— Filha, hoje tem uma festa — disse o pai de Kayte, sentado à mesa, ajeitando o relógio no pulso. — E você vai comigo.
Kayte ergueu os olhos devagar, desconfiada.
— Desde quando o senhor vai em festa, hein?
Ele riu, um riso raro, quase juvenil.
— Vamos, filha. Só dessa vez.
Ela observou o pai por alguns segundos. Havia algo diferente ali. Um cuidado exagerado. Um entusiasmo que não combinava com ele.
— Tá bom, pai — respondeu por fim.
Ele se levantou, já indo em direção ao quarto.
— Usa o vestido vermelho.
Kayte franziu a testa.
— Vermelho?
— Solta os cabelos — ele continuou, como se já tivesse tudo planejado. — Passa um batom, faz uma maquiagem bonita. Vamos sair daqui às oito em ponto.
Ela ficou parada, sentindo um aperto estranho no peito.
— Que festa é essa? — perguntou.
— Você vai gostar — respondeu ele, sem olhar para trás.
No quarto, Kayte abriu o guarda-roupa devagar. O vestido vermelho estava lá, guardado há tempos. Não era vulgar. Não era curto demais. Mas marcava o corpo do jeito certo. Forte. Feminino. Perigoso.
Ela vestiu.
Soltou os cabelos cor de mel, que caíram em ondas suaves pelos ombros. Passou o batom com a mão firme, mesmo com o coração inquieto. No espelho, não viu a garota que lutava todos os dias para sobreviver.
Viu uma mulher.
E isso a assustou.
Do outro lado do bairro, Kol estava encostado no carro quando Orelha recebeu a ligação.
— É hoje — disse Orelha, desligando. — A festa.
Kol endireitou o corpo.
— Que festa?
Negão respondeu, sério:
— Daquelas que não são só festa.
Kol sentiu algo fechar no peito. Uma intuição antiga, afiada como lâmina.
— Onde?
Quando Kayte saiu de casa, às vinte horas em ponto, o pai sorriu orgulhoso.
— Assim tá perfeito.
Ela forçou um sorriso.
— Não precisava de tudo isso.
— Precisava, sim — ele respondeu, abrindo a porta do carro. — Tem gente importante lá.
As luzes da rua refletiram no vestido vermelho enquanto eles se afastavam. Em algum lugar, Kol observava o carro sumir na esquina, o maxilar travado.
— Vermelho… — murmurou. — Logo hoje.
Orelha suspirou.
— Irmão, isso tá com cara de armadilha.
Kol abriu a porta do carro com força.
— Então a gente chega antes dela cair nela.
Porque Kayte achava que ia a uma festa.
Mas o destino estava prestes a apresentar uma proposta que mudaria tudo.
E Kol…
Kol não pretendia deixar ninguém escolher por ela.
Nem mesmo o próprio pai.
A festa era grande demais para alguém como o pai de Kayte.
Luzes elegantes, música baixa, gente bem vestida demais para o bairro onde ela cresceu. Kayte sentiu o desconforto no primeiro passo dentro do salão. Aquilo não era um convite inocente. Era vitrine.
— Filha — disse o pai, ajeitando o paletó. — Quero te apresentar o Douglas Santiago.
Kayte forçou um sorriso educado.
— Prazer.
— O prazer é todo meu — respondeu Douglas, olhando para ela sem disfarçar. — Você está linda.
— Obrigada — disse ela, curta.
Do outro lado do salão, escondido entre sombras e colunas, Kol observava tudo. O corpo tenso. O olhar afiado. Cada gesto era registrado.
— Esse cara não tá aqui à toa — murmurou Orelha.
Kayte conversava por educação, respondendo o mínimo possível. O pai se afastou dizendo que ia ao banheiro… e demorou. Demorou demais.
Ela se distraiu por segundos.
O suficiente para Douglas inclinar o copo discretamente e deixar cair um pó fino na bebida dela.
Orelha viu.
— Kol… — sussurrou.
Kol estreitou os olhos.
— Filho da p**a.
Kayte levou a mão ao copo, mas parou. Algo no líquido parecia errado. Um reflexo estranho. Um instinto antigo.
Ela não bebeu.
Kol sorriu de lado, tenso.
— Ela é mais esperta do que eu imaginei.
— Ué — disse Douglas, forçando naturalidade — por que você não quer beber?
— Tô bem — respondeu Kayte, sorrindo sem chegar aos olhos. — Já disse.
Ela se levantou.
— Vou procurar meu pai.
— Eu te acompanho — disse ele rápido demais.
Ela não gostou, mas seguiu. Kol, Orelha e n***o começaram a andar atrás, mantendo distância.
No corredor mais estreito, longe do salão, Douglas se aproximou demais. A mão deslizou para a cintura dela.
Kayte afastou no mesmo instante.
— Não encosta em mim.
Ele riu.
— Você é assustada, né?
Ela virou o rosto para ele, fria.
— Não. Eu só não sou como as quengas que você costuma pegar.
O riso dele ficou mais largo.
— Gosto de mulher difícil.
Mais à frente, encontraram o pai dela.
— Pai! — Kayte disparou. — Onde você tava? Sumiu e me deixou com esse babaca me enchendo o saco.
— Ei, não fala assim comigo, tá? — disse Douglas, rindo, como se fosse brincadeira.
O pai de Kayte suspirou.
— Eu falei que ela era difícil.
Kayte congelou.
— Como assim? — perguntou devagar. — O que é isso, pai? Como assim você falou de mim pra ele?
O homem evitou o olhar da filha por meio segundo.
— Filha… o Douglas vai casar com você.
O mundo parou.
— O quê?! — Kayte recuou um passo. — Você tá doido? Eu disse que não ia casar! E se eu casar, eu vou escolher! Não você!
Douglas avançou, tentando puxá-la pela cintura.
— Calma, amor…
Ela reagiu no reflexo.
O tapa estalou alto no corredor.
Douglas levou a mão ao rosto, surpreso.
— Você é louca?!
Kayte se afastou, o peito subindo e descendo rápido.
— Não encosta em mim nunca mais!
— Kayte! — o pai repreendeu. — Que isso?!
— Não! — ela respondeu, os olhos cheios de raiva e dor. — Eu vou embora. Agora.
Ela virou para sair.
Foi quando Kol saiu da sombra.
Não gritou.
Não correu.
Apenas apareceu.
E o ar do corredor mudou.
Orelha e n***o fecharam atrás.
Douglas empalideceu.
— Quem é você? — perguntou, tentando manter pose.
Kol sorriu sem humor.
— Alguém que não gosta de homem que põe coisa na bebida dos outros.
O silêncio ficou mortal.
Kayte olhou para Kol, confusa, o coração disparado.
— O quê?
Kol não tirou os olhos de Douglas.
— Você vem comigo — disse a ela, firme. — Agora.
— Eu não—
— Kayte — ele interrompeu, baixo. — Dessa vez, não é discussão.
O pai dela tremia.
— Você não manda na minha filha—
Kol virou o rosto devagar.
— Cala a boca — disse, sem elevar a voz. — Você já fez demais.
Kayte sentiu o chão sumir.
Ela não sabia ainda…
Mas aquela festa tinha acabado de destruir tudo.
E o próximo passo não seria pedido.
Seria proteção forçada.
O casamento falso estava oficialmente fora da teoria.
Agora… era sobrevivência.