Tiro os saltos que calçava, caminhando pelo apartamento.
Antes da sala de jantar, em um aparador, havia diversos porta-retratos. Katerina aparecia na maioria abraçada ou beijando Adela, os demais eram de Aide recém-nascida e seus aniversários ao longos dos anos.
Aide estava longe do que havia imaginado, não se parecia com Katerina, a não ser pela cor do cabelo. A pele parda, os olhos meramente puxados e redondos e, o sorriso largo, com certeza deveria ter herdado do pai. Se é que Katerina sabia quem era o pai da menina.
Continuo caminhando passando pela sala de jantar com uma mesa rústica de madeira de quatro cadeiras, decorada com mais dois quadros.
A direita a cozinha em um espaço retangular, armários marrons imitando madeira, uma pia de inox repleta de louça suja e uma janela pequena que tinha como vista um beco. A esquerda a área de serviço com umas pilha de roupas, esperando ser colocada na máquina de lavar.
Hesito em girar a maçaneta da porta entre a cozinha e a área de serviço, ao ler um aviso de não perturbe com marcas de dedos com tinta, decidindo por fim abrir a porta que dava a um cômodo repleto de cavaletes e telas por toda parte.
Adele pintava um quadro pela metade, em tons de azul, vermelho e amarelo com a expressão séria.
Por alguns segundos sustenta meu olhar, antes de seguir pintando.
Noto alguns quadros no qual Katerina havia servido como modelo, praticamente nua em alguns ou com um fino lençol vermelho cobrindo parte do corpo.
Havia muitas telas como esta, Katerina estando em diversas posições, com um brilho duvidoso no olhar que somente ela tinha.
Adela termina o vinho em sua taça, pegando a garrafa vazia atrás de mais.
- Deveria beber tanto assim?
Ela me olha novamente, inclinando a cabeça para o lado, estreitando os olhos.
- Pensei que estava morta, como sempre - murmura colocando a taça ao lado da garrafa, sob o tamborete – Minha ansiedade atacou e precisava ficar bem para Aide.
Engulo em seco, percebendo que não era a primeira vez que Katerina “sumia".
-...me desculpe – digo em um tom baixo, fazendo -a franzir o cenho – Não queria...fui irresponsável – balbucio.
Eu acreditava que talvez fosse estas palavras que Katerina gostaria de dizer, se tivesse mais uma chance, para falar com Adela. Era evidente o esforço que Adela estava fazendo para se manter “bem" e otimista.
Ela inspira profundamente, tenho a impressão de que era o que queria ouvir, ajeitando por fim alguns fios de cabelo que caiam sobre o b***o.
- Tenho que ir buscar Aide – diz por fim – Irá estar aqui pelo menos quando eu voltar?
Pisco sem entender a pergunta, assentindo por fim.
- Obviamente.
Ela dá um meio sorriso, se aproximando o bastante para afagar meu rosto e continuar andando.
Adele apenas pega a bolsa no sofá e deixa o apartamento em poucos segundos.
Deixo os saltos e a bolsa de Isso, decidida em fazer algo de útil sendo Katerina.
Coloco a roupa para lavar, lavo a louça e meio por fim ainda começo a fazer o jantar.
Estava na metade do processo, quando ouço a porta abrir novamente e passos rápidos pela sala de estar.
- Tenho uma surpresa para você – diz Adela, enquanto me aproximo.
- Vamos ao parque?
- Hoje não – Adela suspira – Adivinha quem está aqui?
Entro no campo de visão de ambas, vendo um sorriso surgir no rosto de Aide.
- Kat! – Quase grita, correndo em minha direção.
Ela me abraça com força, permanecendo algum tempo com os braços em volta do meu pescoço.
- Está cozinhando? – Adela pergunta de repente.
- Hã. Sim. Macarronada – digo me afastando de Aide.
- Adoro macarronada! – diz Aide.
- Vá lavar ás mãos – diz Adela, Aide assenti, obedecendo – Estou surpresa de ter lembrado do prato favorito dela – Caminhamos juntas para a cozinha.
Toda criança gosta de macarrão, penso.
- Está querendo se redimir? – Ela nota a roupa estendidas e a cozinha limpa.
- Talvez.
Ela sorri.
- Está conseguindo.
Durante o jantar percebi que Aide era uma criança elétrica, tradicional, gostava de conversar, contar histórias e a todo instante estava sorrindo. O que me fez pensar, que papai ficaria maravilhado ao conhecê -la.
No término do jantar Adele me ajuda com a louça.
- Eu a coloco pra dormir – digo quando caminha em direção aos dormitórios.
Ela sorri com a expressão cansada, passando por mim.
Sigo a luz que saia de um quarto em frente ao quarto que Adele havia entrado, encontrando um quarto completamente lilás.
Aide brincava ajoelhada em frente a uma cada de bonecas.
- Tinha uma dessas quando era criança – comento me aproximando, franzido o cenho ao reconhecer a maioria dos bonecos e a tinta gasta.
- Você disse que era sua , Kat, lembra? – Pergunta com o cenho franzido.
Finjo me lembrar.
- Tinha esquecido.
- Você me deu no meu aniversário do ano passado – Ela ajeita a pequena boneca no quarto rosa – O que me dará no meu outro aniversário, Kat?
- É surpresa – digo sem saber o que dizer – E...Por quê não me chama de mãe?
- Você disse para chamar você de Kat – diz distraída com outra boneca.
Por alguns instantes observo Aide, tentando entender a relação de mãe e filha que Katerina havia construído.
- E você também disse que tenho duas mães. Você e a Adel – Ela continua sorrindo.
Sorrio de volta.
- Está na hora de ir para cama. Amanhã você tem aula – Ela obedece, entrando em baixo das cobertas – Tenha bons sonhos.
- Kat – chama quando estou na porta, paro olhando-a – Você não vai embora, não é?
- Não.
Ela dá um meio sorriso, virando para o lado da parede. Saio do quarto fechando a porta atrás de mim, adentrando no quarto à frente, cuja a parede da cabeceira da cama era vermelha e a única também.
Parecia que o quarto havia sido dividido, pois havia um grande contraste desde de decoração á cores. Enquanto aparentemente, Katerina gostava do que era chamativo e “luxuoso”, Adele era mais simples.
Adele sai do banheiro vestida em uma camisola bege.
Dou um meio sorriso, fingindo me preparar para tomar banho, mesmo não sabendo onde ficava as roupas de Katerina.
- Por onde esteve nestes últimos dias, Katerina? – pergunta num tom que exalava curiosidade.
Engulo em seco, respirando pelos lábios entre abertos.