Pré-visualização gratuita Capítulo 1. Aline.
— Nem se você fosse a última mulher da face da Terra, eu iria querer ter alguma relação com você. A única coisa que consigo sentir é nojo. Nada mais.
Essas foram as palavras que ouvi do meu tão sonhado marido.
Desde muito cedo, me apaixonei por ele. Conheci Murilo quando eu ainda tinha quinze anos. Ele sempre foi o melhor amigo do meu irmão. Os dois eram inseparáveis, e cada um tinha sua namorada — o que, convenhamos, era esperado para dois jovens de dezenove anos.
Nossas famílias fazem parte da máfia, e Murilo estava prestes a se tornar o subchefe da máfia Carleones. Mas, para surpresa de todos, ele abandonou todos os benefícios e o futuro promissor que teria dentro da organização… para fugir com uma amante. E ainda teve a audácia de me deixar plantada na igreja, no dia em que faríamos nossa cerimônia religiosa. No civil, nossos pais haviam resolvido tudo; bastou apenas assinarmos os papéis no cartório. Assim, eu me tornei uma mulher casada — e, ao mesmo tempo, abandonada pelo marido antes mesmo de completarmos vinte e quatro horas juntos.
Já se passaram mais de quatro anos desde que Murilo foi embora. Claro, ele ainda aparece de tempos em tempos, afinal nunca deixou de visitar os pais. Como ele renunciou ao cargo de subchefe, o novo Don o perdoou, o que significa que pode vir à vila sem restrições.
Sempre que eu sabia que ele estava por perto, me trancava no quarto. Evitava até sair para não correr o risco de vê-lo — especialmente ao lado dela. Hoje, sei que todo o amor que sentia já não existe. Mas as consequências da sua covardia deixaram marcas profundas. Passei um ano inteiro sendo criticada, ouvindo comentários cruéis como: “Se o seu homem te largou, é porque você não prestava.” Parecia que ninguém considerava a possibilidade de que ele não valia nada. Afinal, fui eu quem ficou com cara de tonta no altar, enquanto ele fugia com uma mulher que todos sabiam não prestava. Descobri depois que ela já tinha dormido com a maioria dos soldados. Murilo era o único que não enxergava.
Meu irmão também se casou… e foi outro que virou as costas para mim. Jogava na minha cara que a culpa da fuga de Murilo era minha. Dizia que preferia que eu tivesse ido embora e nunca mais voltasse. O que eu podia fazer? Além de chorar, implorar para que ele e papai me odiassem menos? Mas minhas súplicas nunca foram ouvidas. Quando eu dizia que queria o divórcio, apanhava. Chorava tanto pela dor quanto pela humilhação. Dormia de exaustão. Quando acordava, minha mãe estava ao meu lado, pedindo perdão por ser fraca, por não ter me defendido. Mas eu entendia… ela também era prisioneira daquelas regras.
Fiz faculdade de Direito. Um mês antes do casamento religioso — quando fui deixada no altar — levei uma surra do meu pai. Ele acreditou nas mentiras que espalharam sobre mim. E, para me humilhar ainda mais, me obrigou a fazer um exame para comprovar que eu ainda era virgem. Depois que a fúria passou, ele me proibiu de sair de casa. Por sorte, minhas notas eram excelentes e consegui me formar mesmo sem ir à colação. O reitor era amigo do antigo Don, e após uma conversa entre eles, minhas faltas foram “esquecidas” e meu diploma saiu sem empecilhos.
Tenho um grupo de amigos da faculdade, todos também ligados à máfia. Entre eles, Lucca sempre foi apaixonado por mim. Foi ele quem me deu a ideia de pedir a anulação do casamento ao completar cinco anos de união sem consumação. Mesmo com todos dizendo que seria difícil, ele acreditava que eu conseguiria. E é isso que estou prestes a fazer.
Faltam apenas alguns dias para completar cinco anos de casamento. Hoje, irei me encontrar com o Don e sua esposa para informar que vou pedir a anulação e cortar todos os laços com essa família. Pretendo ir embora — para outra cidade, talvez outro país. Quero distância desse mundo podre. Faz um ano que saí da casa dos meus pais e rompi com todos. Quando nos cruzamos na rua, fingimos que não nos conhecemos. E, sinceramente, isso me alivia.
Me olho no espelho uma última vez. A roupa está comportada, adequada para visitar o Don. Saio de casa e sigo pelas ruas da vila. Ainda sinto os olhares pesando sobre mim — como se eu carregasse uma cicatriz visível. Esta vila é toda ocupada por membros da máfia, mas para os de fora parece apenas um condomínio qualquer. Sigo meu caminho sentindo cada olhar, cada julgamento silencioso, até parar diante da casa do Don. Os soldados me reconhecem e liberam a entrada.
— O chefe está te esperando no escritório — dizem.
Entro sem hesitar. Caminho firme pela sala, onde todos me olham como se eu tivesse uma melancia pendurada no pescoço. Finjo que não vejo. Me dirijo à porta do escritório.
Bato duas vezes. Ouço a voz grave do Don:
— Entre.
— Boa tarde, Don. Boa tarde, Sônia — cumprimento, dirigindo-me também à esposa dele. Ao virar o rosto, vejo meu irmão e sua esposa sentados no sofá. — Boa tarde, Rael... Manuella — acrescento, com um sorriso educado. Não vim aqui para discutir com ninguém.
— Boa tarde, Aline. Pode se sentar aqui — o Don diz, apontando para a cadeira à frente de sua mesa.
Assinto e me sento.
— Então, Aline... a que devo sua visita? — ele pergunta.
No instante em que abro a boca para responder, a porta se abre atrás de mim. Ouço passos firmes adentrando a sala. O Don pede que a pessoa entre e se sente ao lado de Rael. Meu coração acelera a cada passo dado por aquela figura... desconhecida.