Rose Moreau
A noite chegou e eu estou parada diante do espelho do meu quarto há tempo demais.
Não sei exatamente quanto tempo já passou, mas parece que estou olhando para o meu próprio reflexo há uma eternidade, tentando encontrar alguma resposta ali.
Algo que me diga o que fazer.
Algo que me diga como agir.
Mas não há resposta alguma.
Eu já tomei banho. A minha pele ainda carrega o cheiro suave do sabonete e do perfume leve que sempre uso depois. Estou apenas de roupão agora, com os cabelos molhados caindo pelos ombros e pingando pequenas gotas de água no tecido branco. As minhas mãos estão apoiadas na penteadeira enquanto observo o meu rosto que está pálido e... cansado.
Os olhos ainda estão um pouco inchados de tanto chorar nos últimos dias.
Hoje é o jantar.
O jantar com Dominik.
O meu estômago se aperta novamente só de pensar nisso.
Eu não faço ideia de como devo me arrumar e a verdade é que nem quero. Não quero impressionar um homem mais velho que foi marido da minha irmã. Isso nem passa pela minha cabeça. A ideia é absurda demais.
Mas também sei que aparecer de qualquer jeito só vai piorar tudo.
Minha mãe faria um escândalo e o meu pai ficaria decepcionado. E Dominik… bem, eu nem sei o que ele pensaria e ele poderá fazer algo comigo depois.
Eu solto um suspiro pesado e desvio o olhar do espelho por um instante.
A casa está estranhamente silenciosa, provavelmente os empregados já estão terminando de organizar a mesa do jantar lá embaixo. Provavelmente minha mãe já está pronta e provavelmente meu pai também. Mas, eu continuo aqui... parada e sem saber o que fazer.
Os minutos passam.
Eu volto a olhar para o espelho e a minha garganta aperta de repente. Uma vontade enorme de chorar surge dentro de mim, mas eu respiro fundo.
Não.
Eu já chorei demais.
Ainda assim, eu abro a boca para falar...
— Me desculpa, Dayse… — As palavras escapam antes que eu consiga pensar melhor. — Eu não quero isso… juro que não quero. — Os meus olhos se enchem de lágrimas. — Eu não sei o que fazer…
A minha respiração fica mais pesada.
Eu não sei como eu vou fazer isso.
— Por que você tinha que morrer?
As lágrimas escorrem antes que eu consiga impedir. Eu as enxugo rapidamente com as costas da mão, tentando me recompor, mas mäl tenho tempo de respirar direito quando ouço passos no corredor.
O meu coração dispara e logo em seguida, batidas na porta. Eu nem chego a responder, porque a porta se abre bruscamente.
A minha mãe entra no quarto com passos firmes, segurando um pacote nas mãos e o olhar dela se fixa em mim imediatamente.
— Você ainda não se arrumou? — Ela pergunta, irritada.
Os olhos dela percorrem o meu corpo.
— O que estava fazendo esse tempo todo?
Eu engulo em seco.
Ela franze a testa ao notar os meus cabelos.
— E esse cabelo ainda molhado? — A voz dela sobe um pouco. — Quer criar uma cena hoje, Rose? Mas que drogä!
— Desculpa, mãe… — Eu digo rapidamente. — Eu só não soube como me arrumar e…
— Você nunca sabe de nada! — Ela me interrompe.
Ela joga o pacote sobre a cama.
— Reaja, garota! Levanta essa cabeça, se ajeita... não é mais criança! — Minha mãe cruza os braços. — Anda, vista isso. — Ela aponta para o pacote. — E não demore.
Eu apenas aceno com a cabeça, sentindo as minhas mãos tremerem.
— Sim, mãe.
Ela não espera mais nada.
Pego uma toalha e coloco sobre a cabeça, tentando secar os fios molhados rapidamente. Mas antes que eu consiga fazer muita coisa, outra pessoa entra no quarto.
É uma das mulheres que trabalha na casa.
Minha mãe olha para ela e inclina a cabeça na minha direção.
— Dê um jeito nela. Veja se consegue melhorar esse estado de palidez e doença que ela parece ter.
Eu fico em silêncio.
Minha mãe já está saindo do quarto quando vira o rosto uma última vez. O olhar dela é duro. Depois ela simplesmente sai pisando forte no chão com o salto e a porta se fecha.
Eu solto o ar lentamente.
É sempre assim. Sempre. Tudo parece irritá-la, quer dizer, tudo parece errado quando se trata de mim. Só a Dayse conseguia fazer minha mãe sorrir de verdade. Só a Dayse conseguia fazer ela agir como uma mãe de verdade.
Eu nunca consegui isso.
Tudo que tenho tentado fazer há anos é evitar irritá-la, mas nunca adianta.
A mulher atrás de mim começa a secar os meus cabelos com cuidado. O som do secador preenche o silêncio do quarto enquanto ela passa a escova pelos fios úmidos e eu continuo olhando para o espelho. O meu reflexo parece... distante.
Ela trabalha com rapidez e habilidade, logo meus cabelos estão secos. Depois ela começa a modelar os fios, criando uma escova suave que deixa o cabelo cair de forma elegante sobre meus ombros e o penteado começa. Os minutos passam aqui e eu noto a pressa dela.
Em seguida vem a maquiagem.
Ela aplica tudo com delicadeza, usando cada item como se ela conhecesse tudo. Base, pó, blush, tudo. Sombra discreta nos olhos, máscara nos cílios e um batom na boca. Quando termina, eu quase não reconheço a garota no espelho.
Parece alguém mais... adulta. Mais segura. Mas eu não me sinto assim. Eu me sinto péssima, nervosa e com um medo imenso pulsando dentro do meu peit0.
Eu queria sair correndo daqui. Queria desaparecer. Ou pelo menos fazer o tempo parar.
Mas parece que ele está voando.
Quando tudo termina, a mulher se afasta.
— Pronto, senhorita! — Ela diz com um pequeno sorriso.
Eu me levanto devagar, agradeço a ela e então olho para o pacote sobre a cama. Abro com cuidado e é um vestido que minha mãe trouxe. Ele é de um vermelho vinho profundo.
Longo. Elegante.
O tecido parece caro e pesado. O decote é mediano, nada exagerado, mas suficiente para deixar o colo à mostra. Eu tiro o roupão e coloco o vestido. Quando o fecho desliza pelas minhas costas, percebo algo imediatamente.
Ele é exatamente do meu tamanho, como se tivesse sido feito para mim.
O tecido abraça a minha cintura e destaca as minhas curvas de uma forma que eu não estou acostumada. Eu me viro lentamente diante do espelho e uma garota bonita me encara. Uma mulher quase feita, mas isso não me deixa feliz.
Nem um pouco.
Eu caminho até a pequena caixa de joias sobre a penteadeira, escolho um par de brincos pequenos de ouro e são discretos e elegantes. Depois calço um salto fino e alto que deixa minha postura ainda mais ereta e por fim, pego o perfume e aplico um pouco no pescoço.
A mulher atrás de mim sorri.
— Você está linda.
Eu apenas aceno levemente.
Volto a olhar para o espelho, dou uma meia volta e observo cada detalhe.
O vestido. O cabelo. A maquiagem.
Meu coração começa a bater mais rápido, um frio intenso percorre a minha barriga e ela se revira como se algo estivesse errado dentro de mim.
Então ouço batidas na porta.
— Entre! — Digo.
A porta se abre lentamente.
Meu pai aparece.
— Rose, você está pronta?
Mas ele nem espera resposta.
Os olhos dele percorrem o meu corpo e um sorriso aparece em seu rosto.
— Nossa… — Ele diz. — Você está linda, filha.
Ele está usando um terno elegante.
Escuro, impecável e está todo perfumado.
— Obrigada, pai. — Respondo.
Ele se aproxima um pouco mais.
— Relaxa... — Ele diz em voz baixa. — Vai ficar tudo bem.
Ele coloca uma mão leve no meu ombro.
— Você vai ver.
Eu apenas aceno.
Nesse momento, minha mãe aparece atrás dele e ela entra no quarto com os braços cruzados.
— Temos que descer. — Diz. — Ele chegou.
Meu coração dispara.
— Já está pronta?
Meu pai se vira para ela antes que eu responda.
— Não está vendo, Inês? Ela está linda... melhore esse seu jeito, por favor. Eu não vou falar outra vez...
Minha mãe me observa por alguns segundos, mas não diz nada. Ela simplesmente dá meia volta e sai do quarto. Meu pai faz um gesto para que eu vá atrás e eu engulo em seco.
Isso está acontecendo.
De verdade.
Saímos do quarto, os meus pais começam a descer as escadas na frente e eu sigo atrás deles. Cada passo parece pesado demais. Quando estou quase chegando ao final da escada, o meu olhar se move automaticamente para a porta da sala.
As minhas mãos começam a suar frio.
A porta se abre e ele aparece.
Dominik Copello.
Alto. Forte. Elegante. Vestido com um terno escuro perfeitamente ajustado ao corpo. Os ombros largos. A postura firme.
O rosto sério e... frio.
A presença dele parece preencher todo o ambiente e por um instante… eu sinto medo de verdade. Um pensamento atravessa a minha mente com força de: eu não consigo fazer isso.