O relógio da parede marcava três da manhã. Rosa estava sentada no chão frio da cozinha, com uma caneca de chá quente entre as mãos trêmulas. O líquido já não fumegava, e o calor há muito desaparecera — mas ela permanecia ali, presa no tempo, no espaço, e nas lembranças que vinham como ondas geladas, quebrando contra seu peito. A ausência de Caio parecia gritar pelas paredes. Desde que ele saíra daquela maneira contida, como um homem fugindo de si mesmo, Rosa sentia como se o mundo tivesse mudado de eixo. As plantas pareciam mais silenciosas, o ar mais pesado, os dias mais longos. E agora, sozinha na madrugada, as memórias voltavam como se tivessem sido libertadas pelo vazio que ele deixara. Ela tentou empurrar para longe aquela dor antiga, mas não conseguiu. Aquela lembrança tinha raízes

