Capítulo 3
RUSSO NARRANDO
Deixei a mina lá no quarto e saí fora.
Não sou babá de ninguém. Nunca fui. Nunca quis ser.
Tô ligado que até agora quem tá errado é o pai dela. Disso não tenho dúvida nenhuma. A garota não tem culpa de nada. Nasceu no inferno errado, com o demônio errado chamando de pai. Só que isso não muda o fato de que eu também não sou abrigo, não sou psicólogo, não sou salvação.
Eu mando no Vidigal.
Cuido de gente armada, de guerra, de dinheiro, de traíra, de morte.
Não de menina traumatizada.
Ou pelo menos era isso que eu repetia na minha cabeça enquanto descia as escadas.
A verdade é que eu nem sei por que caralhos eu trouxe ela pra minha casa. Meti o louco. Foi impulso. Raiva. Algo atravessado aqui dentro que eu não consegui engolir. Agora vou ter que bancar essa decisão pelo menos uma semana. Palavra é palavra. E se tem uma coisa que eu ainda faço questão de manter é isso.
Desci pra sala, joguei o corpo no sofá e passei a mão no rosto. A casa tava silenciosa demais. Um silêncio que incomodava. Não o silêncio bom da madrugada, mas aquele silêncio que parece observar.
Abri a gaveta da mesa de centro. Tirei o prato, a lâmina, o saquinho.
Problemas com drogas? Tenho.
Sempre tive.
Não vou bancar o santo arrependido. Já estive bem pior. Hoje eu controlo. Ou pelo menos finjo que controlo. Mas tem dia que a cabeça pesa demais. E quando pesa, eu sei exatamente onde aliviar.
Estiquei a primeira carreira com cuidado. Linha fina, reta. Costume antigo. Ritual.
Foi na drogä que eu encontrei refúgio quando a realidade começou a me cobrar caro demais. Quando o peso do comando, das mortes, das decisões erradas começou a acumular. Não é desculpa. Nunca foi. Mas cada um sobrevive como consegue. E esse sempre foi meu jeito.
Abaixei a cabeça e puxei.
O efeito veio rápido. Ardência no nariz, depois aquele choque conhecido subindo, limpando tudo por alguns segundos. O mundo ficou mais nítido. A mente mais rápida. O peso um pouco mais longe.
Encostei no sofá, fechei os olhos por um instante e respirei fundo.
Peguei o rádio.
— Tá na escuta? — falei, seco.
— Sempre — o GT respondeu na hora.
— O arrombadö tá na salinha?
— Tá. Jura que nunca abusou dela. Disse que nunca fez nada com a mina. Que só prendia porque ela surtava, incorporava bicho. Falou que tinha medo dela matar ele dormindo.
Eu dei uma risada sem humor.
— Putä que pariu olha as ideia do filho da putä.
Esse tipo de justificativa eu já ouvi de tudo que é jeito. Sempre a mesma coisa. Sempre tentando inverter. Sempre colocando a culpa na vítima. Covarde é tudo igual.
— GT, é o seguinte — falei, já puxando o prato pra mais perto. — Pode arregaçar esse arrombadö. Sem dó. No meu morro eu não aceito essa patifaria. Depois providencia roupas, essas porrä de coisa de mulher pra mina. E já vê um lugar pra ela ficar. Não quero ela aqui não.
Silêncio do outro lado por um segundo.
— Beleza — ele respondeu. — Mas tu tem certeza?
— Tenho.
Mentira.
Estiquei mais uma carreira e puxei com força. O efeito veio ainda mais intenso. Meu coração acelerou. A cabeça começou a trabalhar rápido demais. Pensamento em cima de pensamento.
Eu não queria ela aqui.
Não fazia sentido.
Não combinava comigo.
Minha casa sempre foi meu território. Meu espaço. Onde ninguém entra sem permissão, onde ninguém me vê fraco, onde eu baixo a guarda. Trazer alguém assim, quebrada, assustada, silenciosa, era pedir pra dar merdä.
Levantei do sofá e comecei a andar pela sala. Um lado pro outro. O pó fazia isso comigo. Acelerava tudo. O corpo, a mente, a inquietação.
Subi as escadas. Passei pelo corredor sem perceber e parei em frente à porta do quarto dela.
Fiquei aqui, parado, como se tivesse levado um tapa invisível.
Que porrä eu tava fazendo?
Balancei a cabeça, irritado comigo mesmo, e virei as costas. Voltei pra sala, peguei o copo de água e bebi tudo de uma vez. O gosto metálico da drogä ainda na boca.
Sentei de novo.
Foi aí que ouvi.
Um barulho baixo. Quase nada. Como se alguém estivesse se mexendo devagar demais, com medo até do próprio som.
Ela.
Fechei os olhos com força. Respirei fundo. Não. Não era problema meu. Eu já tinha decidido. Ia ser temporário. Depois ela ia pra outro lugar. Ponto.
Mas meu corpo não concordou.
Levantei de novo e caminhei até a cozinha. Abri a geladeira, peguei um suco, uma garrafa de água, qualquer coisa pra ocupar as mãos. Enquanto isso, minha cabeça insistia em imagens que eu não pedi.
Ela encolhida no chão.
Os olhos grandes demais pro rosto magro.
O jeito que tremeu quando eu dei um passo a mais.
Drogä nenhuma tirava isso da cabeça.
Encostei no balcão e respirei fundo, sentindo o coração bater errado. Passei a mão no nariz, incomodado com a ardência. Eu prometi pra mim mesmo que não ia voltar a esse ponto. Que não ia usar pra fugir. Mas aqui estava eu. Fugindo de novo.
Fugindo dessa situação, estranha pra caralhö que nem eu tava entendendo.
O rádio apitou de novo.
— Russo — GT chamou. — A gente achou umas coisas na casa. Marcas na parede. Cadeado por fora. Tô achando que tem mais coisa que a gente ainda não tá sabendo. Isso não vai ficar barato.
— Não vai mesmo — respondi. — Resolve.
Desliguei.
O silêncio voltou a tomar conta da casa. Um silêncio pesado, carregado de coisa não dita.
Subi as escadas sem pensar muito. Quando percebi, já estava no corredor de novo. Parei em frente à porta dela mais uma vez.
Eu não queria entrar. Não devia. Cada passo nessa direção era uma linha que eu mesmo tinha dito que não ia cruzar.
Mas cruzei.
Bati de leve.
— Ei — falei, mantendo a voz firme. — Sou eu.
Nenhuma resposta.
— Só vim ver se tá tudo bem.
Silêncio.
Abri a porta devagar, só o suficiente pra olhar. Ela tava sentada na cama, exatamente como eu tinha deixado. Abraçando as pernas. Olhos atentos. O quarto grande parecia engolir o corpo pequeno dela.
— Não precisa falar — eu disse. — Só acena com a cabeça se tiver tudo bem.
Ela demorou alguns segundos, mas assentiu.
Meu peito deu uma apertada estranha com isso.
— Roupa e comida tão chegando — continuei. — Você não vai ficar aqui pra sempre. É só até eu resolver as coisas.
Ela me olhou diferente agora. Não medo puro. Algo misturado. Insegurança. Talvez receio de ser mandada embora.
— Aqui ninguém vai te machucar — falei, sentindo a palavra “aqui” pesar mais do que devia. — Mas você precisa confiar um pouco.
Ela não respondeu. Só abaixou o olhar.
Eu devia ter saído daqui. Fechado a porta. Voltado pra minha vida.
Mas fiquei mais um segundo.
— Dorme. Descansa. Amanhã a gente resolve o resto. Se for possível quero saber mais umas paradas.
Fechei a porta com cuidado e me afastei. Desci as escadas sentindo a cabeça girar de um jeito que não era mais só da drogä.
Voltei pro sofá e me joguei aqui, encarando o teto.
Eu tinha acabado de mandar o GT preparar um lugar pra ela ficar fora daqui. Tinha acabado de dizer que não queria ela na minha casa.
E mesmo assim, alguma coisa dentro de mim se revirava só de pensar nisso.
— Que merdä tu tá fazendo, Russo… — murmurei pra mim mesmo.
O pó já começava a perder o efeito. A realidade voltava pesada, cobrando.
Fechei os olhos.
E a única certeza que eu tinha nesse momento era simples e perigosa:
Essa mina não era só um problema externo.
Ela já tinha virado um conflito dentro de mim.
E isso era o tipo de coisa que sempre terminava mäl.
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