As marcas do travesseiro ainda estavam presentes em meu rosto e meus olhos estavam inchados de tanto chorar mas eu tinha pulado da cama e estava preparando a refeição. Havia levantado antes de papai para que ao menos uma vez ele encontrasse a mesa feita. O cheiro do café exalava pela casa. Provei um pouco para saber se estava no ponto.
— Simplesmente esplêndido. - Sussurrei para mim mesma.
— Aposto que sim. - Ele disse entrando na cozinha sorridente.
Papai beijou meu rosto e respirou fundo para sentir o cheiro que predominava.
— Bom dia papai, sente-se. Hoje vou servi-lo. - Disse animada.
Ele sorriu e fez como eu havia pedido sem reclamar. O cansaço estava estampado em seu rosto e levando em conta o tanto que ele trabalhava para colocar comida na mesa servi-lo era o mínimo que eu podia fazer. Enchi sua xícara e me sentei ao seu lado, enchi uma outra xícara para mim e rodeei a boca dela com os dedos enquanto permanecia em silêncio.
— Papai ...
— Sim, meu anjo.
— Hoje farei a inscrição para a seleção.
Um brilho diferente surgiu em seus olhos. Diante da insônia da noite passada eu havia tido tempo demais para pensar e esse era o certo a ser feito. Ele colocou a mão sob a minha.
— Você não precisa Loren. Eu darei um jeito. Sei que não é sua vontade.
Balancei a cabeça em negação.
— Não se fala mais nisso, senhor John.
— Tem certeza disso?
Sem dizer nenhuma palavra eu apenas assenti com a cabeça.
— Você me lembra tanto a sua mãe. Tão determinada, forte e esperta. - Ele sorriu nostálgico. — Se não fosse por ela, não sei aonde estaríamos hoje. Ela se esforçou tanto para juntar o dinheiro que pôde enquanto vivia, esse dinheiro nos ajuda até os dias atuais. Era para o estudo de vocês, me sinto m*l em usá-lo para outros fins, mas antes de morrer ela pediu que eu o usasse de maneira sábia, e de certa forma, colocar comida a mesa é. - Ele abaixou os olhos.
Mamãe havia juntado uma boa quantia de dinheiro enquanto era viva, dizia que aquele seria nosso fundo de garantia. Mesmo que não fosse usado para os nossos estudos como ela havia planejado se não fosse esse dinheiro, talvez a comida tivesse faltado muito mais vezes.
— O senhor é sábio. O senhor faz o melhor com o dinheiro que ela nos deixou, e se a mamãe estivesse aqui ela estaria orgulhosa do pai que você é. Assim como eu me sinto orgulhosa por ser sua filha.
Meus olhos gotejaram. Papai limpou uma lágrima solitária, deu um último gole no café e se levantou. Penteou pela última vez seus fios brancos e me abraçou.
— Obrigado por isso. Eu te amo, minha Loren.
Sem me dar oportunidade de resposta ele foi trabalhar. Arrumei a pequena bagunça que havia sido feita e fui até Stef, a sacudi com sutileza. Balancei May sem muito cuidado.
— Acordem! Me acompanhem até a inscrição da Seleção.
Maya deu um pulo da cama enquanto Stef tentava fingir que não estava ali, ela tampou a cabeça com a coberta.
— Imediatamente. - May exclamou animada enquanto bambeava pelo quarto.
— Só irei porquê talvez seja você minha próxima rainha. - Zombou Stef. Como resposta fiz língua.
Nos aprontamos de maneira simples e seguimos até a central de inscrição. Havia uma fila imensa, - porquê diabos estou aqui mesmo? - indaguei-me mentalmente.
Havia garotas de todos os tipos presente. Loiras, morenas, mulatas, ruivas. Maquiadas feito um palhaço e sem maquiagem alguma. A minha frente havia uma que trajava um avental,aparentemente havia saído às pressas do serviço para se inscrever. Ela estava visivelmente ansiosa, e roía as unhas.
— Será que me sai bem na foto?
Ouvi uma moça loira e muito bem arrumada perguntar a sua provável mãe. - Foto ? - Isso não havia sido citado. Olhei para as minhas vestes, para o meu rosto e cabelo, não havia nada de belo na minha aparência no momento. Havia colocado um vestido beje com verde totalmente sem graça, no rosto não tinha sequer um ** de arroz e uma trança desgrenhada havia sido feito em meu cabelo.
— Ouvi certo? - Perguntei a minhas irmãs que me olhavam aflitas.
— Não vá desistir por isso. Podemos resolver.
Maya se aproximou soltando meu cabelo enquanto Stef ficava na pontinha dos pés e apertava com força minhas bochechas.
— É para cora-las. - Ela se explicou após uma revirada de olhos.
A fila andava lentamente e eu já estava quase desistindo quando um homem baixinho de uma voz engraçada chamou meu nome. Senti meu coração saltar mais rápido no peito. Entrei dentro da pequena cabine sem a companhia de May ou Stef, eu precisava entrar sozinha, ordens dos organizadores. Ele indicou para que eu me sentasse a sua frente. O homem tinha alguns papéis em mãos e os olhava atentamente.
— Senhorita Caster ... Loren Caster. - Ele me olhou de cima a baixo, analisando-me.
Corei.
— Sim. - Sussurrei
— Certo. Eu sou Frederic, assistente pessoal do Rei Clark e estou responsável por entrevistar as concorrentes. Vamos lá?
— Claro, senhor Frederic.
— Qual é a sua idade?
— 17 . - Respondi insegura.
— Trabalha? Ou já trabalhou?
— Por três anos em uma floricultura. Agora, não mais.
— Sabe ler e escrever? Fala mais de um idioma?
— Sim. Francês, inglês e alemão.
O homem levantou os olhos. Me olhou por segundos como se analisasse se devia acreditar ou não no que lhe fora dito, obviamente graças a minha classe. Arqueei a sobrancelha intimidando-o. Não
— Certo. Fique de pé por favor, para tirarmos uma foto.
Ainda não havia entendido ao certo o porquê da foto se os nomes seriam sorteados. Mas preferi não questionar. Me posicionei e quando vi o clarão após o clique me espantei. Nunca antes havia visto uma máquina fotográfica, era algo extremamente novo na cidade e somente as pessoas de classe extremamente altas tinham acesso. Uma daquelas poderia facilmente comprar minha casa, e ainda ficaríamos devendo.
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