Capítulo 2. Aline

977 Palavras
Eu podia ouvir meu coração acelerar a cada batida. O som era tão alto que parecia ecoar pela sala. Uma parte de mim queria virar o rosto e confirmar quem era a pessoa que acabara de entrar no escritório, mas eu já sabia. O perfume inconfundível preenchia o ambiente, e só podia ser ele. Mesmo assim, obedeci à razão e permaneci imóvel, mantendo a postura firme. — Pode continuar, Aline — disse a esposa do Don. Voltei meu olhar para ela. Seus olhos estavam fixos nos meus, como se quisesse me transmitir toda a coragem de que eu precisava. — Bom, Don… vim aqui para pedir meu desligamento da família — falei com firmeza, tentando esconder o nervosismo que tomava conta de mim. — Como assim, Aline? — O tom do Don se tornou mais duro, cortante. — Você é casada com o futuro subchefe da família. Não pode se desligar sendo esposa dele. A maneira como ele falou me fez tremer. Mais uma vez, parecia que a culpada era eu. — Sim, eu sou casada com um homem que fugiu com a amante no dia do nosso casamento. E, se o senhor se lembra bem, amanhã completam exatamente cinco anos daquele fatídico dia. Se Deus permitir, amanhã eu deixo de ser uma mulher casada — respondi, entregando os papéis que havia trazido comigo. O Don os pegou, folheou um a um, e então virou o rosto na direção do sofá, balançando a cabeça como se confirmasse algo que já esperava. — Você é advogada, Aline. Explique para todos aqui o que está nesses documentos — disse ele. Assenti com a cabeça e comecei: — Como todos nesta sala sabem, há exatamente cinco anos eu fui forçada a me casar com o filho do antigo Don, que, por coincidência, também é irmão do senhor. Todos sabem que fui abandonada no altar. E como o casamento jamais foi consumado, nada me impede legalmente de pedir a anulação e apagar de vez esse capítulo da minha vida. — Aline… você sabe que nosso pai não vai gostar nada disso — disse meu irmão, com raiva na voz. Virei-me para ele e o encarei. — Você, meu amado irmão, se esqueceu de que, durante todos esses anos, eu não tive pai, nem irmão? O que mais vocês podem fazer comigo? Vão me espancar até eu desmaiar novamente? Ou, quem sabe, me forçar a fazer mais um teste de virgindade para ver se, nesses doze meses fora daquela casa, eu “me entreguei” para alguém? O silêncio caiu sobre a sala como uma bomba. Senti o olhar de todos em mim, chocados. Mas eu já esperava por isso. Vim preparada para mostrar a verdade. — É difícil, né? Acreditar que um pai tão amoroso como o meu foi capaz de tudo isso — continuei, sem esperar resposta. Abri minha bolsa e retirei os exames que ele me obrigava a fazer todos os anos. — Estes dois foram os únicos que consegui salvar do lixo. Me levantei e, com a permissão da esposa do Don, levantei minha blusa até a altura dos s***s e me virei de costas. Nossos olhares se encontraram. Murilo me encarou, e então desceu o olhar para a minha barriga. Mesmo com o coração disparado, eu me forcei a ignorá-lo e prossegui: — Essas marcas nas minhas costas e na barriga são presentes do meu casamento. — Encarei o Don novamente. — Essas agressões começaram no dia em que fui deixada no altar. Na cabeça doentia do meu pai, eu só poderia ter sido abandonada por ser uma mulher vulgar, que "se dava" para todos os membros da máfia. Segundo ele, foi por isso que o digníssimo do meu marido me deixou… pela mulher “pura” com quem fugiu. — Isso é verdade, Rael? — perguntou a voz que eu menos queria ouvir naquele momento. — É sério, Murilo, que você vai acreditar nela? Nosso pai nunca levantou a mão contra ela. Sempre a tratou como uma princesa! — rebateu meu irmão, com firmeza. Mal ele terminou de falar, e eu comecei a rir. Uma risada amarga, carregada de dor e ironia. — Posso saber o motivo da gargalhada? — perguntou o Don. — Rael sempre foi sério… mas agora eu vejo que virou piadista. — Aline, sem provas eu não posso te ajudar a romper com sua família — afirmou o Don, friamente. — Eu não tenho mais família. E se for para viver novamente o que vivi nesses cinco anos, prefiro mil vezes ser órfã. Mas fiquem tranquilos… eu sabia que vocês não acreditariam apenas nas minhas palavras. Foi por isso que eu trouxe isso aqui. Peguei o pen drive e entreguei a ele. — Abra a pasta chamada “Casamento”. — Por que esse nome? — ele questionou, curioso. — Para me lembrar de que casamento não foi feito para mim. E que, depois da anulação, nunca mais pretendo me casar. Ele conectou o pen drive ao computador. Rael, irritado, tentou intervir: — Pense bem no que está fazendo, Aline. — Pode ficar tranquilo, irmãozinho — respondi com um meio sorriso. — Tenho uma surpresa para você também. O Don começou a abrir os vídeos, um por um. O som que preencheu a sala foi assustador: meus gritos, os estalos dos socos… os insultos. Murilo, que até então permanecia em silêncio, levantou e foi até a frente do computador. Seu rosto ficou vermelho ao ver as imagens na tela. E então, todos ouvimos a voz do meu irmão: — Não se preocupe, irmãzinha. Essa é a vida que você vai ter para sempre. Você sabe que meu amigo nunca vai querer nada com você. A frase ecoou no escritório como uma sentença. Rael tentou se levantar, mas um único olhar do Don foi suficiente para fazê-lo sentar de novo — calado.
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