Brian e eu passamos o domingo juntos. Nós divertimos bastante. Até caímos na água mais tarde. Mesmo que não tivéssemos de roupa de banho. Eu nadei de calcinha e sutiã e ele de bermuda.
Ele pegou duas toalhas e assim nos secamos. Já estávamos no cais.
— Espero que você tenha gostado do nosso dia. Brian diz e eu sorrio.
— Eu amei. Muito obrigada! Me diverti muito.
— Fico feliz em ouvir isso. Podemos nos ver durante a semana? Sei lá um cinema na quarta que estou livre.
— Por mim tudo bem. Eu fico no meu apto na quarta.
— Ótimo. Nos vemos então. Nós abraçamos e depois eu fui para meu carro.
Cheguei em casa quase oito da noite. Eloisa estava na sala.
— Onde você estava? Bufo.
— Eloisa, meu marido se chama Alex, e ele nem está aqui para me questionar nada. E mesmo se estivesse, ele não tem esse direito. a Sra também não tem esse direito. Boa noite! Subo não querendo ouvir ela.
Tiro minhas roupas e vou para o banho. Coloco a banheira para encher. Entro na mesma. Deito minha cabeça no encosto, fecho meus olhos tentando não pensar em nada.
— Princesinha do titio? Onde você está? Assim que eu vi meu tio subindo a escada eu corri para meu quarto. Mais uma vez meus pais não estavam em casa. Eu estava descendo para ver se a babá deixava eu dormir com ela. Eu não gostava de dormir sozinha. Eu não queria dormir sozinha. E agora estou escondida dentro da banheira. Ele não pode me ver. Sophie, cadê você? Tampo meus ouvidos.
— O Sr está procurando algo? A babá chega. Eles estão no banheiro. Ouço a voz dela bem perto.
— Vim ver Sophie. Cadê ela? Meu tio pergunta.
— Ela deve está na casinha de bonecas lá fora. A babá diz.
— Eu vou lá então ver ela.
— Eu vou com o Sr, porque assim eu já pego a mesma e trago para dormir. Ouço passos. Fico aliviada, tomara que ele não volte.
Vou para meu quarto e espero a babá subir de novo. Tomara que meu tio vai embora. Não demora muito e a babá entra no meu quarto com cara de preocupada.
— Sopphie, quer me matar de susto? Onde você estava?
— No quarto da mamãe e do papai. Eles vão demorar?
— Não sei lindona. Mas vem, trouxe já seu leite para você dormir. Ela me entrega meu copo de leite e eu fico olhando para ele. O que foi? Não quer?
— Quero. Bebo e fico olhando para ela. Paro de bebê. Posso dormir com você?
— Você sabe que seus pais não querem isso.
— Eu não vou contar para eles.
— Eles vem ao seu quarto a hora que chegam. O que você tem medo?
— Eu não gosto de dormir sozinha. O homem m*l sempre aparece nos meus sonhos.
—Não tenha medo. Eu vou ficar com você aqui, até você dormir. Sorrio assentindo. Acabo de tomar o leite e deito. Ela me cobre e fica comigo até eu pegar no sono. Mas de madrugada eu acordo assustada. Parecia que tinha alguém no meu quarto. Pego minha mantinha e meu travesseiro e vou para o quarto dos meus pais. Eles não chegaram ainda. Vou para o banheiro do quarto deles e me escondo na banheira. Acabo pegando no sono.
— Você não pode dormir na banheira, Sophie.
— Eu só estava com medo mamãe. Eu não gosto de dormir sozinha.
— Você está bem grandinha para ter medo, e está bem grandinha para dormir com alguém. Você tem o seu quarto. Hoje não foi na aula porque a babá não te achou no seu quarto e nós não tínhamos nenhuma ideia que você estava na banheira. Mamãe está brava.
— Safira... Papai aparece no quarto chamando mamãe.
— Oi... Ela se levanta.
— Vamos. Eu não quero me atrasar.
— Eu posso ir com vocês? Peço indo para o lado do papai.
— Não. Vamos em um almoço de amigos. Não tem crianças lá.
— Mas eu prometo ficar quietinha. Meu pai me olha sério.
— Não Sophie. Você não vai. Meu pai diz servero. Me encolho atrás da mamãe.
— Vocês vão demorar? Eles não me respondem e vão saindo do quarto. Eu não quero ficar sozinha.
— O que acabamos de conversar? Para de birra. Você tem sete anos anos, Sophie, não pode ficar fazendo essas birras de bebê.
— Eu não estou fazendo birra, mamãe. Eu só quero ir com vocês.
— Pede a babá para levar ela na pracinha ou no shopping e deixar ela escolher o que ela quiser. Meu pai diz sem paciência
— Eu não quero papai. Eu quero ficar com vocês dois.
— Outro dia você fica com a gente, hoje não dar. Vejo meu tio entrando em casa e já fico com medo.
— Achei que vocês não estavam em casa. Meu tio diz.
— Já estamos de saída. Deseja alguma coisa? Minha mãe questiona.
— Não. Só iria olhar se Sophie não quer ir tomar um sorvete comigo?
— Olha aí, você queria sair. Vai com seu tio. Meu pai diz. Eu não quero ir com ele.
— Leve a babá, pois assim ela não te dar trabalho. Minha mãe diz.
— Não, ela não dar trabalho. Vamos só nós dois. Ouço barulho de água. Abro meus olhos e a banheira está quase me tampando toda. Ela está derramando no chão. Droga. Eu cochilei. Me levanto e fecho a água.
Eu cochilei e tive mais um dos meus pesadelos. Sair do banheiro com cuidado. Eu estava com frio, com uma sensação de medo. Fui para o quarto. Me deitei de roupão. Eu só quero poder dormir e não sonhar mais com isso.
Eu não tenho nenhum momento bom da minha infância. Não tive o carinho dos meus pais. As babás não podiam ficar comigo como eu queria. Não tive atenção de ninguém. E o que mais me dói, e que ninguém estava nem aí para mim e meu tio nojento não parava de me perseguir.
Acordei assustada. Já era dia. Olhei no meu celular e já estava na hora de me levantar. Hoje tenho duas aulas. Depois disso quero ver se encontro um psicólogo. Não posso mais ficar com essa sensação de medo. Eu quero dormir bem pelo menos uma vez na vida.
Na faculdade estava olhando para o nada. Meus sonhos, minha vida, tudo está me deixando chateada. Eu não merecia ser infeliz dessa forma. O que eu fiz para meus pais? O que eu fiz para o ser que diz seu meu marido? Eu não queria que ele me amasse de cara, só queria construir uma amizade. Alguém com que eu pudesse conversar, sei lá. Nem eu sei o que quero.
— Sophie, você está me ouvindo? Jonas toca na minha mão e eu olho para ele.
— Desculpe. Eu estava pensativa.
— Estou vendo. Você está bem?
— Sim. E você, como está?
— Estou ótimo. Bruna e eu fomos no resort Omni Shoreham Hotel. O lugar é maravilhoso.
— Fico feliz por vocês dois. Aqui eu mudei. Fui morar em Airlie Beach.
— Porque? Achei que você gostava do centro da Áustria.
— Eu gosto, mas parece que é mais perto dos negócios do meu marido. Então fomos morar lá. E já quero fazer um convite para você e Bruna irem para lá no final de semana. Vou convidar uns amigos e assim podemos curtir a praia.
— Vai ser maravilhoso. Porém, essa semana não. Bruna e eu temos o aniversário de uns amigos, mas podemos deixar marcado para o outro fim de semana.
— Para mim tudo bem. Vou amar ter vocês lá. Quem sabe podemos montar barraca na praia, fazemos uma fogueira e assim dormimos lá.
— Para mim é perfeito. Sorrio.
— Agora me diz. Você conhece um psicólogo? Ele franze a testa.
— Para você? Assinto. Sophie, você quer conversar? Eu estou aqui. Eu sou mais que um amigo, sou um irmão para você. Eu posso te
ajudar se você quiser.
— Eu te agradeço, mas eu preciso realmente de um profissional.
— É seu casamento?
— É tudo, Jonas. Minha vida toda é errada.
— Não, não é. Ele segura na minha mão. Eu não sei o que está havendo no seu coração, mas você é a melhor pessoa que eu conheci na vida. E se tem alguma coisa de errado na sua vida, coloque para fora. Eu estou aqui para te ouvir. Desabafa comigo.
— Você é um amor. Mas eu preciso de um profissional mesmo. Seu olhar é de pena.
— Tudo bem. Mas se você quiser, se precisar de um amigo, eu estou aqui.
— Eu sei. Te amo muito por isso.
—Eu tenho uma amigo que é psicólogo. Vou ligar para ele e ver se ele tem uma hora hoje ainda.
—Obrigada!!
— Não precisa agradecer. Só quero que você fique bem. Estou aqui para o que precisar.
— Te digo o mesmo.
Mais tarde conversamos sobre outra coisa. Jonas entendia que eu não queria ficar falando sobre meus problemas.
Antes de ir embora ele me disse que seu amigo estava disponível agora. Se eu quisesse, ele poderia me acompanhar. Eu só pedi ele o endereço do consultório, pois isso que queria fazer sozinha. Estava na hora de enfrentar meus medos e pesadelos.
Cheguei no consultório e não esperei muito. Adentrei o consultório.
— Meu nome é Thales.
— Como vai Dr. Eu sou Sophie. Mas pode me chamar de Sophie.
— Sente-se Sophie. Em que eu posso te ajudar?
—Em um tratamento profissional.
— Me fale de você?
— Eu não tive uma infância feliz. Meus pais me tiveram tarde demais para a idade deles, e não tinham nenhuma paciência comigo. Suspiro de cabeça baixa. Eu vivi com babás e mais babás, porque eles não aceitavam também que eu me apegasse a elas. Eles me deixavam mais sozinha do que tudo. Viviam em festas, eventos, enquanto eu... Fecho meus olhos e lágrimas começam a escorrer.
— Você não precisa me contar tudo hoje. Vamos fazer por parte.
— Eu quero me libertar disso. Não aguento mais ter pesadelos. Não aguento mais acordar no meio da noite desesperada. Ele me passa um lenço de papel. Obrigada! Eu tenho um tio.
— Parar... Thales pediu me olhando. Sua expressão é de dor. Vejo que o que você vai me contar é algo doentio. Você precisa se preparar para contar o que houve.
— Eu venho me preparando a anos para contar a alguém sobre isso. Eu me preparei a anos para contar ao meu melhor amigo ou melhor amiga, mas nada saiu da minha boca. Não adianta. Eu adiei isso por muito tempo, e essa dor não passa. Eu quero contar. Eu quero me libertar. Eu preciso disso. Só me ouça.
— Tudo bem. Mas na hora que você quiser parar, pare. Ele me passa a caixa de lenço e eu pego.
— Esse tio era legal no começo. Ele vivia me dando presente, vivia me dando a atenção que meus pais não me davam. Eu gostava, porém... Suspiro e começo a chorar.
— Ele abusou de você?
— O que se caracteriza o abuso para você? Ele penetrar em mim? Não, ele não fez. Eu sabia que isso podia chegar a acontecer. E
quando entendi o que ele procurava, eu fugia dele. Eu dormia debaixo da minha cama, dormia dentro da banheira do meu quarto, no quarto dos meus pais e até nos outros quartos para ele não me tocar mais. Por um tempo eu sentia nojo de mim. Eu queria não existe.
— Seus pais não fizeram nada. Sorrio. Limpo meus rosto que está banhado em lágrimas.
— Meus pais não estavam nem aí para mim. Eles viviam para eles. Me cobria de presentes, de coisas para que eu não os atrapalhassem. Essa noite eu tive mais um dos meus pesadelos com meu tio. Lembro desse dia como hoje. Ele havia chegado em casa e dito para meus pais que iria me levar para tomar um sorvete.
— Quantos anos você tinha?
— Sete. Começo a chorar mais, só de lembrar. Eu não queria ir. Eu sabia que esse sorvete era só uma desculpa para ele ficar sozinho comigo. Mas meus pais, mais uma vez não estavam nem aí para mim. Eles iriam sair e eu estava atrapalhando a vida deles como sempre desde quando nasci. Quando eles saíram, eu tentei me esconder, mas não teve jeito. Meu tio me pegou no colo e disse que ele iria comprar o sorvete que eu quisesse. Eu olhei para babá, pedindo com meus olhos que ela fosse junto, e acredito que ela entendeu, porque, ela queria ir, mas meu tio disse que não precisava de ninguém ir com ele, pois ele sabia tomar conta de mim. Então, fomos. Meu tio me levou para casa dele. Me deu sorvete que eu não tomei e mesmo eu rejeitando, ele fazia uma espécie de avião com a colher, e quando eu não abria a boca, ele deixava cair em mim de propósito para ele passar a mão em mim. Fico passando a mão no meus braços. Aquele porco nojento me alisava, dizia me amar, dizia que ele era só feliz comigo. Grito desesperada, chorando muito. Ele dizia que quando eu tivesse idade, eu iria fazê-lo mais feliz. Eu não queria fazê-lo feliz. Choro desesperada. Eu não queria mais ele perto de mim.
— Para um pouco. Respira. Tome essa água. Ele me dar uma garrafinha de água. Eu pego, mas não abro.
— Meus pais não entendiam porque eu pedia para dormir com eles, eles não entendiam porque muitas das vezes eu estava debaixo da cama, banheira fria dos banheiros. Eles não entendiam porque eu não queria ficar perto do meu tio quando ele chegava lá em casa.
— Quanto tempo isso aconteceu?
— Quando eu fiz doze anos, eu fiz de tudo para meus pais me mandarem para um colégio interno. Pela primeira vez na vida eles
fizeram algo que eu queria. Era lógico que eles acatariam meu desejo. Eles iriam se livrar de uma adolescente. Porém, eu queria me livrar de ser estuprada, queria me livrar de ser mais abusada, porque era isso que iria acontecer comigo se eu continuasse convivendo com meu tio. Falo chorando muito.
— E você foi para um colégio interno e não viu mais seu tio?
— Eu fiquei no colégio interno até os dezesseis anos. E ele foi lá duas vezes com meus pais. E depois foi sozinho, mas neste dia eu inventei uma desculpa para não recebê—lo.
— E quando você voltou para casa? Ele não tentou mais nada?
— Não. Eu não era mais uma criança. Eu entendia as coisas, e também estava prometida para casar com um filho de uns amigos dos meus pais.
— Você está casada? Sorrio sem graça. Limpo minhas lágrimas que insistem em sair.
— Sim. Eu me casei aos dezoito anos?
— E como foi para você ele te tocar?
— Meu casamento não foi consumado. É um casamento por contrato.
— Como você sente com um abraço? Com aperto de mão? Com presença masculina perto de você?
— Isso não me assustou como deveria. Eu não tenho pavor dos homens. Por incrível que pareça eu sei diferenciar essa parte. Eu não vejo que todos os homens são ruins, eu vejo que meu tio é r**m. E eu tenho medo dele.
— Você acha que ele pode fazer mais m*l a você do que já fez?
— Sim. Eu tenho medo que ele concluía seu plano horrendo. Tenho medo de não ter forças para bater de frente com ele.
— Porque você não o denuncia?
— Eu não sei. Como disse tenho medo dele. Às vezes é mais fácil fugir, é mais fácil não vê-lo.
— Você não tem motivo para vê-lo, então fique tranquila.
— E o pior que tenho. Depois que meus pais morreram, ele ficou no comando da empresa que era do meu pai e que é minha por direito. Eu queria ter forças e ir lá agora e tirá-lo. Eu queria ter forças e expulsá-lo de vez da minha vida.
— Chame um advogado e faça exercer seu direito.
— E depois? Eu assumo o que é meu, e depois ele vem atrás de mim e conclui toda merda em cima de mim? Não, eu não estou preparada para isso agora e nem sei se estarei em um futuro próximo. Eu só quero esquecer que ele foi um filho da p**a e tentou abusar de mim. Que as mãos dele estavam em meu corpo.
— Tudo bem, vamos nos concentrar em um tratamento para você. Vamos fazer três vezes por semana uma seção. Vou te receitar também um antidepressivo.
— Você acha que eu estou depressiva? Olho para ele tendo a certeza que eu estou pior do que pensei.
— Olhe para seus braços. Ele pede eu olho. Estão vermelhos de tanto que eu esfreguei. Você tem se mutilado dessa forma sempre?
— Eu não reparo nisso.
— Pois vamos reparar. Você não cometeu nenhum erro. Você não tem que se machucar para tentar fazer um problema desaparecer. Já tentou contra sua própria vida?
— Eu sempre penso que meus pais fizeram errado em me ter. Sempre achei que eu não deveria existir de modo algum, mas tentar me matar nunca surgiu na minha cabeça. E olha que o que tem na minha vida é problemas. Seria fácil atentar contra mim e acabar com tudo que me aflige.
— Entendo. Aqui está a receita dos antidepressivo, e também um calmante para dormir. Espero te ver depois de amanhã. Vamos conversar mais.
— Tudo bem. Pego a receita. Obrigada por me atender, obrigada por me ouvir.
— Não tem o que agradecer! Nos vemos.
— Ok. Vou repassar o valor da consulta para sua secretária.
— Tudo bem. Até mais. Fecho a porta e suspiro forte. Limpo meu rosto.
— Você está bem? Olho e estranho.
— Você aqui? Indago, porque não queria que ninguém me visse assim.