Capítulo 9

1272 Palavras
Eu não consegui dormir direito naquela noite. Não era exatamente medo. Também não era apenas curiosidade. Era algo no meio disso tudo, uma inquietação constante, como se meu corpo soubesse que algo estava prestes a acontecer, mesmo que minha mente ainda não tivesse compreendido completamente. Virei de um lado para o outro na cama várias vezes, olhando para o teto, tentando me convencer de que precisava descansar. Mas cada vez que fechava os olhos… Via a sombra na janela. Parada. Imóvel. Esperando. Suspirei fundo e me sentei na cama, abraçando as próprias pernas. — Isso já está ficando ridículo, Helena… — murmurei. Levantei-me e caminhei até a janela. Por um instante, hesitei. Minha mão ficou suspensa no ar, próxima à cortina. Parte de mim queria abrir. Outra parte… não. Mas, como sempre, a curiosidade venceu. Afastei a cortina lentamente. A casa ao lado estava escura. Completamente escura. A luz do último andar, pela primeira vez desde que me mudei, não estava acesa. Meu coração apertou de um jeito estranho. Era isso que eu queria, não era? Normalidade. Silêncio. Ausência de mistério. Então por que aquilo me incomodava tanto? Fiquei alguns segundos observando, tentando encontrar qualquer movimento, qualquer sinal… Nada. Suspirei e fechei a cortina. Voltei para a cama, mas o sono continuou distante. E, de alguma forma, eu sabia… Algo tinha mudado. *** A manhã chegou arrastada. Levantei-me com dificuldade, ainda presa à sensação estranha da noite anterior. A ausência da luz… Era mais inquietante do que a presença dela. Fiz minha rotina em silêncio, tentando não pensar demais. Hoje eu precisava sair mais cedo, então me arrumei rapidamente: calça jeans escura, uma blusa de manga longa azul clara e um casaco leve. A maquiagem, como sempre, básica. Olhei para mim no espelho e respirei fundo. — Só mais um dia normal — murmurei. Peguei minha bolsa e desci as escadas. Mas, antes de sair… Parei. Meus olhos foram automaticamente para a janela. — Não — sussurrei. Mas já era tarde. Eu precisava ver. Caminhei até a porta, abri-a lentamente e saí para a calçada. O ar da manhã estava fresco, quase frio. Olhei para a casa ao lado. E congelei. O portão estava aberto. Nunca tinha visto aquilo antes. Nunca. Meu coração acelerou. Por um instante, considerei voltar para dentro. Mas algo me empurrou para frente. Devagar, dei alguns passos na direção da casa. O silêncio era profundo demais. Quando me aproximei do portão, percebi que ele não estava apenas aberto, parecia ter sido deixado assim… de propósito. Como um convite. Ou um aviso. Engoli em seco. — Isso é uma péssima ideia — murmurei. Mas meus pés continuaram se movendo. Entrei no jardim. O cheiro de terra úmida e folhas secas me atingiu imediatamente. Tudo parecia exatamente como eu tinha visto de longe… e, ao mesmo tempo, completamente diferente de perto. Mais real. Mais intenso. Dei mais alguns passos, o coração batendo tão forte que eu podia ouvi-lo. E então… — Você não deveria estar aqui. A voz surgiu atrás de mim. Baixa. Rouca. Contida. Meu corpo inteiro gelou. Virei-me lentamente. Adrian Vasconcelos estava a poucos metros de mim. Mais perto do que nunca. Mais real do que qualquer imagem que eu tinha construído na minha cabeça. Ele estava parado, com as mãos levemente tensas ao lado do corpo, como se não soubesse exatamente o que fazer com elas. Os olhos escuros fixos em mim. Mas, ao contrário do que eu esperava… Havia algo diferente ali. Não era frieza. Não era ameaça. Era… hesitação. Respirei fundo, tentando controlar o nervosismo. — Eu… — comecei, mas minha voz falhou. Limpei a garganta. — Seu portão estava aberto. Ele desviou o olhar por um segundo, como se aquilo tivesse sido um erro. — Eu sei. O silêncio caiu entre nós. Pesado. Mas não desconfortável o suficiente para me fazer sair correndo. Apenas… estranho. — Eu só… — tentei novamente — queria ver se você estava bem. Assim que disse isso, percebi o quanto soava absurdo. Eu m*l conhecia aquele homem. Na verdade, não conhecia nada sobre ele. E ainda assim, ali estava eu, no jardim da casa dele, perguntando se ele estava bem. Adrian me observou por alguns segundos. E então algo inesperado aconteceu. Ele soltou um suspiro leve. Quase imperceptível. Como se estivesse cansado de carregar algo sozinho. — Eu estou — respondeu, finalmente. A voz dele era calma, mas havia uma tensão escondida ali. Assenti, sem saber exatamente o que dizer. O silêncio voltou, mas desta vez… era diferente. Menos pesado. Mais… humano. Ele olhou para o chão por um instante, como se estivesse organizando os pensamentos. Quando falou novamente, sua voz saiu um pouco mais baixa. — Você tem me observado. Meu coração disparou. Não era uma pergunta. Era uma constatação. Engoli em seco. — Eu… — hesitei. — Às vezes. Ele assentiu lentamente, como se já soubesse. — Eu também. Meu corpo inteiro ficou imóvel. — O quê? Ele levantou o olhar novamente, encontrando o meu. E, pela primeira vez, vi algo claro ali. Vulnerabilidade. — Eu vejo você — disse ele, com simplicidade. O mundo pareceu parar por um segundo. O vento. Os sons. Tudo. — Por quê? — perguntei, quase num sussurro. Ele hesitou. Passou a mão pelos cabelos, levemente nervoso. — Eu não deveria… — murmurou. E então ficou em silêncio. Esperei. Não pressionei. De alguma forma, sabia que qualquer passo em falso faria ele se fechar novamente. Adrian respirou fundo. — Você é… diferente do que eu esperava. Franzi a testa. — Esperava? Ele pareceu perceber o que tinha dito e desviou o olhar. — Não importa. Mas importava. E muito. — Importa sim — respondi, dando um pequeno passo à frente. Ele ficou tenso imediatamente. Não recuou. Mas também não se aproximou. Era como se existisse uma linha invisível entre nós. E nenhum dos dois sabia se podia cruzá-la. — Você vive aqui sozinho? — perguntei, mudando de assunto, tentando aliviar a tensão. Ele assentiu. — Sim. — E… — hesitei — por que você quase nunca sai? Ele ficou em silêncio por alguns segundos. E, quando respondeu, sua voz saiu ainda mais baixa. — Porque é mais seguro assim. Um arrepio percorreu minha espinha. — Seguro de quê? Ele levantou o olhar lentamente. E dessa vez… Havia algo diferente. Algo mais escuro. Mais profundo. — De coisas que você não entenderia. O silêncio voltou. Mas agora, carregado de algo maior. Mistério. Perigo. E, estranhamente… Confiança. Porque ele estava ali. Falando comigo. Mesmo que pouco. Mesmo que com cuidado. Mas ainda assim… falando. Dei um pequeno sorriso, tentando suavizar o momento. — Você poderia tentar me explicar. Ele me observou por alguns segundos. E então, pela primeira vez… Um quase sorriso apareceu no canto dos lábios dele. Pequeno. Rápido. Mas real. — Talvez — disse ele. Meu coração disparou novamente. Mas dessa vez… Não era medo. Era algo completamente diferente. Algo novo. Algo que eu ainda não sabia nomear. Ficamos em silêncio por mais alguns segundos. Até que ele deu um passo para trás. — Você deveria ir — disse, suavemente. — Eu sei — respondi. Mas não me movi imediatamente. Porque, de alguma forma… Eu sabia que aquele momento importava. Que aquele primeiro diálogo… Era o começo de algo maior. Muito maior. Virei-me lentamente e caminhei de volta para o portão. Mas, antes de sair, olhei para trás. Adrian ainda estava lá. Parado. Me observando. E, pela primeira vez… Não parecia distante. Parecia… Alcançável. Saí da casa dele com o coração acelerado e a mente completamente confusa. Mas uma coisa era certa. Tudo tinha mudado. Porque agora… o mistério tinha uma voz.
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