o plano quebrado

1145 Palavras
— Filha, hoje tem uma festa — disse o pai de Kayte, sentado à mesa, ajeitando o relógio no pulso. — E você vai comigo. Kayte ergueu os olhos devagar, desconfiada. — Desde quando o senhor vai em festa, hein? Ele riu, um riso raro, quase juvenil. — Vamos, filha. Só dessa vez. Ela observou o pai por alguns segundos. Havia algo diferente ali. Um cuidado exagerado. Um entusiasmo que não combinava com ele. — Tá bom, pai — respondeu por fim. Ele se levantou, já indo em direção ao quarto. — Usa o vestido vermelho. Kayte franziu a testa. — Vermelho? — Solta os cabelos — ele continuou, como se já tivesse tudo planejado. — Passa um batom, faz uma maquiagem bonita. Vamos sair daqui às oito em ponto. Ela ficou parada, sentindo um aperto estranho no peito. — Que festa é essa? — perguntou. — Você vai gostar — respondeu ele, sem olhar para trás. No quarto, Kayte abriu o guarda-roupa devagar. O vestido vermelho estava lá, guardado há tempos. Não era vulgar. Não era curto demais. Mas marcava o corpo do jeito certo. Forte. Feminino. Perigoso. Ela vestiu. Soltou os cabelos cor de mel, que caíram em ondas suaves pelos ombros. Passou o batom com a mão firme, mesmo com o coração inquieto. No espelho, não viu a garota que lutava todos os dias para sobreviver. Viu uma mulher. E isso a assustou. Do outro lado do bairro, Kol estava encostado no carro quando Orelha recebeu a ligação. — É hoje — disse Orelha, desligando. — A festa. Kol endireitou o corpo. — Que festa? Negão respondeu, sério: — Daquelas que não são só festa. Kol sentiu algo fechar no peito. Uma intuição antiga, afiada como lâmina. — Onde? Quando Kayte saiu de casa, às vinte horas em ponto, o pai sorriu orgulhoso. — Assim tá perfeito. Ela forçou um sorriso. — Não precisava de tudo isso. — Precisava, sim — ele respondeu, abrindo a porta do carro. — Tem gente importante lá. As luzes da rua refletiram no vestido vermelho enquanto eles se afastavam. Em algum lugar, Kol observava o carro sumir na esquina, o maxilar travado. — Vermelho… — murmurou. — Logo hoje. Orelha suspirou. — Irmão, isso tá com cara de armadilha. Kol abriu a porta do carro com força. — Então a gente chega antes dela cair nela. Porque Kayte achava que ia a uma festa. Mas o destino estava prestes a apresentar uma proposta que mudaria tudo. E Kol… Kol não pretendia deixar ninguém escolher por ela. Nem mesmo o próprio pai. A festa era grande demais para alguém como o pai de Kayte. Luzes elegantes, música baixa, gente bem vestida demais para o bairro onde ela cresceu. Kayte sentiu o desconforto no primeiro passo dentro do salão. Aquilo não era um convite inocente. Era vitrine. — Filha — disse o pai, ajeitando o paletó. — Quero te apresentar o Douglas Santiago. Kayte forçou um sorriso educado. — Prazer. — O prazer é todo meu — respondeu Douglas, olhando para ela sem disfarçar. — Você está linda. — Obrigada — disse ela, curta. Do outro lado do salão, escondido entre sombras e colunas, Kol observava tudo. O corpo tenso. O olhar afiado. Cada gesto era registrado. — Esse cara não tá aqui à toa — murmurou Orelha. Kayte conversava por educação, respondendo o mínimo possível. O pai se afastou dizendo que ia ao banheiro… e demorou. Demorou demais. Ela se distraiu por segundos. O suficiente para Douglas inclinar o copo discretamente e deixar cair um pó fino na bebida dela. Orelha viu. — Kol… — sussurrou. Kol estreitou os olhos. — Filho da p**a. Kayte levou a mão ao copo, mas parou. Algo no líquido parecia errado. Um reflexo estranho. Um instinto antigo. Ela não bebeu. Kol sorriu de lado, tenso. — Ela é mais esperta do que eu imaginei. — Ué — disse Douglas, forçando naturalidade — por que você não quer beber? — Tô bem — respondeu Kayte, sorrindo sem chegar aos olhos. — Já disse. Ela se levantou. — Vou procurar meu pai. — Eu te acompanho — disse ele rápido demais. Ela não gostou, mas seguiu. Kol, Orelha e n***o começaram a andar atrás, mantendo distância. No corredor mais estreito, longe do salão, Douglas se aproximou demais. A mão deslizou para a cintura dela. Kayte afastou no mesmo instante. — Não encosta em mim. Ele riu. — Você é assustada, né? Ela virou o rosto para ele, fria. — Não. Eu só não sou como as quengas que você costuma pegar. O riso dele ficou mais largo. — Gosto de mulher difícil. Mais à frente, encontraram o pai dela. — Pai! — Kayte disparou. — Onde você tava? Sumiu e me deixou com esse babaca me enchendo o saco. — Ei, não fala assim comigo, tá? — disse Douglas, rindo, como se fosse brincadeira. O pai de Kayte suspirou. — Eu falei que ela era difícil. Kayte congelou. — Como assim? — perguntou devagar. — O que é isso, pai? Como assim você falou de mim pra ele? O homem evitou o olhar da filha por meio segundo. — Filha… o Douglas vai casar com você. O mundo parou. — O quê?! — Kayte recuou um passo. — Você tá doido? Eu disse que não ia casar! E se eu casar, eu vou escolher! Não você! Douglas avançou, tentando puxá-la pela cintura. — Calma, amor… Ela reagiu no reflexo. O tapa estalou alto no corredor. Douglas levou a mão ao rosto, surpreso. — Você é louca?! Kayte se afastou, o peito subindo e descendo rápido. — Não encosta em mim nunca mais! — Kayte! — o pai repreendeu. — Que isso?! — Não! — ela respondeu, os olhos cheios de raiva e dor. — Eu vou embora. Agora. Ela virou para sair. Foi quando Kol saiu da sombra. Não gritou. Não correu. Apenas apareceu. E o ar do corredor mudou. Orelha e n***o fecharam atrás. Douglas empalideceu. — Quem é você? — perguntou, tentando manter pose. Kol sorriu sem humor. — Alguém que não gosta de homem que põe coisa na bebida dos outros. O silêncio ficou mortal. Kayte olhou para Kol, confusa, o coração disparado. — O quê? Kol não tirou os olhos de Douglas. — Você vem comigo — disse a ela, firme. — Agora. — Eu não— — Kayte — ele interrompeu, baixo. — Dessa vez, não é discussão. O pai dela tremia. — Você não manda na minha filha— Kol virou o rosto devagar. — Cala a boca — disse, sem elevar a voz. — Você já fez demais. Kayte sentiu o chão sumir. Ela não sabia ainda… Mas aquela festa tinha acabado de destruir tudo. E o próximo passo não seria pedido. Seria proteção forçada. O casamento falso estava oficialmente fora da teoria. Agora… era sobrevivência.
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