Dmitry
A dor ainda limitava meus movimentos, mas não limitava minhas decisões. Eu permanecia deitado, com o corpo parcialmente elevado, sentindo o incômodo constante no ferimento enquanto organizava tudo com frieza, porque, naquele tipo de situação, não havia espaço para hesitação. O que aconteceu com Alessia não era apenas um problema pessoal dela, era uma afronta direta ao que eu representava, e o simples fato de alguém ter tido a audácia de sequestrar uma criança para forçar uma mulher a voltar já era suficiente para ultrapassar qualquer limite aceitável dentro de qualquer estrutura que ainda se sustentasse sob algum tipo de lógica.
Aquilo não era estratégia.
Não era poder.
Era fraqueza.
Eu não precisava conhecer Lorenzo pessoalmente para entender exatamente que tipo de homem ele era. Homens que usam filhos como moeda de troca não operam com cálculo, operam com descontrole, e descontrole sempre deixa rastros. Ele agiu rápido demais, impulsivo demais, confiante demais na própria posição, e esse tipo de erro, dentro do meu mundo, não se corrige com conversa.
Se corrige com resultado.
A dor puxou quando ajustei levemente o braço, mas ignorei. Aquilo era irrelevante diante do que precisava ser feito. Estendi a mão com calma e peguei o celular sobre a mesa ao lado da cama, já sabendo exatamente para quem ligaria antes mesmo de desbloquear a tela. O número estava salvo, e não havia necessidade de pensar duas vezes. A chamada foi atendida rapidamente, como deveria ser.
— Eu espero que tenha um bom motivo para estar me ligando agora.
A voz veio controlada, atenta, sem perder o respeito necessário.
Eu não perdi tempo.
— Você vai parar de falar e vai ouvir.
O silêncio foi imediato.
— Uma criança foi levada. Eu quero que você encontre.
Houve uma pausa curta, suficiente para que ele processasse a informação, mas não longa o bastante para indicar resistência.
— Isso não faz parte das minhas funções.
— Agora faz.
Minha voz não mudou.
— O pai levou a própria filha. Ele tem influência, recursos e provavelmente já se preparou para esconder a criança. Eu não quero análise superficial. Eu quero resultado.
Ele respirou fundo do outro lado.
— Você está me pedindo para entrar em território sensível.
— Eu não estou pedindo.
O silêncio voltou, mais pesado dessa vez.
— Eu vou te enviar tudo que já temos — continuei, sem alterar o tom. — Nome, imagens, últimos registros, possíveis rotas de saída, conexões próximas. Você vai usar isso como base e vai expandir. Quero rastreamento, movimentação bancária, comunicação interceptada, qualquer pessoa que tenha facilitado isso.
— E quando eu encontrar?
Meu olhar se fixou no teto por um segundo antes de responder.
— A criança volta intacta.
Fiz uma pausa curta.
— O resto não importa.
Ele soltou um leve suspiro.
— Isso vai gerar problema.
— Não é problema meu.
A resposta saiu direta.
Sem peso.
— Eu quero isso resolvido em vinte e quatro horas.
— Você está sendo otimista.
— Eu estou sendo claro.
O silêncio que veio depois não era dúvida, era cálculo.
— Eu vou precisar de gente.
— Use quem for necessário.
— E se isso escalar?
— Vai escalar.
Virei o rosto lentamente.
— Então faça direito.
A linha permaneceu em silêncio por alguns segundos antes da resposta final.
— Eu vou resolver.
— Eu sei.
Desliguei sem prolongar, porque não havia necessidade. As instruções tinham sido dadas, e, a partir daquele ponto, execução não era mais uma variável, era obrigação.
Apoiei o celular novamente na mesa e fechei os olhos por um breve instante, não para descansar, mas para reorganizar o que vinha depois. Aquilo não era apenas sobre encontrar a criança, era sobre antecipar movimentos, entender as possíveis reações de Lorenzo ao perceber que estava sendo rastreado e eliminar qualquer margem de erro antes que ele tivesse tempo de agir novamente. Homens como ele não recuam quando pressionados, eles se tornam mais imprevisíveis, e imprevisibilidade, quando não controlada, vira risco.
E risco não é tolerado.
Ele não agiu sozinho.
Isso era evidente.
Alguém abriu caminho.
Alguém forneceu acesso.
Alguém garantiu tempo.
E, enquanto a busca acontecia, essa parte também seria tratada, porque deixar um ponto aberto dentro da estrutura é permitir que o erro se repita, e eu não repito erros.
A porta se abriu com discrição, e Mikhail entrou sem pressa, observando o ambiente antes de se aproximar. Ele não perguntou nada, não precisava, porque já sabia que eu não estava ali apenas me recuperando.
— Já começou?
— Já.
Ele assentiu levemente.
— Quem?
— Alguém que não falha.
Mikhail cruzou os braços, avaliando.
— Isso vai atrair atenção.
— Já atraiu.
— O pai tem influência.
— Não suficiente.
A resposta saiu sem hesitação.
Ele me observou por alguns segundos.
— E quando encontrarem?
— A criança volta.
Fiz uma pausa curta.
— O resto não interessa.
Mikhail assentiu, porque sabia exatamente o que aquilo significava.
— E a parte interna?
— Já está sendo tratada.
Ele não questionou.
Não precisava.
Porque nós dois sabíamos que aquilo não era apenas um caso isolado, era uma quebra de confiança, e quebra de confiança não se corrige com conversa.
Se corrige com eliminação.
A conversa não se prolongou. Não havia necessidade de repetir o que já estava claro. Ele saiu poucos segundos depois, deixando o ambiente novamente em silêncio, interrompido apenas pelos sons controlados do equipamento ao meu lado.
Eu permaneci deitado, olhando para o teto, sentindo o tempo passar de forma calculada enquanto cada peça começava a se encaixar. A dor ainda estava ali, constante, lembrando que meu corpo ainda não acompanhava o ritmo da minha mente, mas isso não alterava nada.
O que importava já estava em movimento.
Ela pediu ajuda.
E eu respondi.
Sem negociação.
Sem atraso.
Sem espaço para erro.
Porque, naquele momento, não era apenas sobre resgatar uma criança.
Era sobre deixar claro que ninguém atravessa um limite desses…
E sai intacto.