Não É Amor, É Sobreviver

687 Palavras
A porta do carro bateu com força. Kayte estava no banco do passageiro, os braços cruzados, o coração disparado. O vestido vermelho agora parecia uma armadilha colada ao corpo. Kol dirigia em silêncio, a mandíbula travada, o volante apertado com força demais. — Você não tinha o direito — ela explodiu. — Não tinha o direito de aparecer daquele jeito, de falar com meu pai daquele jeito, de me tirar de lá! Kol não respondeu de imediato. Só estacionou o carro em um lugar escuro, longe da festa, longe de tudo. Desligou o motor. Virou-se para ela. — Ele ia te vender. Kayte sentiu o golpe como um tapa. — Não fala isso. — Falo — Kol respondeu, firme. — Aquele cara colocou coisa na tua bebida. Se você tivesse bebido… — ele parou, respirou fundo. — Você não ia sair andando dali. Ela engoliu em seco. — Eu vi o copo estranho — disse, mais baixo. — Eu não bebi. — Por isso você tá aqui — ele respondeu. — Viva. O silêncio ficou pesado. — Mesmo assim — ela disse — isso não te dá o direito de mandar em mim. Kol passou a mão pelo rosto. — Eu sei. E eu odeio isso tanto quanto você. Ela o encarou, surpresa. — Então por que faz? Kol sustentou o olhar. — Porque agora não tem mais volta, Kayte. Depois de hoje, teu pai vai tentar de novo. Douglas não vai aceitar o tapa. E gente como ele… não perde. Ela sentiu o medo subir pela primeira vez de verdade. — Então o que você quer? — perguntou, seca. — Me esconder? Me trancar? Kol balançou a cabeça devagar. — Não. Ele se inclinou um pouco para frente, a voz mais baixa, mais séria do que nunca. — Eu quero casar com você. O mundo parou. — O quê?! — Casamento de mentira — ele completou rápido. — Papel. Nome. Proteção. Kayte riu, nervosa. — Você enlouqueceu de vez. — Não — Kol respondeu. — É a única saída. Ela apontou o dedo para ele. — Você me proibiu de trabalhar, tentou me dar dinheiro, agora quer que eu vire sua mulher? Você quer me prender, isso sim! Kol segurou o impulso de tocá-la. — Se eu quisesse te prender, você já estaria presa — disse. — Isso aqui é pra te manter livre… viva. — Livre casada com você? — ela ironizou. — Um gangster? Ele sorriu de lado. — Ninguém mexe com a mulher de Kol. Ela ficou em silêncio. — Eu não vou te tocar — ele continuou. — Não vai ter beijo, não vai ter cama, não vai ter nada que você não queira. É fachada. Um acordo. Kayte desviou o olhar, sentindo os olhos arderem. — Você acha que eu confio em você? — Não — ele respondeu, honesto. — E eu não confio em ninguém. Por isso funciona. Ela respirou fundo. — E se eu disser não? Kol a encarou por longos segundos. — Então eu vou continuar te protegendo do meu jeito — disse, baixo. — E você vai continuar me odiando… até alguém conseguir chegar em você primeiro. O silêncio caiu como sentença. — Você tá me chantageando — ela murmurou. — Tô te oferecendo sobrevivência — ele corrigiu. Kayte fechou os olhos por um segundo. Ela lembrou do copo. Da mão na cintura. Do pai negociando sua vida. Quando abriu os olhos, havia raiva. Mas também lucidez. — É falso — ela disse. — Frio. Sem sentimento. Kol assentiu. — Falso. Ela respirou fundo. — E se eu me arrepender? Kol respondeu sem hesitar. — Quando você quiser sair… eu mesmo te levo. Ela riu sem humor. — Mentiroso. Ele sorriu de canto. — Talvez. Kayte virou o rosto para a janela. — Eu odeio você. Kol deu partida no carro. — Ótimo — respondeu. — Porque amor não faz parte do acordo. Mas enquanto o carro se afastava, nenhum dos dois percebeu a verdade mais perigosa daquela noite: O ódio já estava misturado demais. E o casamento, mesmo falso… ia despertar um amor impossível de esconder.
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