Olhei para Ares da minha tenda e, pela primeira vez na vida, imaginei se ele poderia morrer enfiando a espada nas próprias costas. Quando descíamos à Terra, geralmente nos misturávamos. Como Ares não tinha muita inteligência, ficava responsável pelas espadas dos guerreiros. Eu sabia que, com certeza, ele dava uma "forcinha" extra quando o comprador era devoto dele. Assim que terminava uma espada, ele a testava, e eu rezava por tudo que era mais sagrado para que a lâmina caísse e cortasse alguma parte do corpo dele.
— Por que está olhando assim para Ares? Dei um pulo, sem perceber que Perséfone havia acabado de entrar na tenda.
— Por nada. Voltei a mexer nas coisas para disfarçar meu ódio, mas esqueci que, há séculos, Perséfone era casada com Hades. Esconder algo dela seria difícil; ela se tornara bem ardilosa convivendo com ele.
— Captei um ódio... coisa rara vindo de você. Suspirei, deixando as coisas de lado, e a encarei. Malditos olhos azuis que assustavam qualquer alma.
— Ele é arrogante, sem educação, malcriado e grosseiro. Não é à toa que não fica com ninguém. Ela ergueu as sobrancelhas em espanto e olhou para ele.
— Ah, ele pode ser um monte de músculos, desprovido de inteligência... mas até que agrada os olhos. Revirei os meus.
— Hades é mil vezes mais bonito que ele. Ela sorriu de canto.
— Sim, mas Ares é um pecado na Terra também. Olha só como move essa espada, faz parecer simples. Realmente, o desgraçado tinha força, e infelizmente era lindo de morrer. — Deve dar um trabalho na cama. Dei um tapa no braço dela, e ela soltou uma gargalhada.
— Perséfone, pelos deuses, se Hades escuta, te mata. Ela estalou a língua.
— Para a deusa do sexo, você é bem recatada. Revirei os olhos.
— Não é porque sou a deusa do sexo que tenho que ser uma tarada. Ela riu novamente, o que acabou me fazendo rir também.
— E todo aquele ritual de sexo em sua comemoração? Tapei o rosto em reprovação.
— Você sabe que eu odeio isso. Não aprovo e nem abençoo esse tipo de coisa. Sexo é algo que se deve fazer porque quer, não por luxúria. Isso é função de Dionísio. Ela ponderou e assentiu.
— Falando nele... aqueles boatos. Suspirei derrotada.
— Hefesto não vai sossegar até me arruinar. Não tenho filhos com Hermes, Dionísio ou sei lá quem ele invente. Ele está pirando, e esses deuses, ao invés de me ajudar, confirmam as histórias desse i****a. Ela me olhou com pena e arrumou as flores recém-colhidas.
— Você sabe que precisa começar a se defender, não é? Quanto mais quieta ficar, mais dará motivos para que os boatos pareçam verdade. Antes que eu respondesse, outra voz se sobrepôs.
— Curioso... disse isso para ela ontem. Aquele brutamontes estava totalmente suado, com um sorriso devasso me olhando. — Majestade. Disse para Perséfone, que revirou os olhos.
— Sempre é bom te ver, Ares. Ele sorriu, piscando.
— Eu sei. Como andam as pestes submundanas? Ela arqueou as sobrancelhas e bufou.
— Meus filhos têm nome, Ares. Ele deu de ombros e pegou uma uva que eu acabara de colocar. Dei um tapa em sua mão, e ele a devolveu, fazendo careta para mim.
— Tanto faz. São medonhos, principalmente aqueles gêmeos. Sua filha mais velha uma vez chegou em mim e disse que eu demoraria para morrer. M-E-D-O-N-H-A. Alguém realmente devia cortar a língua desse atrevido.
— Uma pena. A previsão poderia ser "logo você morre". Sorri, e ele revirou os olhos.
— Ainda está ressentida por ontem? Parece uma mulher humana cheia de sentimentos. Era inacreditável a falta de inteligência desse homem.
— Ela é a deusa do amor, seu i*****l. Ele deu de ombros.
— Sou o deus da guerra, e nem por isso estou na guerra 100% do tempo. Suspirei cansada.
— Infelizmente, né? Agora saia daqui e vá cuidar das suas espadas. Estou há horas rezando para que uma delas caia e decepe sua cabeça ou algo do tipo. Ele sorriu, cruzando os braços.
— Está desde manhã me olhando? Que devoção. Bem que eu senti um cheiro de... Ele começou a inflar as narinas. — Hormônios sexuais voltados para mim. Perséfone riu, mas parou assim que eu a encarei.
— Saia daqui, A-G-O-R-A! Berrei, e ele pegou um cacho de uvas antes que eu tomasse dele.
— Sabe que isso é falta de sexo, né? Jogou uma uva para cima, pegou com a boca, sorriu e piscou para mim antes de voltar para a tenda das espadas.
— Parece estranho, mas vocês se combinam. Olhei para Perséfone como se ela fosse louca.
— Agora você? Já deu minha cota de loucos por hoje. Ela riu, pegando a cesta vazia.
— Vocês dois fedem a sexo, à distância. Joguei uma uva nela, e ela riu, saindo. Acenou para Ares, que deu tchau com a espada, sorrindo. Voltou a olhar para mim e piscou. Fechei a cara e dei as costas para ele.