Confissão

505 Palavras
A noite foi longa. Dom não dormiu. A cabeça latejava. O corpo ainda queimava com os ecos do que havia feito. Na manhã seguinte, o silêncio entre ele e Eleonora era quase sólido. Ela preparava o café com os olhos inchados e o coração endurecido. Ele estava sentado à mesa, com as mãos trêmulas, o rosto sombrio. Lorenzo brincava no jardim com os avós, e a mansão parecia normal, viva, cheia. Mas ali, entre os dois, havia um abismo crescendo. Dom levantou-se de repente e fechou a porta da cozinha. Eleonora o olhou, surpresa. A expressão dele era de alguém prestes a desmoronar. — Eu preciso te contar uma coisa — ele disse, a voz baixa, grave, cheia de dor. Ela pousou a colher sobre a bancada, os olhos fixos nele. — O que foi? Ele respirou fundo. As palavras pareciam grudar na garganta, mas ele sabia que não podia continuar fingindo. — Eu… te traí. Silêncio. Por um segundo, ela não processou. Depois, os olhos se arregalaram, e o rosto perdeu a cor. — O quê? — Foi um erro. Um deslize. Uma fraqueza — ele disse, aproximando-se. — Eu não sei por que estou te dizendo isso agora. Mas preciso ser honesto. Ela deu um passo para trás, como se ele fosse tóxico. Como se cada palavra dele fosse ácido. — Quando? — a voz dela saiu tremida, quase infantil. — Pouco antes dos meus pais chegarem. Eu fui até a cidade resolver umas coisas e… aconteceu. — Com quem? — Isso não importa. Não vai se repetir. Eu… — Com quem, Dom? — ela gritou, com a voz carregada de lágrimas e incredulidade. — Quem foi? Alguém que trabalha aqui? Alguém que eu conheço? Ele hesitou por meio segundo. E isso bastou. — Foi, não foi? — ela perguntou, ofegante. — Foi alguém da casa… da mansão. Eleonora virou-se e bateu a mão com força sobre a pia, onde a xícara se espatifou no mármore. — Eu não acredito que fiz amor com você, que me entreguei a você, duas semanas atrás, cheia de medo, cheia de sentimentos confusos… pra isso? Dom se aproximou e segurou os ombros dela. — Eu errei. E estou tentando consertar. Você é minha esposa. Eu… eu me importo com você. Ela o olhou com os olhos marejados. — Você não me ama. Ele não respondeu. — E está me dizendo isso agora por quê? Porque está arrependido… ou com medo de ser descoberto? A resposta pairou no ar. E ela entendeu tudo. — Você não contou tudo, né? Tem mais coisa. Tem um motivo pra você ter casado comigo às pressas, pra viver nessa mentira. Eu não sou i****a, Dom. Eleonora afastou-se, os olhos ardendo. Mas não gritou. Não desabou. — Você quebrou o contrato, Dom. Mas mais do que isso… você quebrou a única parte dele que me fazia acreditar em alguma verdade entre nós. Ela saiu da cozinha em silêncio, com os ombros retos e a cabeça erguida. Mas por dentro, estava em ruínas.
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