse Lorenzo, cruzando os braços. — Me diz: o que você fez dessa vez? Luca piscarou, indignado. — Eu? Nada. — Ah, claro — Lorenzo riu. — Porque a Cacau sempre trata você como se fosse radioativo, né? — Não. Quer dizer… sim. Não. — Luca passou a mão no rosto. — Ela só está ocupada. Lorenzo ergueu a sobrancelha. — Então ela está ocupada especificamente não olhando para você? Luca fechou a cara. — Você está enchendo o saco. — Estou. — Lorenzo deu um tapinha no ombro dele. — Porque você merece. Agora fala. O que aconteceu? — Nada! — Luca repetiu, mais alto do que gostaria. Lorenzo estreitou os olhos. — Luca… eu conheço essa cara. — Que cara? — A cara de quem fez besteira e só percebeu agora. Luca abriu a boca para retrucar, mas fechou. Porque… e se tivesse feito? Tentou puxar alguma lembrança recente. Uma conversa. Um comentário. Algo que tivesse dito. E então veio como uma sombra subindo pelo fundo da mente dele: Patrícia. A copa. O riso. O “certinha demais”. O “não faz meu tipo”. O estômago dele afundou. — m***a… — ele sussurrou. Lorenzo sorriu, amargo. — Pronto. Sabia. Luca esfregou o rosto, tenso, irritado, confuso — e, pela primeira vez, preocupado. Não com a empresa. Não com a investigação. Com ela. Com a forma como ela havia se afastado sem dizer uma palavra. Como não olhava mais para ele. Como havia recuado de sua presença como se ele fosse… isso. Um ferimento. Um incômodo. Uma decepção. Isso atingiu Luca num lugar que ele não estava preparado para sentir. Ele olhou para Cacau, que estava no outro lado da sala com Lorenzo pedindo novos dados — profissional, impecável, intocável. E sentiu algo que não reconhecia. Uma falta. Um vazio. Uma ausência que não fazia sentido. Ele pensou em como era antes: o olhar que ela lhe dava sem perceber, a parceria silenciosa, o gesto de preocupação, o abraço no subsolo, a confiança que vibrava entre os dois mesmo sem nome. E agora… Era como se ela tivesse desligado a luz sobre ele. E Luca, que sempre viveu no caos, que sempre foi bom em ser desejado sem desejar, que nunca precisou que alguém ficasse… …percebeu, pela primeira vez, que não queria que ela fosse embora. E isso o deixou irritado. Confuso. Aflito. Ele não sabia lidar com aquilo. — Lorenzo… — murmurou, a voz mais baixa que ele pretendia. — Eu… fiz m***a. O primo deu um meio sorriso. — Uhum. E agora tá doendo. Luca não respondeu. Mas estava. Estava doendo mais do que ele queria admitir. Mais do que fazia sentido. Porque perder a atenção de alguém nunca tinha sido um problema. Até ser a atenção dela. O turno avançou. As luzes mudaram de tom à medida que a noite se aproximava. Cacau continuou se movendo pela sala com eficiência quase c***l — mas nunca para perto dele. Luca tentou três vezes puxar uma conversa neutra. — Você analisou os pings de ontem? — Estão na pasta. — Quer que eu revise a segunda rota? — Não é necessário. — Cacau… — Sim? — Você… Ela o encarou rápido, cortando a frase no meio — o olhar breve, técnico, distante. Ele perdeu as palavras. Ela virou de costas. O silêncio entre eles não era profissional. Era um abismo. E Luca nunca odiou tanto o próprio eco. Ao final do dia, quando ela saiu da sala com um “boa noite” neutro demais, Luca ficou parado olhando a porta se fechar atrás dela. O peito pesado. A mente em turbilhão. Lorenzo passou ao lado dele e disse, muito baixo: — Resolve isso antes que piore, Luca. Ele queria responder algo. Qualquer coisa. Mas a verdade era simples e devastadora: Ele não sabia como. E então, pela primeira vez, Luca Bianchi sentiu algo que nunca havia sentido por ninguém. Falta. Falta dela. E o silêncio que ela deixava para trás doía mais que qualquer palavra que ele pudesse ter dito.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR