O trajeto até o Hospital St. Jude foi uma tortura silenciosa. O interior do Bentley parecia ter encolhido. Zion estava sentado ao lado de Maya, mas a distância emocional entre eles poderia ser medida em anos-luz. Ele alternava entre ligações ríspidas em alemão e mensagens criptografadas em seu tablet, enquanto Maya observava a própria imagem refletida no vidro escurecido. Seus lábios ainda estavam levemente inchados da intensidade com que ele a possuíra na mesa de carvalho, e seu corpo carregava o peso de uma entrega que ela ainda não conseguia processar.
— Você está muito quieta — Zion disse, sem tirar os olhos da tela. A voz dele era um murmúrio baixo, mas carregado de uma autoridade que exigia resposta.
— Estou pensando no que você disse. Sobre o dinheiro. Sobre o que você fez para chegar aqui — Maya respondeu, voltando o rosto para ele. — Como você consegue dormir, Zion? Sabendo que cada centavo do seu império foi arrancado de vidas alheias?
Zion desligou o tablet com um estalo seco e virou-se para ela. Seus olhos negros brilharam com uma luz perigosa.
— Eu durmo porque sei que, se eu não tivesse feito o que fiz, você estaria chorando sobre um túmulo agora, e não sentada em um carro de luxo questionando a minha moralidade. O mundo não é um jardim de infância, Maya. É um matadouro. Ou você segura a faca, ou você é o gado.
— E Isabella? Ela é a faca ou o gado? — Maya desafiou.
O maxilar de Zion travou.
— Isabella é um erro que eu cometi quando ainda achava que precisava de aliados. Ela é o passado que se recusa a morrer. Mas eu vou enterrá-la, Maya. E vou enterrar qualquer um que tente usar você contra mim.
O carro parou com uma suavidade letal em frente à entrada privativa do hospital. Zion saiu primeiro, sem esperar pelo motorista, e abriu a porta para ela. O toque de sua mão em seu cotovelo era firme, quase como uma algema de veludo.
A ala VIP do St. Jude era um deserto de luxo e esterilidade. O cheiro de antisséptico era tão forte que Maya sentia o gosto no fundo da garganta. Quando se aproximaram da porta da UTI onde Elena Solano descansava, uma figura elegante e dissonante estava parada ali, observando os monitores através do vidro.
Isabella.
Ela vestia um conjunto de seda cor de marfim que parecia brilhar contra a brisa fria do ar-condicionado do hospital. Ela segurava um copo de café com a mesma elegância com que seguraria uma taça de champanhe em Paris. Ao ouvir os passos deles, ela se virou, um sorriso de satisfação pura curvando seus lábios perfeitamente pintados de vermelho.
— Pontuais como sempre — Isabella disse, sua voz ecoando no corredor silencioso. — Olá, Zion. E olá para a pequena sobrevivente. Vejo que ele já a marcou. Esse olhar de... "perdi a minha alma, mas ganhei um orgasmo" é inconfundível.
— Saia daqui, Isabella — Zion sibilou, sua voz vibrando em uma oitava que fez o sangue de Maya gelar. — Eu dei ordens para que você não passasse da recepção.
— Ah, querido, suas ordens são sugestões para quem conhece os seus segredos. Eu sou dona de 10% deste hospital através de uma holding que você esqueceu de monitorar — Isabella caminhou em direção a Maya, ignorando Zion. Ela parou a poucos centímetros, o cheiro de seu perfume floral sufocando a pureza do ambiente. — Você realmente acha que ele a ama, não é? Acha que esse conto de fadas de "órfãos que se reencontram" é real?
— Eu não acho nada, Isabella — Maya respondeu, mantendo o queixo erguido, embora suas pernas parecessem feitas de gelatina. — Eu estou aqui pela minha mãe.
— Sua mãe... — Isabella olhou para o vidro da UTI com um desprezo m*l disfarçado. — Uma mulher adorável, imagino. Uma pena que ela esteja sendo mantida viva com o dinheiro do sangue do meu próprio pai.
Maya sentiu o mundo girar. Ela olhou para Zion, esperando uma negação, um grito, qualquer coisa. Mas Zion estava estático, o rosto transformado em uma máscara de granito.
— Do que ela está falando, Zion? — a voz de Maya saiu fraca.
Isabella soltou uma risada cristalina, mas desprovida de qualquer alegria.
— Conte a ela, Zion. Conte como você sabotou as plataformas de petróleo do meu pai. Conte como você manipulou os sistemas de segurança para causar o "acidente" que o matou e fez as ações da empresa despencarem, permitindo que você as comprasse por centavos. Você não é um gênio das finanças, querido. Você é um assassino com um bom alfaiate.
— Cale a boca! — Zion avançou, agarrando o braço de Isabella com uma força que a fez soltar o copo de café, que se espatifou no chão, manchando o mármore branco de marrom.
— A verdade dói, não é? — Isabella não recuou, apesar da dor que devia estar sentindo. Ela olhou para Maya sobre o ombro de Zion. — Ele matou meu pai, Maya. E agora ele usa a fortuna que roubou de mim para brincar de Deus com a sua mãe. Se você ficar com ele, você é cúmplice. Cada batimento cardíaco daquela mulher lá dentro é pago com o assassinato de um homem.
Zion soltou Isabella como se ela estivesse em chamas. Ele se virou para Maya, seus olhos suplicando por algo que seu orgulho não permitia verbalizar.
— Maya, não é tão simples. O pai dela era um tirano, ele ia destruir o orfanato, ele ia...
— Ele morreu, Zion? — Maya interrompeu, as lágrimas embaçando sua visão. — Ele morreu por causa das suas ordens?
O silêncio de Zion foi a resposta mais ruidosa que Maya já ouvira. O som dos aparelhos de Elena, o bip-bip rítmico, agora parecia o som de uma contagem regressiva para a sua própria destruição moral.
— Eu quero que você saia — Maya disse, sem olhar para Zion.
— Maya, escute-me...
— SAIA! — ela gritou, e o som rasgou o silêncio do hospital.
Zion recuou, a expressão de dor e fúria em seu rosto sendo a coisa mais humana que Maya já vira nele. Ele olhou para Isabella, uma promessa de morte em seu olhar, e depois saiu pelo corredor, os passos pesados desaparecendo na distância.
Isabella aproximou-se de Maya, limpando uma mancha invisível em seu casaco de seda.
— Agora que o monstro foi embora, vamos falar de negócios, querida. Eu tenho os documentos originais da sabotagem. Eles estão em um cofre. Eu posso entregá-los à polícia hoje, e Zion passará o resto da vida em uma cela de segurança máxima. Ou... você pode me ajudar a recuperar o que é meu.
— O que você quer? — Maya perguntou, sentindo-se exausta, como se tivesse envelhecido décadas em minutos.
— Eu quero que você pegue a senha do servidor privado dele. Está gravada em um chip que ele carrega no relógio. Aquele Patek Philippe que ele nunca tira — Isabella sorriu, um brilho de cobra em seus olhos. — Você tem acesso ao corpo dele, Maya. Use-o. Dê-me a senha, e eu deixo você e sua mãe desaparecerem com dinheiro suficiente para nunca mais trabalharem. Recuse... e eu destruo Zion, e o tratamento da sua mãe para no mesmo instante.
Isabella deu um tapinha leve no rosto de Maya, um gesto de condescendência absoluta.
— Você tem 24 horas. Amanhã, no baile de máscaras da prefeitura, você me entregará a senha. Não me decepcione. A honra é um vestido muito bonito, Maya, mas ele não aquece ninguém em um necrotério.
Isabella afastou-se, seus saltos ecoando como tiros no corredor. Maya ficou sozinha, encostada no vidro da UTI, observando a mãe. Ela sentiu a náusea subir por sua garganta. Ela estava presa entre dois demônios. Um que a amava com uma possessividade assassina, e outro que queria usá-la para uma vingança fria.
Ela pensou no calor do corpo de Zion sobre o seu naquela manhã. Pensou na forma como ele a preenchera, como se estivesse tentando preencher o vazio de sua própria alma através dela. Detalhe: Ela ainda sentia a pressão interna, a forma como ele entrava nela com uma urgência que agora ela entendia: era o desespero de um homem que sabia que seu império de vidro estava prestes a estilhaçar. Ele não entrava nela apenas para sentir prazer; ele entrava nela para se esconder do mundo que ele mesmo criara.
Maya deslizou até o chão, as mãos escondendo o rosto. Ela tinha 24 horas para trair o homem que a salvara ou condenar a mãe à morte.
O preço da honra acabara de subir para um valor que ela não sabia se podia pagar.