Capítulo 8

1405 Palavras
Se alguém me perguntasse naquela manhã o que eu queria para o resto do dia, a resposta seria simples: normalidade. Nada de janelas acesas fora de hora. Nada de olhares silenciosos. Nada de vizinhos misteriosos que aparecem e desaparecem como se não pertencessem ao mesmo mundo que o meu. Apenas… um dia comum. Acordei um pouco mais cedo do que de costume, talvez porque meu corpo estivesse tentando se ajustar a uma rotina mais… estável. Ou talvez porque minha mente estivesse cansada de girar em torno de perguntas sem respostas. Levantei-me com um suspiro leve, alongando os braços acima da cabeça antes de caminhar até o banheiro. Olhei meu reflexo no espelho por alguns segundos. Olheiras leves. Cabelos bagunçados. Um olhar… inquieto demais para alguém que dizia querer paz. — Hoje não — murmurei para mim mesma. — Hoje você vai focar em outra coisa. E pela primeira vez desde que me mudei para aquela casa, tomei uma decisão firme: Eu não ia olhar pela janela ao acordar. Simples assim. Parece pouco, mas não era. Era quase como lutar contra um hábito que eu nem percebi que estava criando. Afastei-me do espelho, fiz minha rotina matinal com calma, lavei o rosto, escovei os dentes, passei um hidratante leve (torcendo para não irritar minha pele como alguns já tinham feito antes), e comecei a me arrumar para a faculdade. Escolhi um look simples, mas bonito: calça jeans clara, uma blusa branca de tecido leve e um casaco bege por cima. Nos pés, meu tênis confortável de sempre. Na maquiagem, mantive o básico: corretivo, rímel e um gloss suave. Nada exagerado. Nada que chamasse atenção. Hoje eu queria me sentir… normal. Prendi o cabelo em um coque baixo, deixando algumas mechas soltas para dar leveza ao rosto. Peguei minha bolsa, conferi meus cadernos, e, antes de sair do quarto… Parei. Meus olhos se moveram sozinhos na direção da janela. Suspirei. — Não, Helena. Virei o rosto rapidamente e saí do quarto antes que minha curiosidade vencesse mais uma vez. Desci as escadas, preparei um café rápido e comi uma torrada com manteiga. O silêncio da casa ainda era reconfortante. Mas agora ele não parecia vazio. Parecia… cheio de pensamentos que eu estava tentando ignorar. Saí de casa alguns minutos depois, trancando a porta atrás de mim com cuidado. E, mesmo sem querer… Meus olhos desviaram para a casa ao lado. A casa estava… normal. Sem luz. Sem movimento. Sem sinais de vida. Como se tudo o que eu tinha visto nos últimos dias fosse apenas fruto da minha imaginação. Mas eu sabia que não era. Ajustei a alça da bolsa no ombro e comecei a caminhar em direção à faculdade. — Foco — murmurei baixinho. E dessa vez, eu realmente tentei. *** A universidade estava mais movimentada do que o normal naquela manhã. Grupos de alunos conversavam pelos corredores, alguns riam alto demais, outros corriam atrasados, e havia aquele barulho constante de vozes que, de certa forma, me trouxe de volta à realidade. Ali, tudo fazia sentido. Ali, as coisas eram previsíveis. Entrei na sala alguns minutos antes da aula começar e me sentei no meu lugar habitual. — Bom dia! — ouvi uma voz animada ao meu lado. Virei o rosto e encontrei Marta, com seu sorriso fácil e energia contagiante. — Bom dia — respondi, sorrindo de volta. — Você sumiu ontem depois da aula — ela comentou, apoiando o queixo na mão. — Fomos tomar um café e você não apareceu. Por um segundo, hesitei. A verdade passou pela minha mente: Eu estava observando meu vizinho estranho e seguindo ele até uma loja de antiguidades. Mas, claro, não disse isso. — Eu estava cansada — respondi, dando de ombros. — Decidi ir direto para casa. Ela estreitou os olhos, desconfiada, mas logo sorriu novamente. — Hoje você vai com a gente, né? Sem desculpas. Sorri. — Hoje eu vou. E, pela primeira vez, aquilo não pareceu uma promessa vazia. A aula começou logo depois, e eu mergulhei nela como se fosse minha tábua de salvação. Anotei tudo. Prestei atenção em cada explicação. Participei quando o professor fez perguntas. Era quase como se eu estivesse tentando provar algo… para mim mesma. Que eu conseguia ter uma vida normal. Que eu não precisava me perder naquele mistério. Que Adrian… Não precisava ocupar tanto espaço na minha mente. E, por algumas horas, funcionou. Funcionou muito bem. Eu ri com Marta e as outras meninas no intervalo. Falei sobre assuntos comuns. Esqueci, por alguns minutos, completamente da casa ao lado. Mas, como tudo que tenta ser ignorado… Ele voltou. Não de forma direta. Não com uma presença física. Mas com uma sensação. Uma lembrança. Um detalhe que insistia em não desaparecer. — Helena? — Marta chamou, estalando os dedos na minha frente. Pisquei algumas vezes. — Hm? — Você tá viajando — ela riu. — Onde você foi agora? Forcei um sorriso. — Em lugar nenhum. Só… distraí. Ela me observou por um segundo a mais, como se quisesse perguntar algo, mas acabou deixando para lá. — A gente vai sair depois da última aula — disse ela. — Topa? Pensei por um instante. Voltar para casa significava… A janela. A luz. A possibilidade de vê-lo novamente. Mas também significava continuar alimentando aquela obsessão silenciosa. — Eu topo — respondi. E dessa vez, foi uma escolha consciente. --- O fim da tarde chegou rápido. Fomos para um café próximo da universidade, rindo, conversando, compartilhando histórias simples e banais — exatamente o tipo de coisa que eu precisava. Por um tempo, me senti leve. Realmente leve. Como se o mundo não tivesse mistérios escondidos atrás de janelas acesas. Como se tudo fosse apenas… normal. Mas a noite sempre chega. E com ela, as coisas mudam. Quando finalmente voltei para casa, o céu já estava escuro, tingido de azul profundo. Despedimo-nos na esquina, e caminhei sozinha até minha porta. Cada passo parecia mais lento. Mais pesado. Como se meu corpo soubesse o que minha mente tentava evitar. Parei em frente à casa. Respirei fundo. E, antes mesmo de entrar… Olhei. A luz estava acesa. No último andar. Como sempre. Mas desta vez… Algo estava diferente. Ela não acendeu devagar. Não apareceu como um hábito previsível. Ela já estava lá. Forte. Intensa. Como se estivesse esperando. Meu coração acelerou. Tentei ignorar. Tentei entrar em casa. Mas meus pés não se moveram. Foi então que percebi algo que fez minha respiração falhar. Havia uma sombra. Movendo-se lentamente atrás da cortina. Mas não era apenas movimento. Era… presença. Parada. Como se estivesse olhando para fora. Como se estivesse… Olhando para mim. Meu corpo inteiro ficou tenso. E, naquele momento, todo o esforço que fiz durante o dia — toda a tentativa de normalidade — começou a desmoronar. Porque não importava o quanto eu tentasse ignorar. Não importava o quanto eu me distraísse. A verdade era simples. Eu já estava envolvida demais. Desviei o olhar rapidamente, o coração batendo forte demais no peito, e entrei em casa quase sem pensar. Fechei a porta atrás de mim e me encostei nela por alguns segundos. Respirei fundo. Uma vez. Duas. Três. Mas não adiantava. A sensação ainda estava ali. A certeza. De que, de alguma forma… Ele sabia. Sabia que eu estava ali. Sabia que eu observava. Sabia que eu tentava fingir que não me importava. E, talvez… Ele também estivesse esperando. Caminhei lentamente até a sala, tentando recuperar o controle. — Isso está ficando estranho demais — murmurei. Mas, no fundo, eu sabia. O estranho já tinha deixado de ser apenas estranho. Estava se tornando… inevitável. Subi para o quarto, larguei a bolsa na cama e, contra toda a lógica, me aproximei da janela. Devagar. Como se cada passo fosse uma decisão. Afastei a cortina apenas o suficiente. E olhei. A luz ainda estava lá. E a sombra… Também. Mas desta vez, não se movia. Estava completamente parada. Como se estivesse me esperando olhar. Um arrepio percorreu minha espinha. E, pela primeira vez, uma ideia clara surgiu na minha mente. Talvez… Ele não fosse o único observando. Talvez… eu também estivesse sendo observada o tempo todo. Soltei a cortina rapidamente, o coração acelerado demais para ignorar. E, naquela noite, enquanto me deitava tentando fingir que tudo estava sob controle… Eu soube. A tentativa de normalidade tinha falhado. E, mesmo tentando focar na faculdade, nas amizades, na minha própria vida… Adrian Vasconcelos ainda me deixava curiosa.
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