O Peso do Que Não Se Diz

1164 Palavras
A sala de reuniões estava vazia. Silenciosa. As persianas semicerradas filtravam a luz da manhã em tiras finas sobre a mesa de madeira escura. Cacau entrou ali para guardar algumas pastas quando ouviu a porta se abrindo atrás de si. Ela não precisou olhar para saber quem era. Luca. Ele fechou a porta devagar, quase com cuidado demais. O som seco ecoou no espaço vazio. — Cacau — chamou, a voz baixa, rouca de algo que parecia inquietação. — Podemos falar? Ela virou apenas o necessário, apoiando a pasta na mesa, o rosto sereno, a postura impecável. — Claro — respondeu, com aquela elegância que sempre vinha antes de qualquer emoção. Luca respirou fundo. Caminhou até ficar a poucos passos dela. Não perto o bastante para invadir — mas perto o bastante para sentir a distância. — Eu… — ele começou, sem o charme automático de sempre. — Eu fiz algo? A pergunta ficou suspensa entre eles. Cacau sustentou o olhar dele por um momento que pareceu muito longo — mas não o suficiente para que ele lesse qualquer verdade ali. Depois, com suavidade afiada, ela disse: — Está tudo bem, Luca. Era mentira. E era óbvio. E era dito com aquela classe que machucava mais do que qualquer confronto. Ele deu um passo em direção a ela. — Não, não está. — A voz dele saiu mais dura do que planejou. — Você não fala mais comigo. Não olha pra mim. Não… não sei. Você está diferente. Ela ajeitou o blazer com calma, como se arrumasse a própria armadura. — Temos muito trabalho. E você sabe que, nesses momentos, foco é essencial. Ele estreitou os olhos. — Isso não é foco, Cacau. — Isso é distância. Ela sustentou o olhar por mais um segundo e disse, num tom perfeitamente controlado: — Eu só estou fazendo meu trabalho, Luca. E ali estava a verdade silenciosa. Ela não o deixava entrar. Não dava um milímetro. Não reclamava, não acusava, não confrontava. Ela simplesmente o excluía. E isso, para Luca, doía infinitamente mais. Ele abriu a boca para insistir, mas ela desviou o rosto e virou-se para arrumar outra pasta. Um gesto pequeno. Polido. Mas que dizia tudo: Não quero continuar essa conversa. Não quero me expor. Não quero deixar você me machucar de novo. Luca sentiu o estômago afundar. — Tudo bem — disse, mesmo sabendo que não estava. — Se você diz. Ela apenas assentiu. Ele ficou parado por alguns segundos, olhando para as costas dela, tentando encontrar uma brecha. Uma só. Não havia. E isso o desmontou por dentro. Saiu da sala sentindo-se mais leve por fora… e mais devastado por dentro. Dois corredores depois, encostou-se à parede, fechou os olhos e puxou o ar devagar, tentando entender o que diabos estava acontecendo com ele. E então a memória veio, clara como um t**a. A copa. A risada. O sorriso da Patrícia. O canudo na boca. O perfume doce demais. As palavras ditas rápido demais, fácil demais. E a frase. “Ela é… sei lá… certinha demais. Não faz meu tipo.” O amargo voltou na boca. O peso no peito. A vergonha. “Isso aí que falam não existe. Nunca existiu. Nem vai existir.” Aquela frase, sim. Ele lembrava exatamente do som dela. Do gosto r**m que deixou na língua. De sentir o peito apertar no momento que disse. Do jeito que tinha saído como reflexo — impulsivo, e******o, automático — só para manter a paquera, só para alimentar um ego que há anos ele usava como muleta. E agora, pela primeira vez, aquela velha mania de flertar por esporte parecia não só i****a… Parecia infantil. Cruel. Baixa. Ele passou a mão no rosto, irritado. — c*****o… — sussurrou. Tinha dito m***a. Tinha dito m***a da grande. E Cacau tinha ouvido. Tudo fazia sentido agora. Era a única explicação. A porta do elevador. O silêncio. As respostas técnicas. A distância perfeitamente calculada. Ele fechou os olhos com força, como se isso pudesse desfazer as palavras ditas. Não podia. Luca chegou em casa tarde, mas não conseguiu entrar. Ficou parado no carro por longos minutos, as mãos no volante, a mente completamente ocupada por uma única imagem: O sorriso que ele tinha visto dela antes, tímido, quando ele agradeceu no hospital. O brilho rápido nos olhos dela. E então, a lembrança c***l da noite que destruiu tudo: O sorriso de Patrícia. A risada dele. O deboche. “Certinha demais.” Como ele pôde? Entrou no quarto. Pegou o celular, jogou no cama. Andou de um lado para o outro, inquieto, com raiva de si mesmo e… com medo. Medo de tê-la perdido. Medo de ter estragado algo que ele nem sabia que queria até começar a perder. Sentou-se no sofá e colocou o rosto nas mãos. E ali, no silêncio da própria casa, passou pela mente dele, um a um, todos os momentos desde a explosão: Ela segurando o braço dele no subsolo. Ela montando turno na cama do hospital. Ela protegendo Mateo. Ela filtrando crises, segurando a Guardian inteira nos ombros. Ela ao lado dele, sempre. Sempre. Cacau tinha sido a única pessoa que nunca esperou nada dele. Que nunca pediu nada. Que nunca cobrou. Que só esteve ali — inteira, presente, leal. E ele tinha destruído isso com meia dúzia de palavras vazias, ditas por ego, ditas por hábito, ditas porque era mais fácil flertar com alguém… do que admitir que se importava com outra pessoa. As horas passaram. A madrugada chegou. E Luca não dormiu. Deitou. Virou para o lado. Virou para o outro. Mas o rosto dela, o silêncio dela, os olhos dela desviando dos dele… Essas coisas não saíram da cabeça. Ele nunca se sentira tão sozinho. E nunca tinha se importado tanto com alguém que estava do outro lado da cidade ignorando-o com educação. Na manhã seguinte, chegou cedo à Guardian. Cacau já estava lá. Arrumando pastas. Organizando agendas. Impecável. Linda. Intocável. Ele parou na porta, respirou fundo e chamou: — Cacau. Ela demorou meio segundo a mais do que o normal para virar. Aquele segundo doeu mais do que tudo. — Luca. — A voz dela foi neutra, profissional. — Bom dia. Ele deu um passo à frente. — A gente pode conversar depois? Ela sorriu. Um sorriso pequeno, educado, perfeitamente polido. Um sorriso que não chegava aos olhos. — Temos um dia cheio. Depois veremos. “Depois veremos.” Que era o mesmo que dizer: Não hoje. Não agora. Não com você. Ela passou por ele com a postura ereta, elegante. Sem encostar. Sem olhar de novo. E Luca ficou ali. Sentindo um buraco no peito que ele não sabia colocar nome. Porque não era ciúme. Não era orgulho ferido. Não era raiva. Era algo pior. Era falta. A falta dela. O silêncio, pela primeira vez, doía mais do que qualquer palavra. E Luca percebeu — tarde, mas percebeu — que tinha aberto um abismo entre os dois… …e agora não sabia como atravessá-lo.
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