Capítulo 3. Aline

1077 Palavras
No vídeo que estava passando, era possível ver meu irmão agarrando meu pescoço e apertando com força até eu desmaiar. Mas antes que a escuridão me alcançasse, ouvi claramente ele gritar: — Isso é o que você sempre mereceu! — Isso aí é falso! Eu nunca fiz isso! — meu irmão tentou negar, mas as imagens eram nítidas demais para qualquer desculpa. — Cale a boca, Rael, ou eu não responderei por mim — avisou o Don, com um tom firme e gélido. Em seguida, voltou seu olhar para mim. — Ficarei com esse pen drive. Concordarei com o cancelamento, mas peço que pense mais uma vez sobre sair da família. — Eu não preciso pensar. Já decidi. Quero distância de tudo e todos que envolvam essa família. — Já sabe para onde vai? Precisa de ajuda com algo? A minha família te deve muito. — Não se preocupe, Don. Lucca irá comigo e vai me ajudar com tudo que eu precisar — respondi, e ele apenas assentiu. — Quem é Lucca? — ouvi novamente a voz dele. Murilo. Ignorei completamente. — É um rapaz que sempre foi apaixonado por Aline — respondeu Sônia, antes que eu precisasse dizer qualquer coisa. — Augusto, você não pode estar pensando em concordar com esse absurdo! Vai deixar minha esposa ir embora com outro homem? — Murilo, acho que você não entendeu nada do que foi dito aqui. Depois de amanhã, você não terá mais esposa. Aline, pode ir. Agora quero conversar com meu irmão e com o seu. Amanhã, após a reunião com nossos pais, você será uma mulher livre para fazer o que quiser com a sua vida. Sônia, meu amor, leve Aline até a porta. Agora preciso ter uma conversa com Murilo, Rael e a esposa dele. Sônia acenou, segurou minha mão com delicadeza e me conduziu até a saída. — Aline, qualquer coisa que você precisar, pode nos procurar. Sempre estaremos aqui. Nunca fomos a favor do que Murilo te fez. Que pena que ele se arrependeu tarde demais. — Obrigada, Sônia — agradeci com um sorriso fraco, sem sequer me importar com o que ela quis dizer ao mencionar o arrependimento dele. Murilo já não era mais da minha conta. Assim que saí da casa do Don, peguei meu celular e liguei para minhas amigas. Marquei uma noite de bebedeira. Eu merecia comemorar. Lucca não poderia vir, pois estava em outra cidade, mas como presente pelo meu “feito”, me enviou dinheiro e disse que essa noite era digna de festa. Caminhando de volta para casa, comecei a rir sozinha. Me sentia livre. Um peso enorme havia sido arrancado dos meus ombros. Quando cheguei, me joguei na cama e as lágrimas que tanto reprimi finalmente começaram a cair. Naquele momento, percebi que mais do que nunca precisava ir embora. Se Murilo estivesse aqui para ficar, eu não conseguiria proteger meu coração por muito tempo. Ainda o amava. Desde que descobri o que era o amor, ele sempre foi o único que me fazia sentir algo tão profundo — de um jeito que ninguém mais conseguiu. À noite, vesti um vestido branco, justo no corpo. Queria sair daquele casamento da mesma forma que entrei: pura. Me despedir da forma mais leve e alegre que pudesse. Fui de carro até a boate combinada, estacionei na esquina — nem tão perto, nem tão longe. Calcei o salto e caminhei até a entrada. Ao entrar, fui recebida com abraços calorosos. Evelyn foi a primeira a me felicitar pelo divórcio. Agradeci e abracei todas. Fomos direto ao bar pedir nossas bebidas. Depois, nos jogamos na pista. Dançamos até nossas pernas cederem. Logo, vi minhas amigas flertando com os rapazes que vieram com elas. Resolvi sair um pouco da pista e fui até o bar novamente. Pedi mais uma dose… ou duas. Já estava difícil distinguir quem era quem — talvez eu nem lembrasse mais o meu nome. — Sozinha? Uma voz masculina me tirou dos pensamentos. Aquela voz me causava arrepios. Virei o rosto. Parecia alguém conhecido, mas eu não conseguia identificar. (Eu estava bêbada demais.) — No momento, sim — respondi, olhando ao redor. Não vi nenhuma das minhas amigas. — Posso me sentar ao seu lado? — perguntou ele. Dei de ombros. — Está comemorando algo? — Sim. Estou comemorando minha liberdade. — E o que te prendia? — perguntou, apontando para o meu peito. — Isso aqui. Meu coração i****a. Ele se prendeu por anos a alguém que nunca me olhou da mesma forma. Mas hoje... hoje eu sou livre. Posso dar a outro tudo aquilo que aquele i****a nunca quis. A propósito, qual o seu nome? — Hm — ele hesitou, me observando. — Que tal não nos prendermos a nomes hoje? — Então, senhor sem nome, me diga: o que você acha que eu guardei durante todos esses anos por esse amor não correspondido? Me aproximei dele. Tentei me lembrar de onde o conhecia, mas o álcool não me deixava pensar. E já que seria o último dia em que eu o veria, não me importei em desabafar. — Tudo bem… Eu guardei tudo. Meus beijos — falei, tocando meus lábios —, meu corpo e tudo que envolve a primeira vez de alguém. — Você nunca beijou ninguém? — Ele perguntou, surpreso. — Não. Por quê? Você quer ser o primeiro? — perguntei, me inclinando um pouco mais. Ele olhou para minha boca, depois para meus olhos. Pediu permissão em silêncio e, quando tentei recuar, ele me puxou para o meu primeiro beijo. E que beijo! Por um segundo, me peguei pensando se Murilo beijaria daquele jeito. Ele me segurou pela cintura, sua outra mão firme em minha nuca. Sua língua pediu passagem, e eu cedi. Ele invadiu minha boca com desejo e intensidade. Eu queria ser beijada assim todos os dias. Parou um pouco e perguntou: — Quer ir para um lugar mais sossegado? Deve ter sido o álcool… porque eu concordei. Ele me levou para um quarto. A única coisa que pensava era: Já que estou aqui, vou deixar acontecer. Depois me arrependo. Na manhã seguinte, acordei com uma dor de cabeça insuportável. Me sentei e olhei ao redor, percebendo que aquele não era o meu quarto. Todo meu corpo doía como se eu tivesse corrido uma maratona. Virei o rosto… e, ao ver quem estava ao meu lado, senti o mundo girar. — Não… Isso não podia ter acontecido!
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