O Que a Chuva Não Consegue Levar

1199 Palavras
A chuva começou no início da noite, mas só ganhou força de verdade quando o último grupo deixou o prédio da Guardian. Grossa, pesada, violenta — do tipo que transformava as ruas em espelhos turvos e fazia o vento uivar entre as estruturas de concreto. Cacau ainda estava no décimo andar, sozinha, com a sala parcialmente iluminada pelo brilho branco das telas. Ela digitava com a precisão silenciosa de sempre, revisando relatórios e atualizando agendas para o dia seguinte. Qualquer coisa servia, contanto que mantivesse a mente ocupada. A chuva contra os vidros ajudava. Era barulho o suficiente para abafar pensamentos que insistiam em voltar. Doía menos trabalhar do que lembrar. Luca estava no estacionamento térreo, dentro do carro, prestes a ligar o motor. Estava exausto, irritado, com o corpo pesado e a cabeça tomada pelo mesmo turbilhão que o acompanhava desde a noite anterior. Quando olhou pelo retrovisor para sair da vaga, algo chamou sua atenção. Lá em cima, no prédio escuro, uma única sala ainda tinha luz. A sala dela. Ele deveria ir embora. Deixar quieto. Respeitar o espaço que ela claramente queria manter. Mas algo apertou dentro do peito dele — algo que não se desfazia, algo que doía. E, antes que percebesse, desligou o carro, saiu sob a chuva sem guarda-chuva e atravessou o estacionamento correndo. Subiu pelo elevador ensopado, com o cabelo grudado no rosto e a camisa colada ao corpo. Estava irritado. Molhado. Exausto. E decidido. Quando chegou ao décimo andar, a luz tênue da sala dela era a única viva no corredor escuro. Ele respirou fundo, passou a mão no cabelo molhado e entrou. Cacau levantou o olhar, surpresa — mas não exatamente. Parecia mais… resignada. — Você está ensopado. — murmurou, sem emoção. — A chuva está forte. Ele não respondeu. A porta fechou atrás dele com um clique suave. — O que você está fazendo aqui ainda? — Luca perguntou, a voz baixa, carregada. — Trabalhando. — Sozinha, nesse temporal? — Não vejo problema. Ele deu um passo à frente. — Você podia ter indo embora. — Podia. — ela disse, voltando o olhar para a tela. — Mas não fui. O silêncio entre eles ficou carregado. Denso. Tenso. Ele sentiu algo dentro dele estalar. — Cacau, a gente precisa conversar. — Luca… — ela balançou a cabeça com elegância — …não temos nada a conversar. Já conversamos o suficiente. Aquela frase doeu mais do que deveria. — Não. — Ele se aproximou mais. — A gente não conversou. Você só desviou, fugiu, me deu respostas neutras. Eu tô tentando entender. Ela fechou o arquivo. Salvou. Baixou a tampa do notebook com calma. — Não tem nada pra entender. — Tem sim — a voz dele subiu um tom, não em grito, mas em frustração. — Você não olha mais pra mim. Não fala comigo. Não fica nem no mesmo espaço. Você acha que eu não percebo? Ela inspirou lentamente, como quem pede força para não dizer o que realmente quer. — Luca, eu… realmente não acho que isso deva ser uma prioridade sua. — Mas é. — Ele se aproximou mais. — E você sabe que é. Ela finalmente levantou o rosto para ele. Os olhos dela estavam perfeitos — alinhados, firmes, quase frios. Mas havia dor ali. Ele viu. E isso o desmontou. — Eu fiz alguma coisa? — Luca insistiu. — Me fala, Cacau. Por favor. Ela sustentou o olhar dele por um segundo a mais — um segundo que queimou nos dois. Então respondeu, com a voz baixa, elegante e cheia de aço: — Não fez nada. Só disse exatamente o que queria dizer. Luca sentiu o coração apertar. — Como assim? Ela sorriu — um sorriso curto, triste, sem alegria. — Eu sou… como foi mesmo? — ela inclinou um pouco o rosto, com aquela ironia fina, letal — certinha demais. — Não faço seu tipo. As palavras ricochetearam no peito dele como um tiro. Ele abriu a boca, mas não saiu som nenhum. Ela não parou. — E, claro… — Cacau colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, mantendo a postura impecável — “isso aí que falam não existe. Nunca existiu. Nem vai existir”... Suas palavras. Não as minhas. Luca sentiu o sangue sumir do rosto. — Cacau… você ouviu? — Ouvi. — disse ela, simples, factual. — Não se preocupe. Prometo não interpretar errado. Você foi muito claro. Ela voltou a levantar a pasta, como se encerrasse a conversa. Mas ele não deixaria. — Espera. — Luca colocou a mão na mesa, a voz mais baixa, mais forte. — Não foi assim. — Não? — Ela levantou uma sobrancelha, sem perder a postura. — Porque pareceu exatamente assim. Ele deu um passo à frente, a respiração instável. — Eu falei m***a. Eu sei. Eu… eu não queria. Eu só… — Só estava flertando com outra mulher — completou ela, com elegância c***l. — Normal. Nada novo. Luca engoliu em seco. — Não é isso. Você sabe que não é. — Sei? — Ela deu um micro sorriso, seco. — O que eu sei é que você tem razão, Luca. Não faço o seu tipo e sou muito certinha. Jamais aceitaria me relacionar com um homem que não me respeita, que fala m*l de mim pelas costas e flerta com qualquer uma. Ele ficou em silêncio. Ela, pela primeira vez, deixou a máscara escorregar um milímetro. Um único milímetro. Os olhos dela vacilaram. O peito levantou num suspiro curto, que ela tentou esconder virando o rosto. Foi o bastante. O bastante para ele sentir o dano completo que havia causado. — Cacau… — ele disse, quase em súplica — eu não deveria ter dito nada daquilo. Eu estava sendo… — Egoísta. — completou ela. — E infantil. E inconsequente. E nada disso é novo com você, Luca. Ele fechou os olhos por um momento, sentindo a verdade bater como uma onda. Quando abriu, ela já estava recolhendo os próprios papéis. — Não deveria se incomodar comigo, Luca. — a voz dela saiu suave, mas cortante como lâmina. — Afinal, eu sou muito certinha. E… — ela olhou diretamente para ele, firme, devastadora — não faço seu tipo. Ele levou a mão ao rosto, o peito afundando. — Não fala assim. Ela respirou devagar. — Não entendo também… — disse ela, ajeitando a bolsa no ombro — como você sente falta do que… — pausa — nunca existiu. Nem vai existir. E essa foi a pior. Porque ela disse sem raiva. Sem drama. Sem lágrima. Disse como quem aceita a própria ferida e continua andando apesar dela. Luca ficou imóvel. O coração batendo tão alto que ele quase ouviu. Os dedos tremendo, a respiração presa. Ela passou por ele com passos tranquilos, elegantes. Abriu a porta. Parou na soleira apenas para completar: — Boa noite, Luca. E se foi. A porta se fechou atrás dela com um clique suave. Mas o som devastou ele por dentro. Luca levou as duas mãos ao rosto. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo que ele nunca tinha sentido por ninguém: Medo de ter perdido alguém que nem tinha percebido que precisava.
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