Mikhail
Meu nome é Mikhail Ivanov. Tenho vinte e oito anos e, por muito tempo, fui apenas o braço direito do meu irmão, o homem que resolvia o que precisava ser resolvido sem questionar, sem hesitar e sem precisar entender completamente o porquê de cada decisão. Dmitry sempre foi o Don, sempre esteve à frente, sempre teve o controle absoluto, e eu sempre estive ao lado dele, garantindo que esse controle fosse mantido. Não era uma divisão formal, era natural, construída ao longo dos anos, desde o momento em que entramos naquele mundo e entendemos que não havia caminho de volta.
Nós crescemos dentro disso.
Respiramos isso.
E, em algum momento, deixamos de questionar.
Mas assumir o comando na ausência dele era diferente. Muito diferente. Quando ele estava presente, tudo girava ao redor de decisões diretas, rápidas e definitivas. Quando ele não estava, tudo caía sobre mim. Cada problema, cada conflito, cada decisão que poderia escalar para algo maior do que o necessário, tudo precisava passar por mim antes de seguir adiante. E, mesmo sendo preparado para aquilo, havia dias em que a pressão se acumulava de forma mais intensa do que eu estava disposto a admitir.
A ligação dele foi um desses momentos.
Eu já sabia, pelo tom, que não era algo simples. Dmitry não ligava para dar ordens banais, não ligava para delegar tarefas comuns. Quando ele entrava diretamente em contato, era porque algo exigia atenção imediata, algo que não podia esperar nem ser tratado por intermediários.
E foi exatamente isso.
Uma criança.
Sequestrada pelo próprio pai.
Eu permaneci em silêncio depois que a ligação foi encerrada, com o telefone ainda na mão, analisando o que tinha acabado de ser colocado sobre a mesa. Não era apenas uma missão complicada, era uma situação delicada, envolvendo alguém com influência, alguém que claramente não agiria dentro de limites convencionais. Aquilo não era um confronto comum entre organizações, não era uma disputa de território ou poder. Era pessoal.
E isso sempre tornava tudo mais imprevisível.
Passei a mão pelo rosto devagar, tentando organizar os próximos passos, quando ouvi a porta se abrir e Ekaterina entrar no escritório. Ela me observou por alguns segundos antes de se aproximar, percebendo imediatamente que algo não estava dentro do padrão.
— O que aconteceu?
Eu soltei o ar devagar antes de responder, mantendo o tom controlado.
— Dmitry quer que eu recupere uma criança.
Ela franziu levemente a testa.
— Isso não parece ser o tipo de coisa que ele costuma tratar diretamente.
— Não é.
Fiz uma breve pausa.
— O pai sequestrou a própria filha para forçar a mãe a voltar.
A expressão dela mudou.
— Isso complica.
— Complica mais do que parece — continuei. — Ele tem influência. Está dentro da estrutura estatal.
Ela cruzou os braços, pensativa.
— Então você está sendo colocado no meio de algo que pode escalar rapidamente.
— Não é uma possibilidade.
Olhei diretamente para ela.
— Vai escalar.
O silêncio que se formou não foi longo, mas foi suficiente para que ela entendesse exatamente o tipo de situação que estávamos lidando.
— E você não pode recusar — ela disse.
— Não.
A resposta saiu simples.
Direta.
— Não foi um pedido.
Ela assentiu levemente, como se já esperasse aquilo.
— Então você precisa de informação antes de qualquer movimento.
— Exatamente.
Aproximei-me da mesa e apoiei as mãos sobre a superfície, organizando mentalmente as prioridades.
— O nome dele é Lorenzo. Eu quero tudo sobre ele. Histórico, conexões, movimentações recentes, qualquer padrão que possa indicar onde ele levaria a criança.
Ela não hesitou.
— Eu posso acessar os registros.
— Eu também quero o número dele.
Ela levantou o olhar.
— Para rastreamento?
— Para controle.
Minha resposta foi direta.
— Se ele ainda estiver se movimentando, eu quero saber antes de qualquer outra pessoa.
Ekaterina assentiu novamente, já processando as informações com rapidez.
— Isso não vai ser simples.
— Não precisa ser simples.
Fiz uma pausa curta.
— Precisa ser rápido.
Ela permaneceu em silêncio por um instante antes de levantar um ponto que eu já esperava.
— Existe alguma forma de resolver isso sem intervenção direta?
Eu a encarei por alguns segundos antes de responder.
— Não.
A palavra saiu firme.
— Ele já cruzou uma linha que não permite negociação.
Ela não insistiu.
Porque sabia.
— Então você vai se envolver diretamente.
— Eu não tenho escolha.
Dei alguns passos pelo escritório, sentindo o peso da decisão, não porque ela era difícil, mas porque ela já estava tomada antes mesmo de ser completamente analisada.
— Isso não é apenas sobre cumprir uma ordem — continuei. — É sobre o que isso representa.
Ekaterina observou em silêncio.
— Uma criança foi tirada da mãe.
Fiz uma pausa.
— Isso não é algo que a gente ignora.
Ela relaxou levemente a postura, como se aquela resposta fosse suficiente.
— Eu vou levantar tudo o que conseguir.
— Faça isso agora.
Ela já estava se virando para sair quando eu acrescentei outra coisa.
— E começa a acelerar o processo do Dmitry.
Ela parou.
— Você sabe que isso não depende só de nós.
— Nada depende só de nós.
Minha voz saiu calma.
— Mas isso nunca impediu a gente antes.
Ela suspirou levemente.
— Você está pensando em pressionar o sistema.
— Eu estou pensando em tirar ele de lá.
Ela se virou completamente agora.
— Isso pode exigir medidas mais agressivas.
— Eu sei.
O silêncio voltou por alguns segundos.
— Então precisamos escolher bem o alvo.
Eu sustentei o olhar dela.
— Escolhe.
Ela assentiu.
— Primeiro eu resolvo a informação do homem.
— Prioridade.
Ela abriu a porta, mas antes de sair, olhou novamente para mim.
— Você vai começar pela criança.
— Sim.
Minha resposta não teve hesitação.
— Uma coisa de cada vez.
Ela assentiu e saiu, deixando o escritório novamente em silêncio.
Eu permaneci parado por alguns segundos, organizando mentalmente tudo o que precisava ser feito. Aquilo não era uma missão comum, não era algo que poderia ser tratado de forma superficial, e cada passo precisava ser calculado para evitar que a situação fugisse do controle mais do que já estava.
Peguei o telefone novamente e comecei a acionar as pessoas certas, aquelas que não faziam perguntas desnecessárias e que sabiam exatamente como agir quando o tempo era um fator crítico. A localização precisava ser definida, os movimentos precisavam ser antecipados e, acima de tudo, a criança precisava ser retirada daquela situação sem margem para erro.