Capitulo 2

843 Palavras
Olhei para Ares da minha tenda e, pela primeira vez na vida, imaginei se ele poderia morrer enfiando a espada nas próprias costas. Quando descíamos à Terra, geralmente nos misturávamos. Como Ares não tinha muita inteligência, ficava responsável pelas espadas dos guerreiros. Eu sabia que, com certeza, ele dava uma "forcinha" extra quando o comprador era devoto dele. Assim que terminava uma espada, ele a testava, e eu rezava por tudo que era mais sagrado para que a lâmina caísse e cortasse alguma parte do corpo dele. — Por que está olhando assim para Ares? Dei um pulo, sem perceber que Perséfone havia acabado de entrar na tenda. — Por nada. Voltei a mexer nas coisas para disfarçar meu ódio, mas esqueci que, há séculos, Perséfone era casada com Hades. Esconder algo dela seria difícil; ela se tornara bem ardilosa convivendo com ele. — Captei um ódio... coisa rara vindo de você. Suspirei, deixando as coisas de lado, e a encarei. Malditos olhos azuis que assustavam qualquer alma. — Ele é arrogante, sem educação, malcriado e grosseiro. Não é à toa que não fica com ninguém. Ela ergueu as sobrancelhas em espanto e olhou para ele. — Ah, ele pode ser um monte de músculos, desprovido de inteligência... mas até que agrada os olhos. Revirei os meus. — Hades é mil vezes mais bonito que ele. Ela sorriu de canto. — Sim, mas Ares é um pecado na Terra também. Olha só como move essa espada, faz parecer simples. Realmente, o desgraçado tinha força, e infelizmente era lindo de morrer. — Deve dar um trabalho na cama. Dei um tapa no braço dela, e ela soltou uma gargalhada. — Perséfone, pelos deuses, se Hades escuta, te mata. Ela estalou a língua. — Para a deusa do sexo, você é bem recatada. Revirei os olhos. — Não é porque sou a deusa do sexo que tenho que ser uma tarada. Ela riu novamente, o que acabou me fazendo rir também. — E todo aquele ritual de sexo em sua comemoração? Tapei o rosto em reprovação. — Você sabe que eu odeio isso. Não aprovo e nem abençoo esse tipo de coisa. Sexo é algo que se deve fazer porque quer, não por luxúria. Isso é função de Dionísio. Ela ponderou e assentiu. — Falando nele... aqueles boatos. Suspirei derrotada. — Hefesto não vai sossegar até me arruinar. Não tenho filhos com Hermes, Dionísio ou sei lá quem ele invente. Ele está pirando, e esses deuses, ao invés de me ajudar, confirmam as histórias desse i****a. Ela me olhou com pena e arrumou as flores recém-colhidas. — Você sabe que precisa começar a se defender, não é? Quanto mais quieta ficar, mais dará motivos para que os boatos pareçam verdade. Antes que eu respondesse, outra voz se sobrepôs. — Curioso... disse isso para ela ontem. Aquele brutamontes estava totalmente suado, com um sorriso devasso me olhando. — Majestade. Disse para Perséfone, que revirou os olhos. — Sempre é bom te ver, Ares. Ele sorriu, piscando. — Eu sei. Como andam as pestes submundanas? Ela arqueou as sobrancelhas e bufou. — Meus filhos têm nome, Ares. Ele deu de ombros e pegou uma uva que eu acabara de colocar. Dei um tapa em sua mão, e ele a devolveu, fazendo careta para mim. — Tanto faz. São medonhos, principalmente aqueles gêmeos. Sua filha mais velha uma vez chegou em mim e disse que eu demoraria para morrer. M-E-D-O-N-H-A. Alguém realmente devia cortar a língua desse atrevido. — Uma pena. A previsão poderia ser "logo você morre". Sorri, e ele revirou os olhos. — Ainda está ressentida por ontem? Parece uma mulher humana cheia de sentimentos. Era inacreditável a falta de inteligência desse homem. — Ela é a deusa do amor, seu i*****l. Ele deu de ombros. — Sou o deus da guerra, e nem por isso estou na guerra 100% do tempo. Suspirei cansada. — Infelizmente, né? Agora saia daqui e vá cuidar das suas espadas. Estou há horas rezando para que uma delas caia e decepe sua cabeça ou algo do tipo. Ele sorriu, cruzando os braços. — Está desde manhã me olhando? Que devoção. Bem que eu senti um cheiro de... Ele começou a inflar as narinas. — Hormônios sexuais voltados para mim. Perséfone riu, mas parou assim que eu a encarei. — Saia daqui, A-G-O-R-A! Berrei, e ele pegou um cacho de uvas antes que eu tomasse dele. — Sabe que isso é falta de sexo, né? Jogou uma uva para cima, pegou com a boca, sorriu e piscou para mim antes de voltar para a tenda das espadas. — Parece estranho, mas vocês se combinam. Olhei para Perséfone como se ela fosse louca. — Agora você? Já deu minha cota de loucos por hoje. Ela riu, pegando a cesta vazia. — Vocês dois fedem a sexo, à distância. Joguei uma uva nela, e ela riu, saindo. Acenou para Ares, que deu tchau com a espada, sorrindo. Voltou a olhar para mim e piscou. Fechei a cara e dei as costas para ele.
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