Segredos e Pressões

1244 Palavras
Olivia caminhava pelas ruas tranquilas do bairro, tentando afastar as imagens que a assombravam desde a noite do seu noivado. A brisa suave da primavera trazia um perfume de flores que, antes, teria lhe trazido alegria. Mas agora, era apenas um lembrete do quanto sua vida estava prestes a mudar de forma irrevogável. Um misto de felicidade e apreensão dominava seus pensamentos. Ela precisava de um desabafo, alguém em quem pudesse confiar plenamente, e só havia uma pessoa que poderia preencher esse espaço: Ana, sua melhor amiga desde a infância. Com um impulso decidido, Olivia ligou para Ana, que prontamente aceitou se encontrar com ela. Ao chegar ao café onde costumavam se encontrar, Olivia sentiu uma onda de nostalgia. Os lugares tinham um jeito de falar sobre a vida que construíram juntas, repletas de sonhos e promessas de um futuro brilhante. Mas agora, as memórias eram tingidas com a cor da traição e do engano. — Oi, querida! — Ana exclamou, abrindo os braços para um abraço caloroso. — Estou tão feliz em te ver! Olivia retribuiu o abraço, mas havia um peso em seus ombros que parecia impossível de ser aliviado. Elas se sentaram em uma mesa perto da janela, e Olivia observou as pessoas passando, cada uma com sua própria história, sem saber o que se passava dentro dela. — Então, como se sente depois de ontem? — Ana perguntou, com um sorriso ansioso. — Você deve estar nas nuvens! Olivia hesitou, a alegria que Ana esperava não estava lá. A verdade é que ela sentia um burburinho de ansiedade e angústia. Ela tinha que ser cautelosa. — Foi… diferente do que esperava — Olivia respondeu, evitando olhar diretamente nos olhos de Ana. — Todos estavam felizes, mas eu… não sei. Não sinto que estou realmente pronta para isso. Ana franziu a testa, preocupada. — O que você quer dizer com isso? Você está apaixonada por Edmundo, certo? — Sim, claro, eu gosto dele — Olivia respondeu, forçando um sorriso. — Mas… eu só… tenho uma sensação estranha. Olivia decidiu que era hora de abrir seu coração, mesmo que em partes. Ela não podia compartilhar tudo, especialmente a verdade sobre seu renascimento, mas havia algo sobre Edmundo e Érica que a atormentava. — Eu estou desconfiada de que Érica e Edmundo têm um caso. Ana estava confusa. — O sei noivo e a sua irmã...juntos? Olivia respirou fundo. As memórias da traição vieram à tona, mas ela se esforçou para manter a voz firme. — Desde sempre que sinto que ela não me quer por perto. Não é só ciúmes de irmãs… Eu tenho a impressão de que ela tem algo contra mim. E Edmundo parece estar mais próximo dela. Ana inclinou-se para frente, seu rosto expressando preocupação genuína. — Você está falando isso porque tem medo de perder espaço na vida dele ou realmente acha que eles estão tendo um caso? Olivia balançou a cabeça. — Eu não tenho provas mas eu acho mesmo que eles têm um caso. É como se houvesse um segredo que eles compartilham, e isso me faz sentir desconfortável. — Não pode ser só insegurança sua? — Ana sugeriu, mas havia um tom de dúvida na voz dela. — Talvez — respondeu Olivia, não podendo contar à sua amiga que tinha vivido essa traição numa vida anterior — Mas eu não posso ignorar o que sinto. Algo não está certo... O olhar de Ana se suavizou. — Então, você precisa confrontar isso. Não deixe que esses sentimentos te consumam. Confie em Edmundo, ou se isso não for possível, fale com ele. A comunicação é a chave, você sabe disso. Olivia agradeceu a Ana por suas palavras encorajadoras, mas a ideia de confrontar Edmundo a deixava nervosa. Ele tinha uma forma de se impor, fazendo parecer que ela estava sendo irracional. No fundo, sabia que precisava ser cuidadosa porque não tinha provas de nada...ainda. A conversa prosseguiu, com Ana tentando levantar o ânimo de Olivia, mas a preocupação com Edmundo e Érica persistia em sua mente. A pressão de manter as aparências crescia, e Olivia sabia que estava apenas no começo de um jogo perigoso. *** Na manhã seguinte, Olivia decidiu que precisava falar com Edmundo. Ela queria confrontá-lo sobre a maneira como ele agia em relação a Érica, mas não queria fazer isso de forma agressiva. O plano era que a conversa surgisse naturalmente, sem que ele se sentisse ameaçado. Ela queria apalpar o terreno e perceber qual seria a reação dele ao saber que ela desconfiava dos dois. Ela o encontrou no escritório, onde ele estava ocupado com seus e-mails. O ambiente estava carregado de um silêncio que parecia quase palpável. — Oi, amor! — ela disse, tentando transmitir um tom alegre. — Oi! — ele respondeu, sem levantar os olhos da tela. — Posso falar com você por um momento? Edmundo finalmente olhou para ela, e havia um brilho de curiosidade em seus olhos. — Claro. O que há de errado? Ela hesitou. Não queria parecer insegura, mas as palavras pareciam se perder na garganta. — Eu estava pensando sobre o nosso noivado… e, bem, sobre a Érica. A expressão de Edmundo se endureceu um pouco, mas ele rapidamente se recompôs. — O que você quer dizer? — Apenas… você está muito próximo dela. Às vezes, sinto como se houvesse algo entre vocês, e isso me deixa desconfortável. Edmundo sorriu, mas não era um sorriso que tranquilizava. — Não precisa se preocupar com isso, Olivia. É apenas uma relação de irmãos. Você sabe como ela é, sempre tentando chamar a atenção. — Não é apenas isso. Às vezes, parece que você valoriza mais o que ela pensa do que o que eu sinto — disse Olivia, sentindo a raiva subir, gritando por dentro o quanto ele era falso e o odiava por isso. Edmundo a olhou, e a tensão começou a se acumular. — Você está sendo excessivamente sensível. Eu amo você e quero que nosso relacionamento funcione. É só que a Érica será minha família também, e eu tento estar presente para ela, para que tenhamos uma boa convivência como cunhados. "A manipulação", pensou Olivia, a raiva crescendo. Ele a estava jogando contra si mesma, fazendo-a sentir-se errada por ter preocupações válidas. — Eu só quero que você saiba que isso me incomoda — Olivia disse, decidida a não recuar. Edmundo respirou fundo, o que indicava que ele estava se segurando para não explodir. — Está bem. Vou tentar ter mais cuidado. Mas você precisa confiar em mim. Não há nada entre mim e Érica, e nunca haverá. Olivia assentiu, mas sabia que ele estava mentindo e que não conseguiria nada confrontando nenhum dos dois, pois passaria por insegura e ciumenta. A conversa havia terminado e ela teria de agir. Ela precisava de um plano, e isso envolvia mais do que apenas confrontá-lo. De volta a casa, no seu quarto, as lembranças da vida passada a assombravam, e ela sabia que não poderia repetir os mesmos erros. Tinha que ganhar autonomia, não apenas em sua vida pessoal, mas também em relação aos negócios da família. Decidida, Olivia pegou seu celular e começou a escrever anotações sobre como poderia se inserir mais nos assuntos da empresa. Pensou em maneiras de se aproximar do pai, talvez pedindo para participar de uma reunião ou para ajudar em um projeto específico. "Isso me dará mais controle", pensou, e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
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