Nova rainha

1471 Palavras
Dom Carlo descia as escadas do hotel com o olhar sombrio e a mente inquieta. Depois da explosão no corredor, dos tapas, das palavras cortantes, ele esperava que Eleonora fizesse um escândalo. Que gritasse. Que o humilhasse publicamente. Talvez até desaparecesse. Mas quando a porta do elevador se abriu e ela surgiu… Ele soube que estava lidando com algo muito pior que a fúria. Frieza. Silêncio. Calma. Eleonora usava um vestido leve azul-marinho, óculos escuros grandes, e um leve sorriso nos lábios. Sua postura era impecável. Como se não houvesse nada de errado. Como se a noite anterior fosse apenas um capítulo irrelevante de um livro que ela mesma reescrevera. — Bom dia, Dom. — ela disse, como se fosse a esposa perfeita. — Podemos ir? — Ir…? — ele arqueou uma sobrancelha. — Para a mansão, claro. Se vamos viver lá, preciso começar a me adaptar. Ah, e gostaria de passar em uma loja de decoração antes. Se aquele lugar vai ser meu lar, quero deixá-lo com a minha cara. Dom ficou em silêncio. Observando-a com atenção. A mulher à sua frente não era a mesma menina nervosa do início. Algo havia mudado. Ela agora controlava a situação. O jogo. A própria narrativa. — Claro — ele respondeu, desconfiado. — Podemos passar em qualquer loja que quiser. — Ótimo. — ela sorriu de leve. — E espero que seu closet tenha espaço, porque meus livros, velas, quadros e plantas vão tomar conta da sala. Ele queria provocá-la. Jogar alguma frase cortante. Dizer que a mansão era dele. Que nada ali lhe pertencia. Mas… ele não disse nada. Porque, naquele momento, Eleonora era imparável. No carro, ela observava a cidade passar pela janela como se estivesse prestes a assumir um trono. Seus pensamentos estavam longe… mas seus olhos brilhavam com determinação. “Quer jogar comigo, Dom Carlo?” “Pois agora você vai conhecer a versão de mim que não se apaixona. Que não sangra.” “E que não perde.” A loja de decoração era sofisticada, com vitrines amplas e lustres de cristal. Os vendedores logo se mobilizaram quando viram Dom Carlo entrando — todos sabiam quem ele era. Mas nenhum deles esperava que a mulher ao seu lado — jovem, elegante, com olhos cintilantes — tomasse o centro da atenção. — Quero mudar o quarto inteiro. — ela disse com voz doce. — Quero algo meu, feminino… delicado. Um dos atendentes sorriu. — Claro, senhora Carlo. Como deseja? Eleonora virou-se, fingindo pensar por um segundo, e depois abriu um sorriso travesso. — Tudo cor-de-rosa. O vendedor arregalou levemente os olhos, surpreso. — T-Tudo? — Tudo. Cabeceira, lençóis, poltronas, almofadas, flores… E, se tiver, até uma luminária em forma de coração. Ela olhou para Dom, com uma expressão de pura inocência. — Acha exagerado, amor? Dom cerrou os olhos. Sentia o gosto do deboche. Mas o tom doce dela estava deixando os funcionários completamente encantados — e, pior, fazendo-o parecer o homem apaixonado que ela queria que ele fosse. Ele se inclinou devagar, até que seus lábios quase tocassem o ouvido dela. — Você pode pintar o inferno de rosa, Eleonora. Mas não vai mudar o fato de que eu durmo naquele quarto com você. — sussurrou, com uma voz baixa e carregada de intenção. Ela riu. Uma risada doce, provocante… quase infantil. Virou-se para o vendedor: — É que o meu marido é muito apegado… não me deixa nem ter um quarto só pra mim. — deu um olhar cúmplice, como se fosse uma esposa apaixonada. — Mas tudo bem. Ele vai se acostumar com o rosa. O vendedor sorriu, um pouco constrangido, e começou a anotar os pedidos. Dom se afastou, fingindo observar um vaso de cristal, mas por dentro, estava em chamas. “Ela está me provocando.” “Quer me testar, me dobrar, me enlouquecer.” “E, por Deus… está conseguindo.” Mas Eleonora não queria apenas provocá-lo. Ela queria que todos vissem que a esposa contratada agora era a mulher que controlava o tabuleiro. E o rosa não era sobre delicadeza… era sobre território. Ela estava marcando o dela. As portas da mansão se abriram com pompa e reverência. Motoristas correram para tirar as inúmeras sacolas do porta-malas — almofadas, flores, cortinas, quadros, velas e mais de uma dúzia de objetos deliberadamente femininos, todos escolhidos por Eleonora para marcar território. Dom desceu primeiro, com expressão indecifrável. Eleonora saiu depois, calma, elegante, carregando apenas uma rosa de cetim que havia separado para a cabeceira do quarto. Olhou ao redor como quem reconhecia um reino que acabara de herdar. — Quero uma reunião com todos os funcionários. Agora. — ela disse, firme, ao mordomo que veio recepcioná-los. O homem, um senhor grisalho que claramente não esperava ordens de uma recém-chegada, hesitou. — Senhora… não seria melhor descansar da viagem? Podemos preparar um chá… Ela o cortou com um sorriso doce e os olhos frios: — Eu prefiro ser ouvida antes do chá. Reúna todos. Salão principal. Dez minutos. Dom, encostado na lateral do carro, cruzou os braços e assistiu em silêncio. A mulher que caminhava em direção às escadas da mansão não era a mesma que ele deixara no quarto do hotel na noite anterior. Era uma força nova, vibrante, desafiadora. E ele não sabia se isso o irritava ou o excitava. Minutos depois, os funcionários estavam todos reunidos no salão principal — seguranças, cozinheiros, arrumadeiras, jardineiros, motorista e até o homem responsável pela adega. A tensão era palpável. Eleonora surgiu no topo da escada, vestida em um conjunto claro, cabelo solto, e a postura de quem vai assumir a presidência de uma empresa… ou de um império. — A partir de hoje, algumas regras da casa vão mudar. — disse, com calma. — Sei que estou chegando agora, mas também sei o que significa ter uma casa. E esta… será a minha. Ninguém ousou interromper. — Quero café da manhã servido às nove. Flores frescas no hall principal todos os dias. Nada de carne crua ou sangue à vista nos corredores. E se alguém quiser entrar no quarto do casal — ela olhou para Dom com um leve arqueamento de sobrancelha — deve bater antes. Três vezes. O mordomo pigarreou: — Senhora… temos uma frota de veículos à disposição do senhor Dom Carlo, mas… — Exatamente. — ela disse, sorrindo. — Quero um carro só meu. Preto fosco por fora, bancos cor de caramelo por dentro. Posso mandar a referência, caso precisem. Dom estreitou os olhos. — Um carro? — Claro. Eu tenho compromissos. Além disso, gosto de liberdade. Ou vamos fingir que a boneca do contrato vai ficar aqui trancada como um bibelô? Silêncio. Eleonora desceu um degrau, depois outro, com calma. Ao chegar ao chão, passou por Dom com um leve toque no braço — e uma última frase que só ele ouviu: — Se você quer jogar, Dom… vai ter que aprender a perder. O salão estava silencioso, olhos atentos à jovem que agora caminhava entre eles com a elegância de uma rainha e o olhar afiado de quem sabe exatamente o que está fazendo. Eleonora parou no centro da sala, olhando em volta com calma. Seu tom era firme, mas sua voz transbordava respeito. — A partir de hoje, tudo que envolver esta casa deve passar por mim. Tudo. Desde a organização de eventos até a lista de compras do mês. Quero saber o cardápio, os turnos, as manutenções, as flores da estufa, as roupas da lavanderia. — Ela olhou para o jardineiro com um sorriso gentil. — Até mesmo as plantas. Alguns funcionários trocaram olhares desconfiados. — E mais uma coisa. — disse, erguendo o queixo. — Não quero ser chamada de “senhora”, nem de “madame”. Podem me chamar de Eleonora. Ela deu um pequeno giro, olhando um por um. — E eu quero saber os nomes de cada um de vocês. Porque se vamos conviver todos os dias, quero tratar cada um com a dignidade e o carinho que merecem. Pelo nome de batismo. Houve um pequeno burburinho, surpreso. — E, por favor, não hesitem em me procurar caso haja algum problema. Desde o encanamento com defeito até um m*l-entendido com outro funcionário. Com calma e paciência, tudo se resolve. Só não aceito silêncio, grosseria ou injustiça. Estamos entendidos? Todos assentiram, alguns ainda com as bocas entreabertas, como se não acreditassem na mudança repentina de clima naquela casa. Ela finalizou com um sorriso gentil: — Obrigada pelo tempo de vocês. Agora, podem voltar aos seus afazeres. E amanhã, quero tomar café com todos vocês na varanda. Está bem? Quando os funcionários começaram a sair, ainda sob o impacto da nova energia, Dom permaneceu parado no mesmo lugar, observando cada gesto dela. Eleonora havia acabado de tomar posse da casa… e do jogo.
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