A noite já estava ganhando ritmo no The Luxe quando notei algo estranho. Edward havia entrado pela porta principal, e, dessa vez... estava sozinho. Quer dizer, sem uma loira no braço, sem uma ruiva rindo alto demais, sem uma morena grudada nele como se ele fosse um troféu. Em vez disso, ele veio com três caras — todos bem vestidos, descontraídos, mas com aquele mesmo ar de privilégio e confiança que Edward exalava sem esforço.
Eles se acomodaram perto do bar, rindo de algo que um deles disse, enquanto Carly imediatamente se endireitou ao lado da máquina de gelo, tentando parecer casualmente sensual.
Meu olhar ficou preso nele por um instante. Edward estava particularmente bonito naquela noite, com a camisa branca dobrada até os cotovelos e o cabelo um pouco bagunçado de propósito. Mas o que realmente me desconcertou foi o fato de ele não estar flertando com ninguém. Ele parecia... presente. Observando o ambiente com atenção.
Então, claro, Travis apareceu.
Com a mesma precisão cirúrgica de antes, ele atravessou o salão e foi direto até a mesa de Edward, como se soubesse exatamente onde deveria estar. Eles se cumprimentaram com um toque de mãos e um sorriso contido. Travis não sorria com frequência — e, quando o fazia, era como se desafiasse o mundo a tentar entender o que aquilo significava.
Eu os observei por trás do balcão, tentando manter o foco no pedido de um cliente, mas meus olhos escapavam constantemente de volta para aquela mesa. Travis parecia diferente entre os amigos. Mais à vontade, talvez. Mas seus olhos não deixavam de me encontrar, mesmo quando ele estava de costas. Ele sabia que eu estava olhando. E fazia questão de deixar isso claro.
— Tá tudo bem? — Carly murmurou ao meu lado, notando minha rigidez.
— Tudo ótimo — menti.
Mas não estava.
Porque Edward, que sempre foi o meu porto seguro naquela bagunça, agora estava rindo com o cara que me fazia sentir como se estivesse nua toda vez que me olhava. E, pela primeira vez, eu senti que não sabia quem estava do meu lado.
Ou pior: que talvez estivesse sozinha ali desde o começo.
O bar estava cheio de risos abafados, copos tilintando e música ambiente preenchendo os espaços entre as conversas. A mesa dos rapazes era o epicentro do barulho — piadas, histórias exageradas, risadas explosivas.
Até que a atmosfera mudou.
— E aí, vocês sabiam que o Travis já foi noivo? — Edward soltou, com aquele tom leve que sempre usava antes de jogar algo pesado e fingir que era brincadeira.
Os amigos olharam para Travis, surpresos, alguns erguendo as sobrancelhas.
— Edward... — Travis avisou com a voz baixa, tensa.
Mas Edward, talvez embalado pelos drinks ou pela necessidade infantil de marcar território, ignorou o aviso e continuou:
— Foi sim. Ia ser pai, inclusive. A noiva dele morreu num acidente... trágico. Estava vindo aqui pro bar, queria fazer uma surpresa. Tava grávida e tudo. Acreditam nisso?
Silêncio. Um silêncio que engoliu a risada anterior como uma onda pesada.
Eu congelei. Minhas mãos apertaram o pano úmido no balcão, o coração batendo forte, como se tivesse ouvido algo que não deveria. Como se tivesse invadido um espaço íntimo demais.
Travis se recostou lentamente na cadeira, o maxilar trincado, os olhos furiosos fixos em Edward com uma fúria contida.
— Cala a p***a da boca, Edward — ele disse, com a voz firme, cortante como uma navalha.
Edward tentou rir, mas a tensão no ar era palpável demais.
— Ah, cara... foi m*l. Só estava tentando contar uma história, relaxa...
— Isso não é história. Isso é minha vida. E você não sabe p***a nenhuma do que foi aquele dia.
Travis se levantou. O movimento foi calmo, mas carregado de um peso perigoso. Ele encarou Edward por mais alguns segundos antes de se virar e atravessar o bar. Seus olhos me encararam por um segundo — e, pela primeira vez, eu vi algo além da frieza. Havia dor ali. Algo cru, sufocado, que ele mantinha enterrado e que agora tinha sido exposto como um espetáculo de circo.
Ele sumiu pelo corredor dos fundos, deixando a mesa em silêncio, e eu fiquei com o peito apertado.
E, de alguma forma, eu sabia — aquela história explicava muitas coisas. Mas também abria novos questionamentos.
Acabar o turno naquela noite foi como emergir debaixo d’água — meus pés doíam, minha cabeça latejava e eu só queria desaparecer. Depois de tudo o que aconteceu com Travis, depois de ver seu rosto fechar completamente ao ouvir Edward falar da noiva morta... tudo em mim parecia deslocado. Eu só queria respirar.
Mas é claro que a paz nunca dura muito.
Assim que saí pela porta lateral do bar, lá estava ele. Edward, recostado na parede como se fosse dono da rua, cigarro entre os dedos e aquele maldito sorriso de canto que ele sempre usava quando queria provocar.
— Olha só quem resolveu dar o ar da graça — ele disse, os olhos dançando sobre mim. — Turno pesado?
Revirei os olhos. — Só um pouco mais infernal do que o normal.
Ele soltou uma risada curta, baixinha. — Infernal combina com você. Esse seu jeito... quente e gelado ao mesmo tempo. Me fascina.
Fiz menção de continuar andando, mas ele se emparelhou comigo. Não tocou, não forçou, só andou ao meu lado, como se fôssemos velhos conhecidos — o que não éramos.
— Você sabe que eu reparei em você antes do Travis, né? — Eu vi a forma como ele olhava...
Parei no meio do passo. Me virei para encará-lo.
— E daí?
Ele deu de ombros, um sorriso mais suave dessa vez.
— E daí que eu sei reconhecer quando uma mulher está se prendendo a alguma coisa que vai quebrá-la. Travis é... bem, ele é uma tempestade. E você parece estar em chamas o suficiente por si só.
A forma como ele disse aquilo — quase gentil, quase verdadeira — me desarmou por um segundo. Mas só por um segundo.
— Isso é sua tentativa de flerte, Edward? Me lembrar que o cara que me protegeu é um desastre ambulante, enquanto você se pinta de abrigo seguro?
Ele soltou uma risada mais franca.
— Claro que não. Eu sou um desastre também. Mas, pelo menos, sou um desastre divertido. Sem promessas. Sem dor.
Havia algo de tentador naquela proposta. Algo fácil. Simples. Mas também superficial. Raso. E eu já estava fundo demais pra fingir que isso era suficiente.
— Boa noite, Edward — murmurei, dando um passo para longe.
— A noite ainda pode ser boa, Emma. É só dizer — ele devolveu, a voz mais baixa, mais próxima.
Mas eu continuei andando. Porque, mesmo com a cabeça confusa, com o coração em pedaços e o corpo em guerra, eu sabia que o que me assustava em Travis era exatamente o que me puxava de volta pra ele.
E Edward? Edward era só uma saída de emergência. E eu nunca fui boa em fugir.