DEZENOVE: Escolho a Quem Desejar

2719 Palavras
— Podemos conversar? Taehyung era uma pessoa de muitas ocupações, assim como Matthew também era, por isso não costumavam se esbarrar, já haviam se passado muitos dias desde a ultima vez que o beta viu o Jung, e por mais que preferisse manter-se distante, haviam assuntos que precisavam ser discutidos, independente do Wu gostar ou não deles. — Estou te ouvindo. — Matthew optara por tratar Taehyung da mesma maneira que era tratado — Pode dizer, Wu. — Podemos conversar em um local sem tantos ouvidos? De certo que o porto estava sempre abarrotado de pessoas que iam e vinham, e todo assunto era assunto aos ouvidos de quem passasse, entendesse e espalhasse, eram assim que nasciam os boatos mais conhecidos, desde quando Wu Yifan espancou dois alfas quase os deixando mortos, e a notícia espalhou-se e cresceu até que dois se tornaram dez e o quase se tornou mortos. — É importante? — Do contrário eu não teria vindo te procurar. Largou seus afazeres — o que incluía traçar toda uma rota cansativa e cheia de paradas — para seguir Taehyung até a distância que o Wu achou segura para conversarem sem que outros ouvissem. Ele tinha razão em ter cuidado, seu pai tinha ouvidos em toda parte e qualquer um poderia levar informações para o Lorde que acabariam por desmanchar toda aquela farsa, onde um beta lutava para manter-se longe de prováveis casamentos com pessoas desagradáveis e tediosas. — Pode falar. — Appa quer que você nos acompanhe em uma viagem para o Norte, meu irmão vai se casar e toda a família deve estar presente, e como você é um navegante ele quer que vá conosco em nosso navio, ele quer ver como você guia um navio. Para Taehyung aquilo não poderia ser grande coisa, mas para alguém como Matthew, era quase como colocar uma coroa em sua cabeça e um cetro em suas mãos. — Lorde Wu vai me deixar guiar uma embarcação Wu? — parecia surreal demais — Devo admitir que é algo que eu nunca achei que fosse acontecer, sendo bem sincero. O alfa riu, chegava a ser cômico de tão impossível. Já o outro parecia impaciente, ansioso para terminar aquela conversa e seguir com suas outras atividades. Algo no Jung o incomodava, a forma com que falava e em como as coisas lhe pareciam grandiosas. Matthew cresceu em uma realidade diferença, alguém com o berço de ouro jamais entenderia isso. Taehyung cresceu em um mundo onde todos faziam suas vontades, onde baixavam a cabeça e abriam espaço para que passassem, um mundo onde o respeito já vinha incluso desde o nascimento, e não necessitava ser conquistado. — Você vai? — Eu nem sabia que era um convite, achei que fosse uma intimação. — por mais divertido que fosse o seu tom, ele estava falando a verdade — Claro que irei, não posso perder a chance de passar mais tempo ao seu lado, meu doce Taehyung. O beta quis soca-lo, não gostava de ser chamado de doce, não naquele tom, não por aquela pessoa. — Comporte-se, não se esqueça que isso não é real. — fazia questão de lembrar — Não nos gostamos e nem temos nada um com o outro. — Isso é uma escolha sua, por mim estaríamos em outro lugar fodendo. O Wu se afastou dois passos e deu as costas, não iria continuar aquela conversa: — Partiremos em dois dias.     [... Herança dos Alfas ...]     O sol estava a pino quando Hoseok saiu, ele não pestanejou, não brigou e nem encheu seu omma de protestos, simplesmente sorriu e agarrou a cesta muito bem preparada. Eram pães, mas pesados pelo recheio absurdo de carne, alfas comiam carne e apenas isso, carne em todo lugar, e por mais que a maioria dos ômegas visse isso como um exagero ridículo, preferiam não se importar desde que fossem os próprios alfas os responsáveis por sair e trazer a tal carne para dentro de casa. A ideia de que Hyungwon era um Choi agora se tornava cada vez mais palpável, Siwon fazia questão de inclui-lo em tudo, expor para todos que o rapaz era seu filho agora — legitimamente falando —, e além disso, havia outra coisa. Ele realmente se casaria, e a maior prova de que o alfa estava começando uma nova fase em sua vida estava agora bem diante de seus olhos. Siwon lhe comprara um grande terreno, com espaço suficiente para um casarão, estábulo e celeiro, certamente teria uma vida confortável vivendo ali, uma vida confortável para a família que construiria com outra pessoa. Uma pessoa que não era Hoseok. E por mais que não assumisse, isso o incomodava. — Bom dia, vovô. — o ômega cumprimentou o mais velho assim que se aproximou — Bom dia... Tio Hyungwon. Fora de longe a frase mais estranha que já disse. Hyungwon não era seu tio, nunca iria ser, mas o que poderia fazer agora? Não era como se tivesse poder para mudar a realidade. — Bom dia, querido. — seu avô também estava com a mesma expressão de quem havia estranhado aquele comportamento, mas preferia não fazer referência a isso — Como você está? — Eu estou bem, vovô. — seu sorriso não parecia verdadeiro — Omma me pediu pra trazer comida, vocês devem estar tendo um dia cheio com as construções e agora a casa, não vou atrapalhar mais, já estou indo. — Mas você não atrapalha, Hoseok. — Uma construção não é um bom lugar para um ômega ficar. — parecia piorar, a cada frase que dizia mais distante Hoseok ficava de quem ele sempre costumou ser — Há muitas coisas aqui que podem me machucar. — e pode até ser que não significasse nada, mas a forma como o Kim olhou diretamente para o rosto de Hyungwon naquele momento pareceu dizer muitas coisas. E o alfa sabia disso, sabia que havia algo mais. Por isso inventou uma desculpa qualquer para seguir Hoseok por um tempo e o puxar para uma ruazinha sem movimento. O Kim o olhou assustado, acuou-se na parede quase como um animal sem defesa. — Por que está me olhando assim? — Você vai me machucar? Talvez só agora se desse conta do quanto os braços de Hoseok ficaram vermelhos quando ele os puxou, havia usado muita força e era perfeitamente normal que qualquer ômega se assustasse ao ser puxado daquela forma. Mas Hoseok não era qualquer ômega. — Você sabe que eu nunca machucaria você. — acreditou dizer o óbvio — O que está acontecendo, Hoseok? Por que tantas mudanças? O ômega ficou em silêncio por alguns segundos, talvez ele próprio não soubesse a resposta. — Eu... não estava feliz sendo da forma quem eu era. — o mais baixo evitou contato visual, era melhor ser assim, olhar para Hyungwon naquele momento era difícil — É só isso. Mas o alfa não desistiu do que queria saber, havia se colocado novamente diante dos olhos de Hoseok e com as duas mãos o forçava a olhar para ele enquanto segurava seu queixo. Novamente o Kim pareceu assustado, aquilo era tão estranho, chegava a ser medonha aquela mudança repentina. — E está feliz agora? — Isso não importa, agora eu posso ter algo que eu não podia ter antes. — seus olhos pareciam marejados, estava se tornando cada vez mais nítido o quanto aquele momento estava sendo difícil para Hoseok — Sou aceito assim, as pessoas não me julgam mais, não implicam mais e agora posso finalmente entender o que eu sou, eu sou um ômega, um lobo ômega e isso já me basta. — Eu sempre te aceitei do jeito que você era. Mas aquilo só o deixou mais triste. — Esse é o problema, Hyungwon, você é bom. — parecia extraordinário, ele estava prestes a assumir algo que sempre achou que jamais diria — Seu coração é bom, você é uma pessoa boa e eu não mereço você. Não mereço nada que venha de você, eu só te fiz sofrer a vida inteira e te desprezei, por favor, Hyungwon, só me despreze agora e fique longe de mim, fique longe do meu egoísmo e das minhas atitudes erradas, pois quando está comigo você só sofre, e eu não quero mais que isso aconteça. O que mais ele poderia dizer? Havia sido pego em um momento inoportuno, ouvido algo que não esperava ouvir nem em um milhão de anos. As mãos de Hoseok tremiam e ele estava claramente abalado. Por que as coisas mudariam agora? Se o desprezara a vida toda, por que não queria mais isso? Sempre ouvira que mudanças eram causadas por grandes acontecimentos, ou por grandes traumas. — Eu não queria que fosse assim. — Não vou pedir para que me perdoe. — fora a vez de Hoseok colocar as mãos sobre o rosto do alfa — Não mereço ser perdoado, mas espero que um dia possamos viver em paz, afinal, você é meu tio agora. Ficara tão perdido com as palavras que não soube o que fazer ou dizer quando o ômega se afastou e retomou o caminho antes seguido. As coisas passaram a perder parte do sentido e pela primeira vez em toda sua vida Hyungwon sentiu que o mundo estava de cabeça para baixo.     [... Herança dos Alfas ...]     — E como você escapou? As crianças se aglomeravam ao redor dele, elas eram numerosas, chegava a arriscar que logo formariam uma centena. Aquele era um segredo de Ravi, não noticiava a ninguém quando se afastava de seus afazeres para realizar tal visita e ter um momento com aqueles que já ninguém se importava. — Eu mordi a perna de um deles, ele se desequilibrou e caiu bem a tempo e eu pegar sua espada e ferir os outros, depois disso só me restava encontrar um cavalo rápido e voltar para casa. Elas gostavam de ouvir suas histórias e nunca questionavam serem verdades ou não. Ninguém dava atenção aos órfãos, o abrigo só servia de morada e nada mais do que isso, um lugar onde as crianças sem lar podiam ficar “protegidas” à noite. A comida mandada para lá nem sempre era suficiente e sequer era saborosa, as camas não eram muito confortáveis, se resumiam em trapos no chão onde 3 dividiam o que deveria ser para um, havia água que nem sempre era limpa e roupas que sempre eram velhas. E isso era o máximo que podiam receber. Ravi sempre as visitava, suas visitas eram sempre muito esperadas. Ele sabia como era se sentir um “nada”, sabia como era viver sendo visto como alguém sem nenhum valor, e ele não queria que aquelas crianças se sentissem assim, elas não mereciam aquilo e nem tinham culpa de serem obrigadas a viver aquela vida. — Eu queria ser como você! — um dos garotos, pequeno e sujo demais para conseguir distinguir sua casta, falou mais alto que os outros naquela hora. Ele estava muito perto, sentado próximo aos pés do loiro. — Não há nada que te impeça de ser. — Mas eu sou órfão, não tenho uma Casa para servir. — era notável o quanto seus olhos estavam tristes, Ravi sabia muito bem como era aquilo. Sem sobrenome, sem direitos, sem nada. — Eu também não tenho, nunca tive e nunca terei, mas isso não me fez desistir. — era com orgulho que o loiro exibia o brasão n***o com o lobo branco estampado em seu peito — Sirvo aos Lobos, porque sou um Lobo assim como você também é, assim como todos vocês são.  Ele se sentia estranho, aquelas palavras pareciam ter peso dentro dele, seus olhos lacrimejaram e por um momento Ravi sentiu que poderia chorar. Não era fácil se ver naquela situação, e por mais que tivesse sido criado para cumprir um objetivo ruim... Ele não era uma pessoa r**m. Ravi amava aquelas crianças e queria o melhor para elas, queria dar algo que mais ninguém poderia... Esperança! Queria que todos pudessem sair dali sem depender de terceiros, que se erguessem e criassem forças por elas mesmas, e assim passarem a viver sem a perspectiva de que morreriam cedo. — Ravi, você é o meu herói! — o garotinho disse enquanto o abraçava — Quando eu crescer quero ser como você! Seu coração ficou quente como nunca antes esteve. Já era noite quando se despediu e deixou o local. Quando avistou Jay próximo ali agradeceu pelo o ruivo não lhe fazer perguntas sobre onde estava. Mas pela expressão alheia imaginou que o Park já tivesse seus próprios problemas para resolver. Jay estava em um outro mundo. — Sua cara de peixe morto parece pior hoje. — o loiro comentou, acreditava que a piadinha sem graça fosse mudar o clima — O que houve? O ruivo o olhou derrotado. — Meu casamento é o que houve. — essa era sempre sua principal reclamação — Dean está a caminho, vamos nos casar em 6 ou 7 dias, logo depois do casamento do irmão dele com o Hakyeon. Jay não sabia o quanto aquela notícia abalava Ravi também. — Então já tem uma data? — Sim. — o cavalo deu dois passos para trás, estava tão inquieto quanto o dono — Vou pra casa, não posso beber e nem dormir com ninguém, olha só, sou um noivo fiel! E fora com essa frase irônica que Jay mudou seu rumo, era bastante claro o quanto não estava nenhum pouco animado para se unir para sempre com uma única mais, e a animação cortava pela metade quando essa pessoa se tratava de Dean, seu noivo ardiloso e de língua afiada. Um ômega esperto, diria Ravi. O loiro optou pelo mesmo, não tinha motivos para beber naquela noite, ainda mais estando sozinho. sua cabeça estava pesada, estava com menos tempo agora, Hakyeon se casaria em poucos dias, um casamento que ele precisava impedir a todo custo. Mas havia algo que o incomodava ainda mais, aquela história estava o enlouquecendo, e mesmo sem entender o motivo, ardia de ciúmes da ideia de que o Zhang pudesse pertencer a outro. Hakyeon deveria ser só seu. Estranhou ao ver que a porta de sua casa estava aberta, aquilo não era de acontecer. Ravi vivia em uma casa confortável, dava-se certos luxos, todavia, ficava em uma zona um pouco mais perigosa — quem venderia seu chão a um bastardo de sangue ralo? —, algo assim aconteceria em algum momento, deveria estar preparado. Mas a casa não estava revirada, o que encontrou ali o surpreendeu. — Hakyeon? — o ômega estava parado próximo a uma mesa, provavelmente admirava o que havia ali por cima, algo parecido com uma bacia de ouro — Como entrou? Olhou em redor, por um segundo achou ser uma armadilha, mas Hakyeon não faria algo assim com ele. O ômega sorriu e se aproximou, segurou em seus dois braços com uma força que nunca usara antes, uma vez ouvira dizer que ômegas lúpus eram muito fortes, mas que escondiam essa força para não prejudicar a fama de sua delicadeza, talvez fosse verdade. — Um ômega também tem seus truques. — ele disse — Eu precisava ver você, pelo menos, uma ultima vez. — Última? — Vou me casar, Ravi, e é provável que meu marido não concorde com nossas aulas, alfas são ciumentos, você sabe disso melhor do que eu. — era triste admitir que viveria sob as ordens de um — Preciso preparar tudo, serão dias bem corridos, por isso eu... eu vim ver você, precisava me despedir. — Eu não quero me despedir... O abraçou, fora um ato inconsciente, sentiu-se apavorado com aquilo de uma forma que não esperava se sentir. Ravi temeu perder Hakyeon, e naquele segundo já não lembrava mais de seu motivo inicial. — Eu também não, mas... — o ômega, sentindo-se desprovido de palavras o beijou, o beijou de um jeito desesperado, naquele segundo desejou fugir do mundo por completo, ficar ali pra sempre — Eu só quero ser... Ravi, me faça ser seu. — Nós não... — Eu não ligo! — ele o interrompeu — É o que eu quero e eu tenho o direito de escolher isso, não sou um prostituto para me entregarem a alguém que nem conheço, eu conheço você e é com você que eu quero isso!
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