Narração de Ares
Fazia muito tempo que eu não me importava com a opinião de alguém. Mas depois de séculos de existência, percebi que sim, eu me importava — com uma pessoa só. Infelizmente, essa pessoa era a insolente Afrodite.
Sim, ela é linda. Não, linda não: é uma das deusas mais maravilhosas em quesito beleza do Olimpo. Aquela criatura tem um semblante tão doce e delicado que tenho certeza de que, se eu colocasse as mãos nela, quebraria em um instante. Seus olhos são de um azul cristalino, mais sinceros do que qualquer outro que já vi. Qualquer emoção que passava por eles era decifrável. Inclusive ontem, quando consegui arrancar raiva daqueles olhos doces. Fiquei feliz: afinal, eles não ficaram tão doces assim.
Agora mesmo, quando ela não atendia alguém, me cravava os olhos com um ódio fora do normal. E eu percebia que a deixava ainda mais furiosa quando piscava ou mandava beijos. Isso me fazia rir por dentro, porque eu adorava tirar a paz daquela pequena criatura. Mas não era só a beleza que emanava dela. O jeito como o loiro dos cabelos refletia no sol parecia o próprio sol na Terra. Quando ria alto, sua risada era tão doce e encantadora que todos ao redor se rendiam. Até mesmo o modo de andar: o vestido parecia beijar seu corpo, não de forma vulgar, mas sim encantadora. Fiz careta por ter esses pensamentos. Era estranho. E me irritava.
No fim, acabei me arrependendo de azucrinar a vida daquela mulher. Ela já tinha problemas demais com as merdas que diziam dela. E eu sei bem como é estar nesse lugar.
Em algum momento da tarde, resolvi que estava mais do que na hora de pedir desculpas. Pelo menos assim ela não me mandaria à merda toda vez que eu roubava alguma fruta do cesto dela. Mas, ao me aproximar, percebi que havia outra pessoa com ela. Pela voz, eu sabia bem quem era.
— Nem aqui você me dá paz. Ela parecia irritada, mas não como ficava comigo.
— Eu não vou te dar paz enquanto não se casar comigo. O quê?
— Já te disse, eu não vou casar com você. Não suporto você e tenho nojo só de pensar nisso.
O silêncio que se seguiu me fez agir.
— Hefesto. Bradei, pegando-o pelo pulso que segurava o dela. Afrodite fechou os olhos. — Atrapalho? Perguntei, olhando para a mão dele que apertava o pulso dela.
— Sim. Disse sem soltar. Ergui a sobrancelha com humor. Hefesto podia ser musculoso, fruto das forjas, mas não era páreo para um deus da guerra.
— Sinto muito, continuarei atrapalhando. Senti o calor da briga nas veias, aquele formigamento típico que adormece os membros antes de uma luta. Isso me deixava insensível à dor e me fazia lutar até o extremo. — E acho que não é assim que se trata uma dama. Apontei com a cabeça para o pulso de Afrodite.
— Saia. Ele me olhou com raiva.
— Não vai querer puxar uma briga comigo, Hefesto. Solte-a. Estou pedindo com educação.
Ele deu um último apertão no pulso dela antes de soltar. Afrodite se encolheu, segurando o braço.
— Essa conversa não terminou. Disse para ela, saindo batendo os pés.
Ela suspirou, recuperando a pose. Cruzei os braços.
— Quer dizer que não são casados?
Ela me olhou envergonhada, o que só aumentou minha raiva.
— Nunca me casei com ninguém. Hefesto inventou isso. Disse, massageando o pulso. — E claro, todos acreditam no que os homens falam, não em nós.
Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Aquilo pareceu um sinal de vulnerabilidade em alta escala. Respirei fundo e me aproximei. Com delicadeza, puxei seu pulso. Ela me olhou atentamente. Aos poucos, as marcas dos dedos foram sumindo.
— Como fez isso? Perguntou. Sorri.
— Acha que aguento dias de guerra como? Tenho poder de cura rápida. Às vezes consigo passar para outros, quando estou de bom humor.
Seus lábios vermelhos se repuxaram em um sorriso de agradecimento.
— Sabe que tem que aprender a se defender. Nem sempre vou estar aqui.
Ela recolheu o pulso com delicadeza e suspirou.
— Sim, eu sei. Mas não tenho poderes como você. Sou a deusa do amor. Sorri, piscando.
— Só não sabe usá-los para o m*l.
Ela pareceu indignada.
— Não uso meus poderes para isso.
Ponderei com a cabeça.
— Vai ter que começar a usar. Ou pessoas como Hefesto vão te fazer de gato e sapato.
Seus ombros caíram, e ela suspirou.
— Como faço isso?
Meu sorriso foi de orelha a orelha.
— Está pedindo minha ajuda? Perguntei. Ela revirou os olhos.
— Não entendo de ser mau. Você sim poderia me ensinar... Estou cansada de ser um fantoche na mão dele.
Balancei a cabeça.
— Ajudo, mas com algumas condições.
Ela murmurou algo baixo, mas não me impediu de continuar.
— Vai deixar eu comer suas uvas sem reclamar.
Ela cruzou os braços, irritada.
— Você acaba com todas elas.
Sorri.
— É pegar ou largar. Estendi a mão. Ela me olhou por alguns segundos e, enfim, cedeu, apertando minha mão.
— Sem brincadeiras idiotas.
Ri.
— Isso é impossível. Não teria graça.
E pela primeira vez, ela riu de verdade para mim.