Revelações

1375 Palavras
Comentei Edgar Allan Poe durante o almoço, isso gerou um certo entusiasmo em você. _ Olha só quem está se revelando! Você gosta de contos de horror. Fala mais? _ Pergunta o que você quer saber. _ Comida preferida? _ Macarronada a bolonhesa. _ Filme? _ E o vento levou. _ Não brinca _ protestou. Gargalhei _ Estou falando sério. _ Tá. Romance? _ Romeu e Julieta, sempre. Fez uma careta em protesto. _ Por que não? Qual é o seu romance preferido? _ O Morro dos Ventos Uivantes. _ Dramática! _ censurei para provoca-la, mas é claro que se equivale ao drama sheakespeariano. Você jogou uma batata frita em mim e, eu peguei e comi. _ Qual é o seu signo? _ Eu não faço ideia. _ Como assim? _ Eu não sei quando eu nasci. Não tive pais, lembra? _ Sério? Você nem os conheceu? _ Não _ sorri _ É possível que eu tenha brotado, como uma árvore _ brinquei. _ Isso não perturba você? _ Não perco o meu sono pensando no passado. Você pareceu se doer por minha história triste. Continuei _ Pode parar com isso, por favor? Desconcertada sorriu _ Com o que? _ Com essa expressão de tristeza por nada. Eu sou feliz. Até tenho a namorada mais linda do mundo, mas só quando sorri. Você sorriu corando. Continuei _ Aí. Me diz o que você vê de tão extraordinário no Heathcliff? _ mudei de assunto. _ Ele ama acima de tudo. _ Eu te amo acima de tudo _ declarei, mas você levou na brincadeira. Ah, se você soubesse! _ Agora me diz, qual é o seu lance com Romeu e Julieta? _ Não é óbvio? _ Não me diga que é o amor sacrifício? _ Não mesmo _ ri do seu ponto de vista _ É a lealdade. Você fez silêncio pensando no assunto _ Você acha que existe alguém que seja tão leal? _ Acho? Não, Madu. Eu sei que existe. Seguimos até uma praça pública com brinquedos e eu te empurrei no balanço. O parque estava vazio, porque as crianças foram almoçar. _ Quando eu vou conhecer o Morris? _ Quer conhecê-lo? _ estranheza simulada na minha expressão. _ Claro que quero. _ Certo. Então vamos _ fiz o balanço parar aos poucos. _ Agora? _ É sempre a melhor hora. _ Não sei se eu estou bem para conhecer ele. _ Você está sempre ótima. Seu cabelo assanhado, usando calcinha e camiseta pela manhã, é o seu visual que eu mais gosto. _ Pervertido _ brincou. _ Eu sou sincero. Chegamos a duas quadras da livraria. Abri a porta com a minha chave para entrarmos. _ Olá, Morris _ alertei da porta para que ele me ouvisse. _ Daniel! Na cozinha _ respondeu no mesmo tom. _ Trouxe uma visita _ avisei antes de você entrar na porta _ A Madu é minha namorada. _ Você é mais linda que a outra _ apertou a sua mão. _ Obrigada. É um prazer conhecer o pai do Daniel. _ O Daniel é um rapaz de ouro _ ele me vendeu para você. _ Olá! Eu estou aqui _ odeio quando falam de mim como se eu não estivesse presente. O Morris fazia chá de hortelã e todos bebemos uma xícara enquanto vocês conversavam sobre a minha infância. Me distanciei um pouco. Fui olhar o estado dos livros na estante. Estavam impecáveis. O Morris era perfeccionista e me ensinou tudo o que sabia. Tudo o que sou, eu devo à ele. Imagens de castigos que recebi quando era desleixado me vinham a mente. Aquela casa não me trazia nada de bom. As visões ficaram confusas e apenas o vermelho se destacava. O vermelho nos meus pensamentos me levou para os seus lábios. Olhava para eles quando Morris perguntou algo que eu não ouvi. _ Quando eu terei netos? _ repetiu a pergunta. Sorri desconcertado e te olhei como um pedido de socorro. _ Se tudo continuar indo bem, em breve. Sua resposta me surpreendeu. Você estava mais disposta do que eu imaginei. O Morris ficou muito feliz com essa resposta. _ Madu _ soei o receio que sentia, quando caminhávamos para casa. _ Pode falar. _ Não tenha filhos. O seu olhar era analítico sobre mim _ Tudo bem, Daniel. Eu só falei por falar _ mentiu. Você mente m*l, Madu. É claro que você quer filhos. O difícil é não querer. Acho que eu dei um tiro no meu próprio pé. Chegamos em casa e, você foi direto para o banheiro. Demorou lá e saiu com os dentes escovados. Eu fiz o mesmo no banheiro térreo, mas não demorei. Liguei a tevê em um programa sem graça, deitado no sofá. O seu celular estava no forro do banheiro acima da privada. Era um ótimo esconderijo. Voltei para o banheiro e tranquei a porta. Lá no quarto, você conversava com as suas amigas sobre o quanto eu era maravilhoso. Parece que eu estava paranoico afinal. Eu não tenho um face, i********: ou twiter meu de verdade, apenas um perfil falso que eu montei há muito tempo. Essas coisas te deixam muito vulnerável. Atrai um público indesejado e, pode facilmente encrencar a sua vida. Watssap por outro lado, é algo mais particular sobre o qual você tem total controle. Eu tenho um watssap, como você bem sabe. Guardei o seu celular e fechei o forro meticulosamente. Você me viu sair do banheiro, e foi para a cozinha. Segui para a cozinha fingindo querer sorvete para tentar quebrar o silencio entre nós. Você olhou o pote, mas hesitou. _ Você quer? Pega uma taça. Eu te sirvo. Você se rendeu. É uma boa menina. Prefere ficar em paz, do que começar uma guerra por nada. Peguei a taça forçando o toque das nossas mãos. O seu olhar veio para o meu instantaneamente. _ Eu não quis dizer aquilo. Não exatamente. É que é cedo para pensar nisso. Consegue me entender? Você balançou a cabeça afirmando, mas não estava tudo bem ainda. Te abracei beijando os seus cabelos _ No futuro, daqui há uns anos quando estivermos estabilizados financeiramente, podemos pensar em um casal, talvez? Você levantou os olhos para os meus com algo de terno no rosto e, um brilho especial no olhar. Sorri e você retribuiu. Agora sim. Comemos sovete assistindo um filme francês com restrição de faixa etária. Você adormeceu sobre o meu peito e, eu não poderia estar mais feliz. Eu tive um sonho quando adormeci. Eu estava na casa do Morris com a Bella. Ela estava grávida de poucos meses e do ventre brotava sangue ao mesmo tempo em que a gargalhada do Morris ecoava pela casa. No instante seguinte, a sua imagem tomava o lugar da imagem da Bella e você estava morta diante do meu olhar ao som da gargalhada do Morris. O meu despertar súbito te acordou também. O seu olhar curioso sobre o meu rosto me faz pensar em como eu parecia para você. _ Você está bem? _ Sim _ menti. _ Tem certeza? Você está gelado. _ Foi só um sonho r**m _ desconversei. _ Quer falar sobre isso? _ Não quero reviver o meu pesadelo, linda _ sorri ajeitando uma mecha de cabelo atrás da sua orelha _ Vamos falar sobre você. Qual é a sua comida favorita? _ Macarrão com queijo. _ Qual é o seu signo? _ Câncer. _ Isso explica muita coisa. _ O quê? _ A sua doçura, carência, fogo, charme, carisma, sensibilidade, beleza, carinho, cuidado... Quer que eu continue? _ Você esqueceu dos defeitos. _ Você não tem isso. _ O amor é cego. _ O amor apenas tem uma visão mais ampla, onde os defeitos também são qualidades. _ Você é um romântico, Daniel. _ Se sou, descreva-me? _ Você é um cavalheiro, prestativo, íntegro, gentil, romântico, amável, carinhoso, educado, articulado, inteligente, ardente e lindo. Te ouvir me dizer essas coisas fez o meu corpo arder de desejo. Eu nunca pensei que você me visse assim, era mais do que eu pedi algum dia. Beijei os seus lábios totalmente levado por você, que se deixou levar por mim. Assim entramos novamente no rotineiro ciclo de prazer ao qual estávamos acostumados.
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