Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Não tinha culpa alguma em ser bonita. Isso pode até soar narcisista, mas eu realmente não pedi para nascer a deusa do amor e do sexo.
Minhas irmãs discordavam disso. Tanto que agora se encontravam do outro lado do salão do Olimpo, cochichando e olhando para mim. Me retraí com os olhares de Hera e Atena. Isso me magoava um pouco. Atena era uma das deusas que eu mais admirava pela inteligência e beleza, e me espantava vê-la se envolver com alguém como Hera.
— Por que se esconde aqui? Só de ouvir aquela voz, um arrepio percorreu minha pele.
— Não é da sua conta — respondi baixo.
— Devia responder melhor ao seu marido. Revirei os olhos e encarei aqueles dois olhos verdes que se destacavam na pele n***a de Hefesto.
— Não somos casados, eu já te disse isso um milhão de vezes. Ele inventou essa história de que se casou comigo e que eu vivo em adultério. Como já não gostam muito de mim, acreditaram facilmente. Além de adúltera, sou vista como uma maníaca do sexo, coisa que o próprio Hefesto fez questão de espalhar.
— Não é o que os outros sabem. Ele sorriu de um modo medonho. Hefesto era lindo, lindo de morrer, qualquer uma gostaria de ficar com ele. Mas, infelizmente, ele criou essa fixação em mim. Agora sofro com essa perseguição infernal, e todo deus com quem me envolvo acha que estou cometendo adultério. Isso deixa as coisas mais "picantes" para eles. Desde então, não me envolvo com mais nenhum deus.
— Você me dá nojo — murmurei, saindo de perto dele. Estar ao lado dele me causava calafrios. Eu queria me libertar dessa maldição, queria ser horrível, para pelo menos ter uma vida em paz.
Um murmurinho ecoou no salão. Ao passar pelos outros deuses, percebi que era uma briga.
— Já te disse, você não passa de um acumulado de músculo! Apolo berrou, e então vi quem era o alvo: Ares. Ah, céus, isso não terminaria bem.
— Vai cuidar desse seu cabelo engomadinho, seu i****a afeminado. Posso ser um acúmulo de músculo, mas eu vou para a guerra, não para ficar fazendo graça com um arco!
Eu realmente admirava Ares pela coragem. Ele nunca foi bem visto. Na verdade, todos achavam que Ares era apenas um deus briguento e m*l-educado. Por onde passava, causava confusão. Eu simpatizava com ele, mas era difícil acreditar em sua inocência quando ele puxava a maioria das brigas.
— Nem sempre em uma guerra se usa violência, seu burro. Inteligência e estratégia servem para isso. Atena está de prova: nunca perdemos uma guerra com ela na liderança.
Ares cruzou os braços e sorriu, seus olhos verdes faiscando.
— Eu quero que você e a tonta da Atena vão para o Tártaro. Melhor: quero que vocês vão é se fo...
Antes que terminasse o palavrão, um trovão ecoou e um raio cortou a sala. Gritos se espalharam quando Zeus apareceu no topo da escadaria. Seus olhos azuis pareciam duas faíscas de relâmpago.
— Chega! — ordenou. — Por que sempre que há confusão você está no meio, Ares?
Ares revirou os olhos, bufando. Eu ri baixo da ousadia dele.
— Não tenho culpa. Não faço questão de interagir com vocês, mas sou um deus. Tenho que vir a essa merda de Olimpo, e você acha mesmo que vou ouvir calado os insultos desses babacas? Sonha.
Coloquei a mão na boca. No fundo, eu tinha inveja. Ele falava o que queria e não se importava com as consequências.
— Ares, maneire no vocabulário. Zeus não o desafiava; na verdade, tinha respeito por ele. Mas como o restante do Olimpo não o suportava... — E por que estão perdendo tempo aqui? Que eu saiba, é primavera. Vocês deviam estar na Terra.
Suspirei aliviada. Quanto mais tempo eu passava longe do Olimpo e das bocas maldosas dos deuses, melhor eu ficava.
— Bem, se me derem licença... ou não, tanto faz. Ares colocou seu elmo e empurrou todos que atrapalhavam seu caminho. O segui com o olhar e suspirei. Se eu tivesse ao menos um terço da coragem de Ares, metade do Olimpo não me judiaria.
— Vamos, todos saiam daqui. Acabou o show. Zeus ordenou, e assim todos se dispersaram pelo salão.
Cheirei as flores que Perséfone me cedeu para fazer buquês. Era incrível como os humanos gostam de agradar suas parceiras quando estão apaixonados.
Quando eu estava em Atenas, costumava ter minha lojinha de adornos e flores, além de perfumes. Cada item tinha um toque especial que eu dava, dependendo do pedido do cliente. Eu ajudava na medida do possível, sem muita intervenção com poderes.
Ouvi um murmurinho de briga. Saí da loja e fiquei na porta, observando de longe. Dois homens discutiam, aparentemente por motivo nenhum. Me aproximei um pouco, mas não entendia muito o que diziam, já que gritavam um com o outro. No canto de um bar, vi alguém se divertindo com a situação. Não era um homem comum: era Ares.
O cabelo estava solto, diferente do que usava no Olimpo. Era um tom de loiro escuro, bem cuidado. Seus olhos eram verdes, mas não como os de Hefesto. Eles eram elétricos, brilhantes, e cintilavam com a diversão que a briga proporcionava. Ele era enorme, ou talvez os humanos fossem baixos demais perto dele. Quando cruzava os braços, os músculos inflavam, mostrando sua imponência mesmo sob roupas simples de camponês.
Ele percebeu meu olhar e ergueu as sobrancelhas.
— O que foi? — perguntou de longe.
Suspirei. Sabia que havia dedo dele ali, mas não o acusaria sem provas. Me aproximei dos dois brutamontes e coloquei a mão sobre o ombro de um deles, que logo relaxou.
— Senhores, posso saber o motivo da briga? — perguntei em tom amistoso.
— Este homem me acusa de roubo.
— Porque você roubou, seu ladrão de meia tigela!
Segurei delicadamente o pulso do vendedor, que suspirou e relaxou.
— Tem certeza disso? — perguntei.
— Queria pegar seis maçãs e pagar o preço de quatro. Vi quando ele colocou depois que eu somei.
Olhei para o outro, que parecia envergonhado.
— Não tinha dinheiro para mais maçãs... eu confesso que trapaceei.
Suspirei e assenti.
— Creio que seja para uma boa causa.
— Para minha família.
Peguei minha bolsa de moedas e entreguei ao vendedor.
— Acho que isso já serve para cobrir os gastos, não? Ele assentiu. — Prometa que não fará mais isso.
O homem concordou. Pedi que se desculpassem e ambos o fizeram. Sorri.
— Obrigada pelo dinheiro.
— Não há de quê.
Voltei para minha tenda, mas logo senti a presença de Ares ao meu lado.
— Acha que fui eu.
— Não te acusei de nada, até onde me lembro.
Ele riu sem humor.
— Seus olhos me acusaram. Vi como me olhou.
— Só achei curioso você estar perto de uma briga... e se divertindo muito com ela.
Ele sorriu de lado.
— Sou o deus da guerra, não dessa baboseira de amor. Claro que me divirto com essas coisas. E não, dessa vez eu não botei lenha na fogueira.
— Não te acusei de nada, já te disse.
Ele se encostou na porta.
— Não acharia r**m. Metade, ou quase todo o Olimpo, pensa isso de mim. Suspirei, arrumando minhas coisas.
— Pois bem, se não sabe, minha reputação também não é das melhores. Então eu não tenho moral para falar de você. Ele me encarou por alguns minutos e balançou a cabeça.
— Você tem uma coisa chamada boca, e precisa usá-la pra se defender. Se continuar quieta, todo mundo vai continuar te julgando. O olhei envergonhada.
— Não sou assim, que nem você. Revirei os olhos.
— Enquanto demonstrar medo, eles vão te atormentar. Apoiei meus braços no balcão com um sorriso sarcástico.
— Engraçado... você sempre responde, e mesmo assim eles te tiram do sério. Não parecem ter tanto medo assim de você. Ele fechou a cara e ergueu as sobrancelhas.
— Ok, eu desisto. Fique aí com sua inocência fingida ou sei lá... às vezes você só é retardada mesmo. Abri a boca, indignada.
— Não sou retardada, seu grosseiro! Ele riu, me dando as costas.
— Eu te chamo de retardada e você rebate com "grosseiro"? É... acho que você é retardada. Fechei os punhos.
— Peça desculpas agora. Ele colocou a mão no bolso e, com a outra, apontou o indicador em círculos.
— Essa baboseira que você faz aí, de enfeitiçar com suas melosidades e coisa e tal, não funciona em mim. Sabe por quê? Ele fez concha com as mãos em volta da boca para ninguém ver. — Eu sou um deus, se esqueceu? Sussurrou e, em seguida, fez um sinal de "louca" para mim antes de sair rindo.
— Eu te odeio! gritei para ele, tomada pela raiva. Ele apenas levantou o polegar sem me olhar.
— Entra na fila, maluquinha! gritou de volta. Pela primeira vez, eu quis cometer uma agressão física.