Rafael O ruído das botas no concreto da garagem parecia um tambor fúnebre. A noite do Morro me havia dado poucas horas de descanso, mas ali, ao lado de dois capangas recém-integrados, o sono era um luxo arriscado. Eu vigiava a entrada lateral da maré, atento a qualquer movimento suspeito. O comboio de Micael partira há instantes rumo ao depósito de cartas, e eu devia garantir a retaguarda. Foi então que senti um toque leve no meu ombro. O capanga à minha esquerda — José, um homem de olhar evasivo e cicatriz antiga abaixo da língua — inclinou-se. O cheiro de álcool barato exalou dele. Sussurrou, voz baixa como um fio de vento: — Rafael… você sabia que o senhor Micael nem sempre foi… justo com a Lívia? Congelou-me o sangue. Mantive a voz firme: — O que está dizendo, José? Ele girou o c

