Mikhail
Eu saí do quarto do hospital sem olhar para trás, porque já não havia mais nada a ser discutido ali. Dmitry tinha entendido a gravidade da situação e eu não precisava repetir o óbvio. A criança estava segura, mas aquilo não resolvia o problema principal, apenas adiava o que viria em seguida. Lorenzo não era o tipo de homem que desaparecia depois de perder algo importante, muito menos alguém que aceitava uma derrota sem reagir. Ele tinha perdido a única vantagem que possuía, e isso o tornava mais perigoso do que antes, porque agora não existia mais limite, não existia mais contenção, apenas objetivo.
Caminhei pelo corredor do hospital mantendo o ritmo constante, ignorando completamente o movimento ao redor. Médicos, seguranças, funcionários, nada daquilo tinha importância naquele momento. Eu não precisava olhar para ninguém, não precisava interagir com ninguém. Tudo o que precisava já estava definido, e o próximo passo dependia de execução precisa, sem margem para erro. Peguei o telefone enquanto ainda atravessava o corredor e fiz a ligação sem hesitar, aguardando apenas o tempo necessário para que fosse atendida.
— Fala.
A voz veio tranquila, estável, sem qualquer sinal de urgência, como se aquela fosse apenas mais uma ligação comum. Aquilo nunca mudava, independentemente da situação.
— Você vai trabalhar agora — falei direto, sem introdução.
— Eu sempre trabalho — ele respondeu, com um leve tom de ironia controlada.
— Então começa a tratar isso como prioridade.
Houve uma pausa curta do outro lado, não de dúvida, mas de ajuste.
— Estou ouvindo.
Parei de andar por um instante, encostando levemente no vidro que dava vista para a área externa do hospital. Não porque precisava pensar mais, mas porque queria organizar as informações da forma mais direta possível, sem espaço para interpretação errada.
— O pai da criança fugiu.
O silêncio que veio em seguida foi breve, mas suficiente.
— Isso complica — ele disse.
— Complica se você errar — respondi na mesma hora. — Se fizer certo, a gente resolve antes de virar problema.
— Ele está indo atrás dela?
— Ele não tem mais nada — falei, mantendo o tom estável. — A única coisa que sobrou foi a mulher.
Outra pausa, menor dessa vez, mais focada.
— Então você quer que eu vá até ela.
— Não — corrigi, sem alterar a voz. — Eu quero que você tire ela de lá.
O silêncio mudou. Não era mais avaliação superficial, era cálculo.
— Ela sabe de nós?
— Sabe o suficiente para entender o risco.
— E isso ajuda ou atrapalha?
Respirei fundo antes de responder, não por dúvida, mas porque a resposta dependia mais da execução dele do que da situação em si.
— Depende de como você vai entrar.
Ele soltou uma leve risada, controlada.
— Então você quer que eu seja cuidadoso.
— Eu quero que você seja eficiente.
Deixei um pequeno espaço antes de continuar, não para criar efeito, mas para garantir que ele estivesse alinhado com cada detalhe.
— Você vai até o condomínio dela, entra sem chamar atenção e tira ela de lá antes que ele chegue.
— E se ele já estiver lá?
— Então você resolve.
A resposta foi direta, sem qualquer necessidade de ajuste.
— Posso eliminar?
— Se for necessário.
Minha voz saiu seca.
— Mas ele não é a prioridade.
— É ela — ele completou.
— Exatamente.
Voltei a caminhar pelo corredor, mantendo o ritmo constante.
— Eu não quero barulho, não quero exposição e não quero erro.
— Você está pedindo precisão em tempo curto — ele respondeu.
— Eu estou exigindo o mínimo.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era entendimento.
— Para onde eu levo ela?
— Para a mansão.
— Direto?
— Direto.
Não havia alternativa segura fora disso.
— E a segurança?
— Total.
Fiz questão de reforçar.
— Você não vai limitar recurso.
Ele permaneceu em silêncio, absorvendo.
— Se precisar trocar de carro, troca. Se precisar mudar rota, muda. Se precisar isolar o perímetro, isola. Eu não quero variável fora do controle.
— Entendi.
— Eu quero ela dentro da mansão antes do amanhecer.
— Você está com pressa.
— Eu estou antecipando o movimento dele.
Houve uma pequena pausa.
— Ele vai atrás dela.
— E você não quer que ele encontre.
— Não.
Sem espaço para dúvida.
— E se ela resistir?
— Ela vai resistir — respondi sem hesitar. — E isso não muda nada.
— Então eu posso forçar?
Parei de andar.
— Você faz o que for necessário.
Minha voz desceu um tom.
— Mas não machuca ela.
O silêncio que veio depois foi mais longo, mas não era incerteza.
— Entendi.
Eu sabia que ele tinha entendido. Não havia necessidade de repetir.
— Quando você chegar lá, você deixa claro que é a única chance dela sair viva dessa situação.
— E se ela não acreditar?
— Então você faz ela acreditar.
Simples. Direto. Funcional.
— Você está confiando muito em mim — ele disse.
— Eu não confio em ninguém.
Respondi sem pausa.
— Eu só sei escolher quem resolve.
Ele soltou um riso baixo.
— Justo.
Continuei andando até alcançar a saída do hospital, parando por um instante diante da porta de vidro antes de continuar.
— Quanto tempo você precisa?
— O suficiente.
— Você não tem esse tempo.
Minha resposta veio firme.
— Então eu vou ser rápido.
— É o mínimo que eu espero.
Houve uma pausa curta.
— Mais alguma coisa?
— Tem.
Falei antes que ele encerrasse.
— Se ele aparecer lá…
O silêncio veio imediato.
— Não deixa ele sair.
A resposta não demorou.
— Pode deixar.
A linha ficou muda.
Guardei o telefone no bolso, mantendo o olhar fixo à frente por alguns segundos antes de atravessar a saída do hospital. O ar da noite estava mais frio do que antes, mas aquilo não alterava nada. A operação já estava em andamento, e, a partir daquele ponto, não dependia mais de planejamento.
Dependia de execução.
E eu sabia exatamente quem estava executando.