— Por que está fazendo essa cara?
Jay esticou-se pela mesa para agarrar uma das garrafas de bebidas dispostas sobre a mesa em que estavam, já havia perdido a conta do quanto havia bebido e mesmo que a festa ainda estivesse em seu começo, o Park já sentia-se um pouco tonto pelo álcool, porém nada que não pudesse ser facilmente disfarçado, Jay sempre fora muito bom em fingir sobriedade em eventos aos quais considerava como tediosos.
E para ele, qualquer evento que envolvesse família era tedioso.
— União familiar não é algo que combina comigo. — fora sincero ao responder, talvez uma das poucas frases sinceras que já dissera em vida — É, com certeza esse tipo de coisa não é para alguém com o sangue como o meu.
O ruivo bateu em seu ombro, forte demais na verdade, mas Ravi nunca se incomodava com aquilo.
— Deveríamos estar em um puteiro, é bem mais divertido do que isso. — a festa em si não estava chata, as pessoas conversavam e bebiam, a música tocava e vários ômegas rodopiavam no meio do salão da forma mais desengonçada possível, parecia que isso os divertia e também divertia os demais — Se quiser fugir eu o acompanho.
Mas o loiro negou com a cabeça.
Ele não iria a lugar nenhum, estar ali era uma oportunidade que não poderia ser desperdiçada. Podia observar todo o grande salão da casa, todas as suas saídas e entradas, podia capturar e guardar em sua mente os rostos dos que pareciam serem mais especiais e importantes dentro daquela família. Era como um prato cheio. E de quebra ainda tinha a oportunidade de ver Hakyeon mais de perto, observar como ele se portava, como agia com determinadas pessoas e até mesmo descobrir coisas das quais ele gostava.
O ômega Zhang gostava de dançar, parecia se divertir muito enquanto se balançava de um lado para o outro com seus primos e amigos. Seus longos cabelos permaneciam presos em uma trança, seus olhos verdes brilhavam com o reflexo das muitas velas e tochas a iluminar o local, ele certamente era apaixonado pelos sons que ouvia, sorria e gargalhava o tempo todo.
Era gentil demais, simpático demais, alegre demais com coisas pequenas.
— Você pelo menos ainda pode se distrair olhando para eles, mas eu nem isso. — o Park reclamara em algum momento, a bebida agora fazendo um pouco mais de efeito, Jay já deixava bastante claro que queria ficar completamente bêbado e ignorar todo o restante da comemoração ao qual viera por consideração — Todos são meus parentes, e os que não são, são empregados dos meus parentes.
— E desde quando você é decente assim?
— Não é sobre ser decente, é sobre meus tios serem cuidadosos com os que vivem sob o mesmo teto que eles. — reclamou, parecia ter raiva disso ou simplesmente achar que não passava de uma grande bobagem — Sabe aquele garoto... Jaehwan, é esse o nome, tentar comer ele seria o mesmo que tentar comer o Hakyeon, tia YooA mandaria arrancar meu p*u fora.
Jay falava sem parar quando bebia, o que não era muito diferente de quando ele estava sóbrio.
O loiro voltou seus olhos novamente para Hakyeon, o jovem ômega agora se afastava dos demais e seguia para outro cômodo da casa, Ravi não sabia para onde ele estava indo, mas pensaria em uma desculpa cabível pelo caminho.
— Eu vou mijar. — foi o que ele disse quando se levantou.
— Mijar? Mas você nem está bebendo! — o ruivo sacudiu a caneca ainda pela metade do outro — Aliás, por que você não está bebendo?
Mentir para Jay se tornara algo complicado com o passar dos anos, eles estavam sempre perto um do outro, o que resultava em o Park saber coisas demais sobre si, ou pelo menos, sobre quem ele queria aparentar ser. O ruivo sabia que Ravi adorava beber, especialmente quando se tratava das bebidas de boa qualidade servidas em festejos de famílias ricas.
— Estou sentindo dores no estômago. — fora a melhor desculpa para o momento, ele também havia comido muito pouco.
— Sabe que omma poderia ter resolvido isso, era só ter ido lá.
— Irei assim que tiver tempo.
Ravi detestava o fato de Jay ter sempre uma resposta para tudo, herdara isso de Minhyuk, que curava qualquer doença ou ferida que lhe apresentassem, já Jay dava as soluções dele.
Que nem sempre eram boas, mas ele sugeria.
Precisou se misturar em meio aos outros e aproveitar-se da embriagues da maioria para conseguir passar pela porta lateral sem que o vissem, mesmo sendo um convidado de honra da própria aniversariante, não tinha permissão para sair entrando onde bem entendesse, isso era considerado uma enorme falta de educação e era até mesmo ofensivo aos anfitriões.
Por sorte encontrara Hakyeon na cozinha, um local cheio de possibilidades para uma desculpa boa.
— Ravi. — o nome soou doce e simples aos lábios de Hakyeon, saindo com extrema facilidade. Comumente ômegas e até mesmo alguns alfas se referiam a ele como Senhor mediante sua posição e fama entre os soldados. Mas era óbvio que alguém como Zhang Hakyeon jamais o chamaria de Senhor, pelo contrário, Hakyeon que era o Senhor naquela conversa — Fico feliz que tenha vindo ao aniversário da minha omma.
Gentil demais, sorridente demais. Hakyeon aparentava estar nervoso, porém nada anormal da forma com que sempre agia quando estava perto dele, Ravi já há muito notara que o comportamento ansioso do menor implicava em seu inexplicável interesse nele, que de todos os modos o Zhang tentava abafar e não transparecer tanto. Era apenas isso que ele precisava, fazer com que o interesse de Hakyeon ficasse mais evidente e tão impossível de esconder que acabasse escapando por seus lábios.
Precisava que Hakyeon se apaixonasse ainda mais.
— Eu que fico feliz por estar aqui. — esboçara um sorriso pequeno e o mais doce que lhe era possível, aos poucos se deixaria mais acessível ao Zhang, esse era o momento certo, pois já em pouco tempo o mesmo se casaria, Ravi precisava agir em uma velocidade que os deixassem bem perto das datas mais importantes, tornando assim a briga ainda maior quando o noivado foi abruptamente desfeito. Tinha que pensar direito, não podia errar com Hakyeon uma única vez que fosse — Ah... eu estava procurando por água.
Mais cedo percebera que não havia água pelo salão, todas as bebidas continham álcool.
— Vou pegar para você.
O ômega buscou um copo de alumínio e encheu-o com a água de um dos grandes potes que haviam pela cozinha, o barro frio sempre deixava a água em uma temperatura agradável e era a melhor opção para armazená-la em casa. Entregou o mesmo nas mãos do loiro, que após beber lhe devolveu e o agradeceu com um sorriso gentil.
Hakyeon não estava acostumado a ver tantos sorrisos assim na face do espadachim, chegava a acreditar que ele estava bastante bêbado por abrir tantas expressões felizes. Não queria julgar Ravi como alguém frio, mas já estava acostumado com sua seriedade. Talvez fosse a ocasião, nunca o encontrara em festas antes.
— Tenho que voltar para a festa. — o ômega se pronunciou assim que guardou o copo de volta no lugar, se dera conta de que ficar muito tempo sozinho com o loiro não era bom, não queria gerar qualquer m*l entendido que fosse, muito menos quando havia tantos familiares por perto — Sinta-se à vontade em nossa casa.
— Obrigado.
Quando se virou, o Zhang soltou sua respiração e balançou levemente a cabeça. Não, não podia ficar perto dele, já tinha um compromisso e o honraria. Mas Ravi era tão bonito, isso admitia para si mesmo.
[... Herança dos Alfas ...]
Taekwoon costumava se despedir de Matthew de uma forma exagerada, quase sempre agia como se uma catástrofe fosse acontecer e ele não fosse mais voltar. O alfa costumava rir daquela situação, mas entendia que as preocupações do beta eram cheias de razão, ele sentia medo de perder a única família que ainda tinha e mesmo que muitas vezes agisse de uma maneira mais séria e fria, ele sentia muita falta do mais novo quando o mesmo não estava por perto.
Com Matthew as coisas costumavam ser sempre melhores.
— Estarei de volta em oito dias, você está agindo como se fosse a primeira vez que fico fora por esse tempo, já passei bem mais, já deveria estar acostumado.
— Não há como se acostumar com meu irmãozinho saindo por aí para arriscar o pescoço. — seu rosto repuxou em uma expressão de desconforto, agradecia pela boa vida que o emprego de Matthew lhes proporcionava, mas ao mesmo tempo desejava que ele não fosse fizesse parte daquilo.
— Não sou mais uma criança, inclusive sou bem maior que você.
Mas para Taekwoon isso não importava, nunca importaria, Matthew sempre iria ser seu irmãozinho e sempre ficaria preocupado quando ele partia para algum desses lugares ao qual nunca esteve antes, e ao qual não sabia o que esperar.
— Fica bem. — o alfa beijou o alto de sua testa antes de passar pelo pequeno portão da cerca na frente da casa onde viviam, virou-se para ele antes de subir no cavalo e partir definitivamente — Te amo.
E só ele seguiu caminho.
Às vezes Taekwoon desejava que seu irmão nunca se casasse, desejava que o tempo não mais os envelhecesse, desejava que tudo ficasse assim para sempre. Se perguntava se estava ou não atrapalhando a vida de Matthew, se deveria incentiva-lo a se unir a alguém e construir uma família, ter muitos filhos. Tinha medo de perde-lo, talvez isso o fizesse ser egoísta.
— Este é o seu alfa?
Ao se virar para responder a pergunta inesperada que surgira em suas costas, Taekwoon não esperava ver quem viu. Sua expressão se fechou de imediato e desejou ter alguma coisa em suas mãos para que pudesse atirar em quem estava ali.
O príncipe Hongbin se colocava acima do mundo ali sobre o lombo daquele cavalo, suas roupas caras cheiravam de longe a couro novo, sua espada de cabo dourado reluzia contra a luz do sol de uma maneira que chegava a ser estupidamente exibida.
— Isso não o interessa. — não tivera medo em soar m*l criado, não tinha medo dele, não se importava com quem ele era e não queria que ele se aproximasse.
Para Hongbin, Taekwoon soava como um grande desafio. Sorriu ladinho, ele era um beta difícil, e pessoas difíceis pareciam mais interessantes do que as outras.
— Só estava curioso pelo motivo ao qual me rejeitou daquela maneira.
O beta virou-se para ele, deu mais um passo na direção do pequeno portão ainda entreaberto, e que de todas as formas não impediam ninguém além dos cães de rua de passarem. Talvez impedisse Hongbin, afinal, o príncipe lhe parecia muito com um.
— Te rejeitei daquela maneira porque você é um i*****l. — olhou bem em seus olhos ao dizer aquilo em alto e bom som, queria que o Kim entendesse cada palavra, aquelas palavras poderiam ser a últimas que ele diria, mas preferiu não se importar — E se estiver aqui achando que palavras vagas e um sorrisinho amarelo vão me fazer mudar ideia e me fazer querer abrir as pernas pra você está muito enganado.
Direto, direto demais.
Hongbin desceu do cavalo, logo Taekwoon se deu conta de que a conversa não pararia por ali. Fixou-se no lugar onde estava, elevou o nariz, não abaixaria a cabeça para o moreno de jeito nenhum. Já o outro abriu o pequeno portão e passou por ele, mas optou por não se aproximar muito. As pessoas que passavam por aquela rua os observavam de longe, o beta falava alto e isso chamava uma certa atenção.
Olhou em volta e as pessoas procuravam por disfarça que estavam bisbilhotando.
— Poderia não falar tão alto?
— Estou na minha casa e falo na altura que eu quiser. — respondeu rudemente — Inclusive você está a invadindo, o único errado aqui é você, aliás, eu ainda não entendo o motivo de estar aqui.
— Eu só quero resolver as coisas entre nós. — tentou ser mais direto, relaxou os ombros e sorriu de forma simples, queria que Taekwoon se acalmasse e parasse de atirar pedras, os dois estavam discutindo sem que sequer tivessem um tema para aquela discussão — Creio que ainda há feridas abertas, o que eu fiz não se apaga apenas com um pedido de desculpas.
Em outras ocasiões se apagariam, mas Hongbin estava curioso demais quanto a Taekwoon para que simplesmente deixasse aquela história para lá. Ele queria o conhecer, estranhamente aquela ideia se fixara em sua mente e uma urgência insana de saber mais coisas sobre o beta passou a existir. O Kim culpava a mesmice de seu dia a dia por não saber ao certo o que deveria culpar.
Yuvin chamou isso de ego ferido procurando desculpas.
— Não confio em você, saia da minha casa.
Taekwoon apenas deu as costas e entrou fechando a porta, não iria confiar de jeito nenhum, Hongbin estava longe de ser alguém a quem deveria fechar os olhos quando se estava por perto. Suspirou e sacudiu-se meio irritado, queria que Matthew estivesse ali agora, quanto mais insuportável e egocêntrico um alfa é, mais rápido ele se afasta quando há outro alfa por perto. Nunca entendera isso, achava ridículo algumas regras e valores internos que os alfas tinham, mas vez ou outra isso acabava o ajudando.
[... Herança dos Alfas ...]
Matthew gostava de sua posição dentro do navio, ela lhe trazia uma grande responsabilidade, mas por outro lado o isentava de muitos outros serviços pesados aos quais eram desgastantes demais e preferia se manter longe. Aquela viagem era importante, aliás, muito importante, eles não só estavam experimentando um modelo novo e bem menor de embarcação, como também estavam partindo em busca de informações, há alguns dias boatos de um possível motim contra o Rei circulava pelas terras dos Lobos e isso era algo que precisava ser tratado com cautela, por isso enviariam apenas alguns poucos homens para saberem mais antes de tomar qualquer decisão.
O Jung conduziria a pequena embarcação, que por fora aparentava ser bem simples e não chamava muita atenção, mas por outro lado era rapidamente levada pelo vento e poderia chegar ao seu destino bem mais rápido, ouvira que havia sido projetada pelo rapaz Chae, o aprendiz de Siwon, O Construtor de Navios.
— Não deixe seu irmão o atrasar tanto da próxima vez. — fora a primeira coisa que ouviu assim que subiu a bordo, um velho senhor de cabelos esbranquiçados e ralos dissera, mas já estava devidamente acostumado com aquelas palavras — Deveria arrumar um marido para ele.
— Não é como se alguém pudesse decidir algo por Taekwoon.
Passaram então a se preparem para partir, mas algo logo intrigou o Jung, ao se dar conta de que entre os que estavam ali havia alguém que não esperava e que ao seu ver não deveria estar. Aproximou-se mais do senhor de cabelos brancos e olhou mais para uma vez para o rapaz para ter certeza de que ele não lhes prestava atenção.
— Por que um Wu irá conosco?
Mas o senhor também não sabia.
— Ninguém sabe, ele só apareceu. — o velho também olhou de relance para o rapaz — É melhor não nos metermos, os Wu podem ser considerados como uma boa família a se ter amizade, mas minha mãe sempre me dizia para não confiar nos ricos, por dentro sempre estão a se sentir superiores.
Matthew olhou o beta Wu mais uma vez, já o vira outras vezes, sempre era bom recordar os rostos das pessoas que carregavam brasões de famílias importantes e o escuto preto com duas espadas sobre o fundo dourado dava ao brasão de sua família de uma importância que chegava a ser assustadora. Os Wu eram a Guarda Real, a segunda família mais importante entre os Lobos, ficando abaixo apenas dos Kim, e inclusive já se uniam a eles por meio de casamentos, os Wu possuíam tantas ligações com famílias importantes e ricas que fazia Matthew duvidar de que seriam fieis ao Rei para sempre.
Balançou a cabeça, se dera conta de que já estava olhando para o rapaz há muito tempo.
— Ele é bonito. — deixou esperar entre seus lábios, sorte sua ninguém estar prestando atenção.