Mikhail
Eu dirigi de volta sem trocar uma palavra com ninguém, mantendo o olhar fixo na estrada enquanto reorganizava cada parte da operação na cabeça. O resultado não era aceitável no padrão que eu trabalho. A missão tinha sido concluída apenas pela metade, e isso criava um problema maior do que o inicial. A criança estava segura, o objetivo principal tinha sido cumprido, mas Lorenzo continuava solto, e isso transformava tudo. Ele deixou de ser um alvo pontual e passou a ser uma variável ativa, imprevisível, alguém que agora tinha motivo suficiente para agir sem cálculo.
Quando cheguei à base, não parei para falar com ninguém. Fui direto até o cômodo onde estavam com a criança, porque precisava confirmar pessoalmente que tudo estava sob controle. Ela estava sentada, mais tranquila do que o esperado para alguém que tinha passado pelas últimas horas, observando o ambiente ao redor com atenção, como se tentasse entender onde estava. Um dos homens tentava manter alguma interação com ela, falando baixo, sem jeito, mas suficiente para evitar que o silêncio voltasse a incomodar.
Eu observei por alguns segundos antes de me aproximar. Peguei a criança com cuidado, ajustando o corpo pequeno nos braços, sentindo o peso leve e o calor, algo que não fazia parte da minha rotina, mas que naquele momento carregava uma responsabilidade diferente. Aquilo não era uma questão de território, dinheiro ou poder. Era contenção. Era garantir que ela permanecesse viva e fora do alcance dele até que tudo fosse resolvido.
— Preparem um quarto — falei, mantendo o tom baixo, mas direto. — Quero tudo o que uma criança precisa.
Eles assentiram imediatamente.
— E ninguém entra sem autorização.
Não houve questionamento.
Eu entreguei a menina para uma das mulheres da casa, alguém de confiança, que sabia lidar com aquele tipo de situação melhor do que qualquer homem ali. Observei enquanto ela a levava, garantindo que o cuidado seria mantido, antes de virar e sair sem prolongar a cena.
Não havia mais nada a ser feito ali naquele momento.
Fui direto para o hospital.
O hospital da organização não funcionava como um ambiente comum. Era isolado, protegido em todos os acessos, com controle de entrada rigoroso e vigilância constante. Nada ali era improvisado, e ninguém circulava sem autorização. Quando cheguei, não precisei me identificar mais do que o necessário. Os homens sabiam quem eu era, e isso era suficiente para abrir caminho.
Segui direto até o andar onde Dmitry estava.
A porta foi aberta sem anúncio.
Ele estava deitado, como deveria estar, ainda em recuperação, mas o olhar não era de alguém enfraquecido. Estava atento, consciente, avaliando. Mesmo ferido, ele mantinha o controle da situação, e isso era esperado.
— Você demorou.
A voz saiu direta, sem esforço.
Entrei e fechei a porta atrás de mim.
— A criança está com a gente.
Ele não respondeu de imediato, mas o silêncio foi suficiente. Ele entendeu.
— E o pai?
Me aproximei da mesa ao lado da cama, apoiando as mãos enquanto mantinha o olhar fixo nele.
— Fugiu.
O ambiente ficou em silêncio por alguns segundos, não por dúvida, mas por análise.
— Ele abandonou o carro e conseguiu sair antes da gente alcançar.
Dmitry respirou fundo, virando levemente o rosto antes de voltar a me encarar.
— Ele sabe que está sendo caçado agora — continuei. — E sabe que perdeu a única vantagem que tinha.
Ele permaneceu em silêncio por mais alguns segundos.
— Isso não é bom.
— Não é.
Mantive o tom estável.
— Ele está sem controle. E agora, sem a criança, não tem motivo para se conter.
Dmitry voltou o olhar diretamente para mim.
— Alessia.
Assenti uma vez.
— Ele vai atrás dela.
O silêncio voltou, mas dessa vez mais pesado. Aquilo não era uma hipótese levantada por precaução. Era consequência lógica.
— Já mandou gente? — ele perguntou.
— Ainda não.
Ele franziu levemente a testa, esperando continuação.
— Eu vim falar com você primeiro.
Me afastei da mesa, caminhando alguns passos pelo quarto, organizando a linha de ação com precisão antes de expor.
— Se eu mandar alguém agora sem controle, ele pode reagir pior. Ele está pressionado. E gente pressionada não segue padrão, não responde do jeito esperado.
Dmitry me observava com atenção.
— E o que você pretende fazer?
Parei, encarando diretamente.
— Tirar ela de lá antes dele chegar.
Não houve resposta imediata, mas o entendimento foi claro.
— Não dá para arriscar — continuei. — Se ele chegar antes da gente, a situação sai do controle.
Dmitry passou a mão pelo rosto devagar, absorvendo.
— E a criança?
— Fica sob minha responsabilidade.
Mantive o tom firme.
— Em segurança.
Ele assentiu uma vez.
— Faz.
Simples.
Direto.
Sem espaço para discussão.
Virei para sair, mas antes de alcançar a porta ele falou novamente.
— Se ele chegar nela primeiro…
Parei, olhando por cima do ombro.
— Ele não vai.
Abri a porta e saí sem dizer mais nada.