Ekaterina
Meu nome é Ekaterina, mas poucas pessoas me chamam assim. Para a maioria, sou apenas a mulher de Mikhail, e isso, por si só, já diz muito sobre quem eu sou e o lugar que ocupo dentro desse mundo. Tenho vinte e quatro anos, e a minha vida tomou um rumo completamente diferente do que eu tinha planejado quando ainda estava na faculdade, tentando construir algo longe de tudo isso. Eu não nasci dentro desse universo, não fui criada para isso, mas, depois que perdi meus pais, tudo mudou rápido demais, e foi nesse processo que eu encontrei Mikhail.
Ou talvez tenha sido o contrário.
Ele me encontrou.
Desde o começo, eu entendi que, para estar ao lado de um homem como ele, não bastava apenas amar. Era preciso ter controle, inteligência e, acima de tudo, não demonstrar fraqueza. Homens como Mikhail não se mantêm no topo sendo cercados por pessoas frágeis, e mulheres que não sabem se impor acabam sendo deixadas para trás. Eu aprendi isso cedo e nunca permiti que ninguém confundisse o meu lugar. Eu sei o que eu tenho, sei o homem que tenho ao meu lado e sei exatamente como manter isso.
Quando ele me pediu o relatório, eu já sabia que não seria algo simples. O tom da voz dele não deixava espaço para dúvidas, e, conhecendo Dmitry como eu conheço, aquilo não era um pedido comum. Havia urgência, havia interesse, e isso tornava tudo mais delicado do que aparentava.
Eu comecei pelo básico, acionando contatos que normalmente só uso em situações mais sensíveis. Informações sobre um policial influente não são acessadas com facilidade, e qualquer movimento errado poderia gerar atenção desnecessária. Ainda assim, não demorou muito para que os primeiros dados começassem a chegar. Nome, histórico, movimentações recentes, conexões dentro da estrutura estatal, tudo foi sendo organizado com cuidado, cruzando cada detalhe para garantir que nada estivesse fora do lugar.
Mas aquilo não era suficiente.
Eu precisava de imagens.
Precisava de confirmação visual.
Foi então que entrei em contato com alguém responsável pelo acesso às câmeras da região onde tudo aconteceu. Não era algo oficial, nunca era, mas dinheiro sempre abre portas que deveriam permanecer fechadas. Em pouco tempo, recebi os registros das ruas próximas, os horários, os veículos envolvidos e, o mais importante, imagens dos homens que participaram da ação antes de cobrirem os rostos.
Aquilo foi o suficiente para identificar cada um deles.
Nenhum era desconhecido.
Isso já dizia muito.
Quando finalizei a análise, organizei tudo em um relatório completo e voltei para o escritório. Mikhail já estava lá, andando de um lado para o outro, claramente impaciente, o que não era comum nele. Ele sempre foi controlado, sempre soube esperar, mas aquela situação tinha tirado isso dele.
Eu me sentei à frente dele e coloquei o material sobre a mesa, observando enquanto ele finalmente parava.
— Eu tenho tudo.
Ele não perdeu tempo, puxando os documentos e analisando rapidamente, enquanto eu explicava cada ponto com clareza.
— Os homens que participaram da ação já foram identificados. Nenhum deles é amador. Todos têm histórico, todos sabem o que estão fazendo. Isso não foi improvisado.
Ele levantou o olhar por um segundo.
— E a criança?
— Ainda não há registro direto dela nas imagens — respondi. — Mas conseguimos rastrear os veículos até um certo ponto. Depois disso, eles saíram das áreas monitoradas.
Fiz uma pequena pausa antes de continuar.
— Mas não desapareceram.
Ele ficou em silêncio.
— Existe uma área rural em Itaguaí onde o sinal foi perdido. Isolada, pouco monitorada e com acesso fácil para deslocamento rápido. É o tipo de lugar que alguém escolheria para não ser encontrado facilmente.
Mikhail voltou a olhar os documentos, absorvendo cada detalhe.
— E o pai?
Eu deslizei uma foto na direção dele.
— Lorenzo.
Ele observou a imagem por alguns segundos.
— Policial. Respeitado. Com influência suficiente para dificultar qualquer abordagem direta.
Ele assentiu levemente.
— E a mãe?
— Alessia.
A resposta veio com naturalidade.
— Médica. Sem histórico comprometedor. Tudo indica que ela está completamente fora desse tipo de ambiente.
Eu fiz uma pausa breve antes de acrescentar o que ele ainda não tinha dito em voz alta.
— Mas Dmitry não está.
Mikhail soltou um pequeno suspiro, quase imperceptível.
— Eu imaginei.
Eu apoiei o corpo na cadeira, cruzando as pernas com calma.
— Ele não faria isso sem motivo.
— Ou faria — ele respondeu.
Eu dei um leve sorriso.
— Não nesse nível.
Ele não rebateu.
Porque sabia que eu estava certa.
— Ela não parece o tipo de mulher que se envolveria com alguém como ele — continuei. — Mas isso não impede que ele esteja interessado.
O silêncio se estendeu por alguns segundos.
— Isso vai dar problema.
— Já deu.
A resposta saiu simples.
Direta.
Mikhail fechou a pasta com mais força do que o necessário, claramente incomodado com a situação, mas não era apenas sobre a mulher. Era sobre a ordem, sobre o que aquilo representava e sobre o que ele precisava fazer a partir dali.
— Eles estão armados — finalizei. — E preparados.
Ele assentiu, já tomando a decisão.
— Eu vou buscar essa criança.
A forma como ele disse não deixou espaço para discussão.
— Ela não tem culpa do pai que tem.
Eu observei em silêncio, porque, naquele ponto, não havia mais nada a ser acrescentado.
Ele já estava em movimento.
Já tinha decidido.
E, quando Mikhail decidia alguma coisa…
Aquilo era resolvido.
Eu me levantei devagar, me aproximando dele antes que saísse, ajustando discretamente a gola da camisa, como sempre fazia antes de qualquer ação importante.
— Quando você voltar, eu vou estar te esperando.