Capítulo 2

1253 Palavras
Capítulo 2 FERNANDA NARRANDO Momentos antes… Eu aprendi a ficar quieta antes mesmo de aprender a falar. Aqui, silêncio era sobrevivência. Era escudo. Era a única coisa que eu tinha. Quanto menos eu existisse, menos ele lembrava que eu estava aqui. Quanto menos barulho eu fizesse, menos dor vinha depois. A casa era pequena, abafada, escura mesmo durante o dia. As janelas quase nunca abriam. O ar era pesado, sempre com cheiro de bebida velha, suor e raiva acumulada. Eu sabia o humor dele pelo jeito que a porta batia, pelo peso dos passos no chão, pelo som do copo sendo largado na mesa. Meu pai não gritava sempre. Às vezes, o silêncio dele era pior. Quando ele bebia demais, os olhos ficavam vidrados, a voz grossa, impaciente. Qualquer coisa era motivo. Um prato fora do lugar. Um olhar errado. Um atraso que nem existia. Eu não respondia. Nunca. Aprendi que responder só piorava. Então eu observava. O teto descascado. A mancha de umidade que parecia um rosto. A rachadura na parede que crescia aos poucos. Eu contava quantos passos dava do quarto até o banheiro. Quantos segundos levava para a água esquentar. Pequenas coisas que me faziam sentir que ainda existia algum tipo de controle. Meu corpo doía quase sempre. Às vezes mais, às vezes menos. Eu já não chorava. Chorar gastava energia. E ninguém vinha. Eu não sabia exatamente em que momento deixei de esperar por alguém. Talvez tenha sido quando ele começou a trancar a porta por fora. Talvez quando parou de me deixar sair até o portão. Talvez quando a voz dele começou a dizer que eu não precisava de ninguém além dele. Eu só sabia que o mundo tinha encolhido. Cabia nessa casa. Naquele quarto. Na respiração curta que eu mantinha para não chamar atenção. Eu estava sentada no chão, encostada na parede, abraçando os joelhos. Era mais seguro aqui. O chão não reclamava. O chão não gritava. O chão só existia. Eu tinha acabado de ser espancada, mas já tinha acostumado. Ouvi passos diferentes. Não eram os passos dele. Meu coração disparou na mesma hora. O corpo inteiro entrou em alerta, como sempre. Passos firmes demais. Mais de uma pessoa. Vozes masculinas, graves, controladas. Não tinham o tom desleixado da bebida. Não tinham raiva solta. Tinham autoridade. A porta foi aberta de uma vez, sem aviso. A luz invadiu a sala escura e eu fechei os olhos por reflexo. Meu pai começou a gritar. Xingamentos, ameaças, palavras que eu já conhecia, só que agora ditas com medo. Eu não levantei a cabeça. Aprendi que não olhar também era uma forma de proteção. Mas algo me fez erguer o olhar mesmo assim. Ele entrou primeiro. Não era como os outros homens que eu via às vezes, bêbados, sujos, desleixados. Ele era alto, postura reta, olhar duro. Não gritava. Não precisava. O silêncio ao redor dele parecia pesado, quase palpável. Quando nossos olhares se cruzaram, foi como se o ar tivesse mudado. Não havia pena no rosto dele. Nem nojo. Nem curiosidade exagerada. Havia atenção. Isso me assustou mais do que qualquer grito. Meu pai foi dominado rapidamente. Não vi tudo, não quis ver. Só ouvi o som do corpo sendo empurrado, a voz dele se alterando, depois falhando. Ninguém olhou pra mim enquanto isso acontecia. Ninguém mandou eu sair. Ninguém gritou comigo. O homem voltou a me encarar. — É ela — ouvi alguém dizer atrás dele. Eu senti quando ele se aproximou. O chão parecia vibrar com os passos. Meu corpo enrijeceu inteiro. O medo veio automático, profundo, enraizado. Ele se abaixou um pouco, ficando na minha altura, mas manteve distância. — Você consegue levantar? — perguntou. A voz era firme, baixa. Não doce. Não agressiva. Só firme. Eu não respondi. Minha garganta parecia fechada. Como se tivesse algo preso aqui há anos. — Tá tudo bem — ele continuou. — Ninguém vai te machucar agora. Eu não acreditei. Não de verdade. Mas alguma coisa no jeito que ele falou me fez estender a mão quando ele ofereceu a dele. Tremendo. Fraca. Desacostumada a ser segurada sem dor. Quando fiquei de pé, senti tontura. O mundo pareceu girar. Alguém me apoiou pelo braço, mas soltou rápido, como se tivesse medo de me assustar. Fui levada pra fora da casa. A luz do dia doeu nos olhos. O barulho da rua, das pessoas, do morro vivo, tudo parecia alto demais. Eu nunca tinha reparado em como o mundo fazia som. Me colocaram dentro de um carro. Banco macio. Cheiro diferente. Nada familiar. Sentei encolhida, perto da porta. Minhas mãos não paravam de tremer. Ele entrou no banco da frente. Outro homem sentou ao lado dele. Escutei pedaços da conversa. Palavras soltas. Ordens. Coisas sobre o meu pai, sobre “resolver isso”, sobre “não deixar barato”. Ninguém falou comigo. O carro começou a subir. Eu observava tudo pela janela, como se estivesse vendo um filme. Casas passando. Pessoas andando. Vida acontecendo. Eu estava saindo. Não sabia para onde. Quando chegamos, o portão se abriu sozinho. A casa era grande. Muito maior do que qualquer coisa que eu já tinha visto de perto. Limpa. Clara. Silenciosa de um jeito diferente. Um silêncio confortável, não ameaçador. Ele saiu do carro primeiro. Esperou. — Pode descer — disse, sem pressa. Desci devagar, sentindo as pernas fracas. Entrei atrás dele. Cada passo parecia irreal. — Você vai ficar aqui por enquanto — ele falou. — Tenho uma suíte de hóspedes. É só sua. Vou providenciar roupas. Comida. O que precisar. Eu continuei em silêncio. Ele parou de andar e virou pra mim. Não se aproximou de imediato. Observou. Talvez tenha percebido o jeito que meu corpo tremia sem controle. Quando deu um passo na minha direção, eu recuei sem pensar. O medo explodiu dentro de mim. O corpo inteiro reagiu. As mãos apertaram o tecido da roupa. A respiração ficou curta. — Ei — ele disse, na hora, parando. — Eu não vou encostar em você porrä. Não sou seu pai! A voz era firme, mas agora tinha algo a mais. Não sei explicar. — Eu moro sozinho — continuou. — Ninguém entra nessa casa sem minha permissão. Ninguém vai fazer nada com você aqui. Eu ouvi. As palavras entraram. Mas acreditar era outra coisa. Ele respirou fundo, como se estivesse escolhendo cada frase. — Você só precisa me seguir. Só isso. Assenti devagar. Subimos as escadas. O som dos nossos passos ecoava. Ele abriu uma porta no fim do corredor e se afastou. — É aqui. Pode entrar. Entrei. Ele não entrou atrás de mim. Ficou do lado de fora. Fechou a porta com cuidado. Sozinha. Olhei ao redor. O quarto era enorme. Cama grande. Lençóis claros. Janelas abertas. Um banheiro só meu. Tudo parecia grande demais para alguém como eu. Limpo demais. Bonito demais. Sentei na beirada da cama, sem saber o que fazer com tanto espaço. Minhas mãos ainda tremiam. Olhei em volta de novo, como se o quarto pudesse desaparecer se eu piscasse. O silêncio aqui dentro era diferente. Não era o silêncio do medo. Era o silêncio do desconhecido. E enquanto eu me sentava nessa cama macia, pela primeira vez em muito tempo, uma pergunta atravessou minha cabeça com força: O que vai ser de mim agora? E, sem saber por quê, o rosto daquele homem voltou à minha mente. O dono do morro. O homem que me tirou de lá. E que, sem eu entender como, tinha mudado tudo em poucos minutos.
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